Fabiana Faleiros nasceu em 1980 na cidade de Pelotas, RS. Atualmente vive em São Paulo, onde cursou mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. É escritora, artista visual e performer. Em 2007 publicou seu primeiro livro, com poemas feitos para fotografias do banco de imagens publicitárias gettyimages. Desde 2010 desenvolve a Coleção Autobiografia, com os livros Tudo o que escrevi durante um mês e Casa/Trabalho (publicações independentes). No mesmo ano publicou o livro Como se escreve uma imagem?, resultado de uma oficina ministrada na 29 Bienal de São Paulo. Em suas performances, realizadas em espaços urbanos, galerias de arte e festas, costuma criar improvisações com bases eletrônicas a partir de situações sociais específicas. Dentre suas exposições recentes destaca-se a performance My Wall Fell no Festival Camp/Anti-Camp: A Queer Guide To Everyday Life, realizada em 2012 no Teatro HAU-2, Berlim, junto com o artista Rafael RG. Trabalha em seu blog do tempo antigo, virandooazeite, no google e no facebook.
O vídeo abaixo foi gravado em Berlim, num dos conhecidos cemitérios protestantes da Bergmannstrasse, o Dreifaltigkeitskirchhof II, onde estão enterrados o poeta Ludwig Tieck (1773 - 1853), o arquiteto Martin Gropius (1824 - 1880) e o historiador Theodor Mommsen (1817 - 1903) – ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1902.
Os poemas de Fabiana Faleiros foram selecionados de seu livro inédito, intitulado Como criar para si objetos sólidos. A série "Marie e P." foi publicada na íntegra no terceiro número impresso da Modo de Usar & Co.
--- Ricardo Domeneck
§
POEMAS DE FABIANA FALEIROS
§
não sei como você ama
desconheço
não sei como são seus motivos
por exemplo
desconheço
para saber quando você ama
se sabe quando você ama
se é de seu conhecimento
por exemplo
se você ama
e por qual motivo
§
O rosto é a parte mais expressiva do corpo
devido à alta proximidade com o cérebro
.
Lançado em nossa maior extremidade
um dos dedos aparece como indicador na mão
.
Longe do cérebro e perto do chão
ficam as solas dos pés
§
Marie e P. (excertos)
Marie e P. sufocaram-se
com dois travesseiros brancos.
Depois passaram dias naquela cama,
e ninguém viu.
Até então
Marie havia colecionado alfinetes
e P. cuidava deles.
§
Marie e P. contornavam-se
periodicamente
com uma fita escura.
Apertado,
P. costumava se movimentar
até os pés de Marie,
que os mantinha somente com as pontas no chão.
§
Marie avisou P.
na verdade Marie gostaria de ter salvado P.
de um guarda-chuva
que o vento cravou-lhe nas costas
quanto ele estava fechado.
§
Marie e P. passavam dias fabricando
cortinas,
costurando os tecidos.
Depois as penduravam nas paredes.
O nome era "Janela".
§
Marie diz
toco o piano
tenho as duas mãos atadas
uma mão atada na outra
eu penso
o plano é indefinível
assim como o ângulo
desconheço
minhas duas mãos estão atadas
e escuto a música que toco
não consigo definir o ângulo
nem o plano
§
P. lembra
Que falava com os mesmos nomes impossíveis da novela
e tudo que continha esse gesto exagerava:
full, full
of choice
então seu rosto volta para o lugar
§
E Marie:
Isto é o que chamo de P.
P. é uma pessoa, um gênero,
um avião pousando.
Nos objetos de P. suas mãos caem.
§
Vídeo feito em residência no JACA - Centro de Arte, BH. FAz parte do Projeto Festa Própria, de Fabiana Faleiros. Com Olga Robayo e Vitor Faleiros
.
Johannes CS Frank nasceu em Southend-on-Sea, Inglaterra, em 1982. Cresceu na Alemanha, entre as cidades de Kiel e Heidelberg. Estudou Língua e Literatura Inglesas e Teologia na Universidade Humboldt, em Berlim. Vive em na capital alemã como poeta, tradutor e editor, dirigindo a editora Verlagshaus J. Frank | Berlin desde 2008, coeditando a revista Belletristik e, com o ilustrador Felix Scheinberger, a revista Alltag, editada na Alemanha e Israel. Editou ainda a revista anglófona Bordercrossing Berlin entre 2005 e 2007, e é o diretor artístico do festival Zeitkunst, ao lado de Julian Arp e Caspar Frantz. Publicou Märchenland. Die Gebrüder Grimm in Israel (2009) e Remembrances of Copper Cream (2012).
--- Modo de Usar & Co.
§
POEMAS DE JOHANNES CS FRANK
conforto material
e contra todas as expectativas
encontrei enfim deus
numa sala construída por católicos
neste paraíso de ateus
acocorando-se sob os bancos
ele juntava flores de flogisto
religando-as a uma seleta
corrente de consolações
bem, a laje não funcionou
mas funciona para alguém?
nem as lascas de cerca de vinte
ou mais cruzes
nem os pedregulhos que juntos
formam a todo-poderosa pedra paradoxal
mas ali naquela sala
ancoradamente sentado
alegria de criança
silêncio confinado
uma oração gaguejada
à cama minhas urgências exotérmicas
apropriadas e alfabéticas
transgressões
cortam meu pescoço
em sentido horário a argila no torno
uma conversão de manjedoura
enquanto o shem ainda queimava
sob minha língua
lá colocada pelo próprio yossel de meu pai
que cuspiu a praga goy
por toda a minha cara
então amassa-me com água de nascente
e torna-me inerte
e uma falha no forno
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
material comfort
and against all odds i did find god in a room built by catholics in this atheist’s paradise cowering beneath the pews he was assembling phlogiston flowers reattaching them to a culled consolation chain well, the slab didn’t work but does it for anyone? nor the splinters from twenty or so crosses nor the pebbles which together are the all-powerful paradoxical stone but there in that room firmly seated a child’s delight confined silence a stuttered prayer to bed my exothermic needs:
appropriate alphabetical transgressions cut my throat in a clockwise clay reversion a birthbed conversion while the shem still burnt under my tongue put there by my father’s own yossel who spat the curse goy all over my face so knead me with spring waters and render me lifeless and a fault in the firing
§
em parassonia caminha ao calvário
convulsões atônicas piscar pascer
inércia do sono puxa-o para dentro
mulher russa, faça-se de santa, bebê
finge um transe r.e.m.
desperto por segundos cruzes na parede
grafite das cruzadas uma cruz por vida
privação de crença diagnostica o médico
a ser curada com uma gota de sangue
:
parasomnious walks to the calvary atonic seizures a wink a way sleep inertia pulls him inside
a russian woman, look holy, baby poses an r.e.m. cheat
awake for seconds crosses on the wall crusaders graffiti a cross for a life belief deprivation the doctor says to be cured with a drop of blood.
§
hommage à un connu inconnu cometer um pecado mortal funciona exatamente assim:
dois dias mais tarde:
divulgação informação
dedos frios tocam teclas frias
horas aguardando resposta
passadas na neve
minha versão de sua white experience
boca cheia
dos restos do chalá de ontem
como amanheceu duro
pronunciando sem voz plosivas dentais
caminha sem palavras.
de volta à abadia
que nunca foi
a tela desperta
respostas notáveis só algumas:
“o que se espera de um poeta em dezembro”
“minha nossa”
“que diabos”
saciadas todas as expectativas.
dois dias depois do chanukiá
ser aceso pela última vez
recebi a notícia
ou melhor li
reunida em letras quebradiças
transmitidas ao contexto:
mãe / embaixada / filho / morta
ou assim declarava a voz
eu jamais a ouviria de novo
dever / informar
houve um impacto, eu admito,
minha primeira reação:
fluxo contínuo de palavrões
diretamente dirigidos
a você
amigos bebendo no salão
eu não querendo macular suas
conversas fluidas
com notícia
de tamanha irrelevância
uma lembrança:
você em setembro,
jogando cadeiras e ataques,
o sistema, você grita
um cinzeiro virado
sorrisos chocados pela fumaça
eu me uno a eles no salão
e fico em silêncio
baças minhas cordas vocais
com gim-tônica
preparado em infusões generosas
pelo belo garoto na cozinha.
então, em vagas:
luto / remorso / raiva / culpa
palavrões derramam-se no copo
assim que sua boca toca meus lábios
a urgência de falar
a urgência de partir
ao telefone com sua mãe
sinto muito / dever / remorso
e por que falo com ela?
por que ela não entende?
fases da negação
ao ir para a cama
a encontro dormindo
eu a acordo e sussurro
deixo ressoar a notícia
ela levanta-se e cuida de mim
deitado e desperto
imaginando que o riacho talvez carregue sangue
quando vier o degelo
uma olhadela em sua mão
preservada em tinta
para o que ora será posteridade
e é linda
eu o admito
semanas mais tarde
discussões mais tarde
consolos mais tarde
a verdade desdobra-se e consigo:
violência, premeditada.
Mas.
E eu admitirei isso,
enquanto permaneço em sua cité de décès
escolhida, sua violência permanece
uma confissão insatisfatória
essencialmente:
low tech
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
hommage à un connu inconnu committing a mortal sin goes exactly like this:
two days afterwards: information distribution cold fingers hit cold keys hours waiting for response spent in the snow my version of your
white experience
mouth filled with yesterday’s left-over challah how it turned stale pronouncing voiceless dental plosives walks without words.
back at the abbey that never was the screen awakes notable responses only a few: »what to expect from a poet in december« »oh my« »what the hell« all expectations met.
two days after the shamash was lit for the last time i heard the news or rather read assembled in brittle letters to the context transmitted: mother / embassy / son / dead a friend of the family or so the voice claimed i never would hear it again duty / inform
there was an impact, i’ll give you that, my first response: a steady flow of curses directed directly at you
friends drinking in the hall me not wanting to taint their liquid conversations with news of such irrelevance
a memory: you in september, throwing chairs and abuse, the system, you scream an overturned ashtray shocked smiles for the smoke
i join them in the hall and remain silent dull my vocal chords with gin and tonic prepared in liberal infusions by the beautiful boy in the kitchen. then, in surges: mourning / remorse / anger / guilt curses spill into the glass as soon as its rim touches my lips the urge to speak the urge to leave
on the phone with your mother i’m so sorry / duty / remorse and why am i speaking to her? and why won’t she understand? stages of denial
as i go to bed i find her asleep i wake her and whisper re-echo the news she rises and watches over me lying awake imagining that the brook may carry blood once the thaw sets in
a glance at your hand conserved in ink for what is now posterity and it’s beautiful i’ll give you that
weeks later discussions later consolations later truth unfolds and with it: violence, premeditated. But. and i’ll give you this, as i sit in your chosen
cité de décès your violence remains an insubstantial confession essentially: low tech.
Boris Vian nasceu em Ville d´Avray, nos arredores de Paris, a 10 de março de 1920. Foi poeta, romancista, compositor e cantor, tradutor, crítico de música, inventor e engenheiro. Contemporâneo exato de poetas tão diversos quanto João Cabral de Melo Neto, Paul Celan, Bob Cobbing, Henri Chopin, H.C. Artmann, Robert Duncan e Zbigniew Herbert, demonstrando a incrível pluralidade da poesia do pós-guerra.
Apresentamos nesta postagem uma série de traduções do poeta Ruy Proença, publicadas no volume
Boris Vian – poemas e canções (São Paulo: Nankin Editorial, 2001), selecionados de Je voudrais pas crever (1962). Também as traduções/adaptações de Letícia Coura e Paulo Ferraz para o texto da canção "J´suis snob", com seu original cantado pelo francês. Encerramos com um texto de Ruy Proença apresentando o trabalho de Vian, originalmente proferido no SESC Pompeia.
--- Modo de Usar & Co.
§
POEMAS DE BORIS VIAN Traduções de Ruy Proença
Se os poetas fossem menos bestas
Se os poetas fossem menos bestas
E se fossem menos preguiçosos
Fariam todo o mundo feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Levantariam casas douradas
Cercadas por enormes jardins
E árvores cheias de colibris
De rustiflautas e de aqualises
De pardongros e de luziverdes
De plumuchas e de picapratos
E de pequenos corvos vermelhos
Que soubessem tirar nossa sorte
Haveria grandes chafarizes
Jorrando luzes de zil matizes
Não faltariam duzentos peixes
Do crocantusco ao empedraqueixo
Do trilibelo ao falamumula
Da suazmina ao rara quirila
E do guardavela ao canifeixe
Provaríamos de um ar fresquíssimo
Perfumado pelo odor das folhas
Comeríamos quando quiséssemos
E trabalharíamos sem pressa
A arquitetar escadarias
De formas nunca dantes sonhadas
Com tábuas raiadas de lilás
Lisas como só ela sob os dedos
Mas os poetas são muito bestas
Para começar, eles escrevem
Ao invés de pôr a mão na massa
Isso lhes traz profundos remorsos
Que levam consigo até a morte
Radiantes por sofrerem tanto
O mundo os aclama com requinte
E os esquece no dia seguinte
Se a preguiça não fosse mania
Teriam fama por mais um dia.
:
Si les poètes étaient moins bêtes
Si les poétes étaient moins bêtes Et s’ils étaient moins paresseux Ils rendraient tout le monde heureux Pour pouvoir s’occuper en paix De leurs souffrances littéraires Ils construiraient des maisons jaunes Avec des grands jardins devant Et des arbres pleins de zoizeaux De mirliflûtes et de lizeaux Des mésongres et des feuvertes Des plumuches, des picassiettes Et des petits corbeaux tout rouges Qui diraient la bonne aventure Il y aurait de grands jets d’eau Avec des lumières dedans Il y aurait deux cents poissons Depuis le croûsque au ramusson De la libelle au pépamule De l’orphie au rara curule Et de l’avoile au canisson Il y aurait de l’air tout neuf Parfumé de l’odeur des feuilles On mangerait quand on voudrait Et l’on travaillerait sans hâte A construire des escaliers De formes encor jamais vues Avec des bois veinés de mauve Lisses comme elle sous les doigts Mais les poètes sont très bêtes Ils écrivent pour commencer Au lieu de s’mettre à travailler Et ça leur donne des remords Qu’ils conservent jusqu’à la mort Ravis d’avoir tellement souffert On leur donne des grands discours Et on les oublie en un jour Mais s’ils étaient moins paresseux On ne les oublierait qu’en deux.
§
Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada, sensual
Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei quem sabe sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturar crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo estiver acabado
Morrerei.
:
Je mourrai d´un cancer de la colonne vertébrale
Je mourrai d’un cancer de la colonne vertébrale Ça sera par un soir horrible Clair, chaud, parfumé, sensuel Je mourrai d’un pourrissement De certaines cellules peu connues Je mourrai d’une jambe arrachée Par un rat géant jailli d’un trou géant Je mourrai de cent coupures Le ciel sera tombé sur moi Ça se brise comme une vitre lourde Je mourrai d’un éclat de voix Crevant mes oreilles Je mourrai de blessures sourdes Infligées à deux heures du matin Par des tueurs indécis et chauves Je mourrai sans m’apercevoir Que je meurs, je mourrai Enseveli sous les ruines sèches De mille mètres de coton écroulé Je mourrai noyé dans l’huille de vidange Foulé aux pieds par des bêtes indifférentes Et, juste après, par des bêtes différentes Je mourrai nu, ou vêtu de toile rouge Ou cousu dans un sac avec des lames de rasoir Je mourrai peut-être sans m’en faire Du vernis à ongles aux doigts de pied Et des larmes plein les mains Et des larmes plein les mains Je mourrai quand on décollera Mes paupières sous un soleil enragé Quand on me dira lentement Des méchancetés à l’oreille Je mourrai de voir torturer des enfants Et des hommes étonnés et blêmes Je mourrai rongé vivant Par des vers, je mourrai les Mains attachées sous une cascade Je mourrai brûlé dans un incendie triste Je mourrai un peu, beaucoup, Sans passion, mais avec intérêt Et puis quand tout sera fini Je mourrai.
§
Quando meu crânio for do vento
Quando meu crânio for do vento
Quando o verde cobrir meus ossos
Sentirão talvez que eu troço
Mas será falso o sentimento
Pois me faltarão os atos
O elemento plástico
Pla pla plástico
Devorado pelos ratos
Meu par de utensílios
Minhas pernas meus joelhos
Minhas coxas meus fundilhos
Sobre os quais me sentavia
Meus cabelos minhas fístulas
Meus lindos olhos cerúleos
Minhas capas de mandíbulas
Com as quais vos lambuzia
Meu nariz considerável
Coração, fígado, lombo
Esses nadas admiráveis
Que me fizeram gozar os benefícios
De duques e duquesas
De papas e papesas
De abades e abasnezas
E demais pessoas do ofício
E agora não terei mais
Esse fósforo um pouco mole
Cérebro que me serviu
Pra me prever depois de frio
Os ossos verdes, o crânio ventoso
Ah como dói ficar idoso.
:
Quand j´aurai du vent dans mon crâne
Quand j’aurai du vent dans mon crâne Quand j’aurai du vert sur mes osses P’tête qu’on croira que je ricane Mais ça sera une impression fosse Car il me manquera Mon élément plastique Plastique tique tique Qu’auront bouffé les rats Ma paire de bidules Mes mollets mes rotules Mes cuisses et mon cule Sur quoi je m’asseyois Mes cheveux mes fistules Mes jolis yeux cérules Mes couvres-mandibules Dont je vous pourléchois Mon nez considérable Mon coeur mon foie mon râble Tous ces riens admirables Qui m’ont fait apprécier Des ducs et des duchesses Des papes des papesses Des abbés des ânesses Et des gens du métier Et puis je n’aurai plus Ce phosphore un peu mou Cerveau qui me servit A me prévoir sans vie Les osses tout verts, le crâne venteux Ah comme j’ai mal de devenir vieux.
§
Um a mais
Um a mais
Um sem motivo
Mas já que os outros
Se perguntam perguntas dos outros
E lhes respondem com palavras dos outros
O que fazer
Além de escrever, como os outros
E hesitar
Repetir
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Não achar
Se chatear e se dizer
Isto não serve para nada
Valia mais ganhar a vida
Mas a vida, já tenho a minha
Logo, não preciso ganhá-la
Não é um problema, eu asseguro,
E só esta coisa não o é
Pois todo o resto são problemas
Mas todos já estão formulados
Todos se consultaram, todos,
Sobre os mais ínfimos assuntos
Agora eu, o que me resta?
Usaram as palavras fáceis
Belas palavras feitas verbo
Espumantes, quentes, vistosas
Os céus, os astros, as lanternas
E estas brutas lânguidas ondas
Raivam roem rochedos rubros
Tudo em torno trevas e gritos
Tudo cheio de sangue e sexo
Tudo ventosas e rubis
Agora eu, o que me resta?
Em silêncio me perguntar
Sem escrever e sem dormir
Lançar-me a procurar por mim
Sem dizer nem ao zelador
Nem ao anão sob o assoalho
Nem ao paparlante em meu bolso
Nem ao padre em minha gaveta
Preciso urgente me sondar
Sozinho, sem freira rodeira
Que me segure a maçaneta
E me adentre como um polícia
Com cassetete e vaselina
Preciso urgente me enfiar
Um cotonete no nariz
Contra uremia cerebral
E que veja jorrar palavras
Todos se consultaram, todos
Não tenho direito à palavra
Usaram as belas brilhantes
E estão todos bem lá no topo
Onde habitam os poetas
Com suas liras a pedal
Com suas liras a vapor
Com suas liras de oito relhas
E seus Pégasos nucleares
Não me resta o menor estímulo
Só me restam palavras rasas
Palavras idiotas frouxas
Somente me mim o a os
De por para que quem o quê
É ela ele nós vós nem
Como vocês querem que eu faça
Um poema com esta lei?
Tanto pior, não o farei.
:
Un de plus
Un de plus Un sans raison Mais puisque les autres Se posent les questions des autres Et leur répondent avec les mots des autres Que faire d’autre Que d’écrire, comme les autres Et d’hésiter De répéter Et de chercher De rechercher De pas trouver De s’emmerder Et de se dire ça sert à rien Il vaudrait mieux gagner sa vie Mais ma vie, je l’ai, moi, ma vie J’ai pas besoin de la gagner C’est pas un problème du tout La seule chose qui en soit pas un C’est tout le reste, les problèmes Mais ils sont tous déjà posés Ils se sont tous interrogés Sur tous les plus petits sujets Alors moi qu’est-ce qui me reste ? Ils ont pris tous les mots commodes Les beaux mots à faire du verbe Les écumants, les chauds, les gros Les cieux, les astres, les lanternes Et ces brutes molles de vagues Ragent rongent les rochers rouges C’est plein de ténèbre et de cris C’est plein de sang et plein de sexe Plein de ventouses et de rubis Alors moi qu’est-ce qui me reste ? Faut-il me demander sans bruit Et sans écrire et sans dormir Faut-il que je cherche pour moi Sans le dire, même au concierge Au nain qui court sous mon plancher Au papaouteur dans ma poche Ni au curé de mon tiroir Faut-il faut-il que je me sonde Tout seul sans une soeur tourière Qui vous empoigne la quèquette Et vous larde comme un gendarme D’une lance à la vaseline Faut-il faut-il que je me fourre Un tige dans les naseaux Contre une urémie du cerveau Et que je voie couler mes mots Ils se sont tous interrogés Je n’ai plus droit à la parole Ils ont pris tous les beaux luisants Ils sont tous installés là-haut Où c’est la place des poètes Avec des lyres à pédale Avec des lyres à vapeur Avec des lyres à huit socs Et des Pégases à réacteurs J’ai pas le plus petit sujet J’ai plus que les mots les plus plats Tous les mots cons tous les mollets J’ai plus que me moi le la les J’ai plus que du dont qui quoi qu’est-ce Qu’est, elle et lui, qu’eux nous vous ni Comment voulez-vous que je fasse Un poème avec ces mots-là? Eh ben tant pis j’en ferai pas.
§
Não queria partir
Não queria partir
Sem ter conhecido
Os cães negros do México
Que dormem sem sonhar
Os macacos de bunda glabra
Devoradores de trópicos
As aranhas prateadas
De ninho carregado de bolhas
Não queria partir
Sem saber se a lua
Sob sua falsa cara de moeda
Tem um lado pontiagudo
Se o sol é frio
Se as quatro estações
São de fato apenas quatro
Sem ter experimentado
Usar um vestido
Nos grandes bulevares
Sem ter beijado
Uma boca-de-lobo
Sem ter fincado meu pau
Em insólitos lugares
Não queria acabar
Sem conhecer a lepra
Ou as sete doenças
Que se pegam por lá
O bom nem o mau
Me causariam tormento
Se deles gozasse
O primeiro momento
E há também
Tudo o que conheço
Tudo o que aprecio
O que sei que me agrada
O fundo verde do mar
Onde valsam as algas
Sobre a areia ondulada
A relva crestada de junho
A terra que greta
O cheiro dos pinheiros
E os beijos daquela
Que isso que aquilo
A coisa mais bela
Úrsula, meu ursinho
Não queria partir
Antes de ter gasto
Sua boca contra minha boca
Seu corpo contra minhas mãos
O resto contra meus olhos
Não digo mais nada é preciso
Manter respeito
Não queria morrer
Sem que tenham inventado
As rosas eternas
A jornada de duas horas
O mar na montanha
A montanha no mar
O fim das dores
Os jornais em cores
A felicidade das crianças
E tantas coisas mais
Que dormem nos crânios
Dos geniais engenheiros
Dos jardineiros joviais
Dos solícitos socialistas
Dos urbanos urbanistas
E dos pensativos pensadores
Tantas coisas para ver
Para ver e ouvir
Tanto tempo esperando
Procurando no escuro
E vejo o fim
Que fervilha e que chega
Com sua horrível careta
E que me abre os braços
De sapo maneta
Não queria partir
Não senhor não senhora
Sem ter apalpado
O gosto que me atormenta
O gosto mais forte
Não queria partir
Sem ter provado
O sabor da morte...
:
Je voudrais pas crever
Je voudrais pas crever Avant d’avoir connu Les chiens noirs du Mexique Qui dorment sans rêver Les singes à cul nu Dévoreurs de tropiques Les araignées d’argent Au nid truffé de bulles Je voudrais pas crever Sans savoir si la lune Sous son faux air de thune A un côté pointu Si le soleil est froid Si les quatre saisons Ne sont vraiment que quatre Sans avoir essayé De porter une robe Sur les grands boulevards Sans avoir regardé Dans un regard d’égout Sans avoir mis mon zobe Dans des coinstots bizarres Je voudrais pas finir Sans connaître la lèpre Ou les sept maladies Qu’on attrape là-bas Le bon ni le mauvais Ne me feraient de peine Si si si je savais Que j’en aurai l’étrenne Et il y a z aussi Tout ce que je connais Tout ce que j’apprécie Que je sais qui me plaît Le fond vert de la mer Où valsent les brins d’algue Sur le sable ondulé L’herbe grillée de juin La terre qui craquelle L’odeur des conifères Et les baisers de celle Que ceci que cela La belle que voilà Mon Ourson, l’Ursula Je voudrais pas crever Avant d’avoir usé Sa bouche avec ma bouche Son corps avec mes mains Le reste avec mes yeux J’en dis pas plus faut bien Rester révérencieux Je voudrais pas mourir Sans qu’on ait inventé Les roses éternelles La journée de deux heures La mer à la montagne La montagne à la mer La fin de la douleur Les journaux en couleur Tous les enfants contents Et tant de trucs encore Qui dorment dans les crânes Des géniaux ingénieurs Des jardiniers joviaux Des soucieux socialistes Des urbains urbanistes Et des pensifs penseurs Tant de choses à voir A voir et à z-entendre Tant de temps à attendre A chercher dans le noir
Et moi je vois la fin Qui grouille et qui s’amène Avec sa gueule moche Et qui m’ouvre ses bras De grenouille bancroche
Je voudrais pas crever Non monsieur non madame Avant d’avoir tâté Le goût qui me tourmente Le goût qu’est plus fort Je voudrais pas crever Avant d’avoir goûté La saveur de la mort...
§
Eles quebram o mundo
Eles quebram o mundo
Em pedacinhos
Eles quebram o mundo
A marteladas
Para mim não faz diferença
Não faz diferença alguma
Ainda me sobra muito
Ainda sobra muito
Basta que eu ame
Uma pena azul
Uma trilha de areia
Uma ave assustada
Basta que eu ame
Um ramo frágil de erva
Uma gota de orvalho
Um grilo do campo
Eles podem quebrar o mundo
Em pedacinhos
Ainda me sobra muito
Ainda sobra muito
Terei sempre um pouco de ar
Um filete de vida
Uma nesga de luz no olhar
E o vento nas urtigas
E mesmo se, mesmo
se me prenderem
Ainda me sobra muito
Ainda sobra muito
Basta que eu ame
Esta pedra corroída
Estes ganchos de ferro
Onde um pouco de sangue se demora
Eu amo, eu amo
A madeira gasta da minha cama
O estrado e o colchão de palha
A poeira do sol
Amo o postigo que se abre
Os homens que entraram
Que avançam, que me levam
A reencontrar a vida do mundo
A reencontrar a cor
Amo este par de altas traves
Esta lâmina triangular
Estes senhores vestidos de preto
É minha festa e me orgulho
Eu amo, eu amo
Este cesto cheio de farelo
Onde vou pousar a cabeça
Oh, eu amo deveras
Basta que eu ame
Um raminho de erva azul
Uma gota de orvalho
Um amor de ave assustada
Eles quebram o mundo
Com seus maciços martelos
Ainda me sobra muito
Ainda sobra muito, meu coração.
:
Ils cassent le monde
Ils cassent le monde En petits morceaux Ils cassent le monde A coups de marteau Mais ça m’est égal Ça m’est bien égal Il en reste assez pour moi Il en reste assez Il suffit que j’aime Une plume bleue Un chemin de sable Un oiseau peureux Il suffit que j’aime Un brin d’herbe mince Une goutte de rosée Un grillon de bois Ils peuvent casser le monde En petits morceaux Il en reste assez pour moi Il en reste assez J’aurai toujours un peu d’air Un petit filet de vie Dans l’oeil un peu de lumière Et le vent dans les orties Et même, et même S’ils me mettent en prison Il en reste assez pour moi Il en reste assez Il suffit que j’aime Cette pierre corrodée Ces crochets de fer Où s’attarde un peu de sang Je l’aime, je l’aime La planche usée de mon lit La paillasse et le châlit La poussière de soleil J’aime le judas qui s’ouvre Les hommes qui sont entrés Qui s’avancent, qui m’emmènent Retrouver la vie du monde Et retrouver la couleur J’aime ces deux longs montants Ce couteau triangulaire Ces messieurs vêtus de noir C’est ma fête et je suis fier Je l’aime, je l’aime Ce panier rempli de son Où je vais poser ma tête Oh, je l’aime pour de bon Il suffit que j’aime Un petit brin d’herbe bleue Une goutte de rosée Un amour d’oiseau peureux Ils cassent le monde Avec leurs marteaux pesants Il en reste assez pour moi Il en reste assez, mon coeur.
§
Quero uma vida em forma de espinha
Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo de um troço solitário
Quero uma vida em forma de areia nas mãos
Em forma de pão verde ou de moringa
Em forma de sapato velho
Em forma de tiroliroliro
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra coberta de seixos
De cabeleireiro selvagem ou de edredom louco
Quero um vida em forma de você
E a tenho, mas ainda não é o bastante
Nunca estou contente.
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Je veux une vie en forme d´arête
Je veux une vie en forme d’arête Sur une assiette bleue Je veux une vie en forme de chose Au fond d’un machin tout seul Je veux une vie en forme de sable dans des mains En forme de pain vert ou de cruche En forme de savate molle En forme de faridondaine De ramoneur ou de lilas De terre pleine de cailloux De coiffeur sauvage ou d’édredon fou Je veux une vie en forme de toi Et je l’ai, mais ça ne me suffit pas encore Je ne suis jamais content.
§
Sou esnobe (Letícia Coura)
do álbum Boris Vian (Dabliú, 2001), de Letícia Coura
Sou esnobe... esnobe
c’est vraiment le seul défaut
que je gobe
nem preciso mais ser chic
o que me importa é ser vip
e quando eu saio na Istoé Gente
não há quem me aguente
sou esnobe... um puta esnobe
todos os meus amigos são,
a gente é esnobe e é bão
chemises d’organdi
sapatos zebu
gravatas d’italie
e um irritante terno vermoulu
um rubi au doigt
do pé, pas çui-là
as unhas todas pretas
e um lindo lencinho na jaqueta
eu vou ao cinema ver filmes suedois
eu entro no bistrô
pra beber whisky à gogo
não sofro do fígado, acho muito antigo
j’ai un ulcère
é menos banal e plus cher
esnobe... eu sou esnobe
meu nome é João mas dizem Bob
eu ando a cavalo toda manhã
pois adoro o fedor du crotin
só namoro loura rica
só não consigo bonita
sou esnobe...
excessivamente esnobe
e quando eu falo d’amour
é sempre nu no corrredour
nós nos reunimos
com nossos amigos
toda Sexta-feira
pra festas esnobes maneiras
temos cocaína
compramos na esquina
e queijo cambembert
pra se comer com colher
mon appartement
é muito charmant
tem aquecimento
mas não esquenta por dentro
eu tinha uma TV
difícil de ver
je l’ai retournée
do outro lado é passionant
esnobe... ha ha
estou possuído por esse microbe
eu sofro acidentes de Jaguar
eu passo o verão de resguardo
é em pequenos detalhes comme ça
que se é esnobe ou pas
sou esnobe...
mais esnobe ainda que agora há pouco
et quand je serais mort
quero um sudário Maison Dior !
§
Sou esnobe (Paulo Ferraz)
Sou esnobe... sou esnobe
É de nascença e não por hobby
Isso exige um esforço bravo
É uma vida de escravo
Mas quando saio com Magnólia
É só pra mim que se olha
Sou esnobe... um puta esnobe
Meu mundo é a classe A
Ser esnobe é o que há.
Eu tenho estilo, me visto em Paris
Sapato de crocodilo e um ofuscante risca de giz
Um rubi no dedinho... do pé, pois sou fino
As unhas em alinho e um lindo e leve lencinho
Eu vou ao cinema ver filmes-problema
E janto no bistrô num porre de Château Margaux
Meu fígado é foda, ah, cirrose está fora de moda
Sou é depressivo, que é mais chique e exclusivo.
Sou esnobe... sou esnobe
Me chamo José e todos dizem Bob
Cavalgo assim que o sol raia
Porque adoro o odor de baia
Só frequento os importantes
Com passado bandeirante
Sou esnobe... excessivamente esnobe
E se respondo ao “me ama?”
Estou pelado na cama.
A gente se irmana, só entra bacana,
Todo fim de semana, pra jogar no ralo nossa grana
Filas de coca, a gente nem toca
E há camembert, comido com o devido talher.
Moro num apart que é uma obra de arte
Mulheres à la carte, igual nem mesmo em Montmartre
Já tive TV, um tédio de ver
Mandei devolver... mas pra gostar bastava o start.
Sou esnobe... sou esnobe
Essa é uma febre que só sobe
Quando me arrebento é de Jaguar
Se me encho de tudo vou prum spa
É nos detalhes... e no talão
Que se é esnobe ou não
Sou esnobe... Agora mais esnobe do que antes
E quando eu entrar em pane
Que me enterrem de Armani.
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J´suis snob
Boris Vian
J'suis snob... J'suis snob C'est vraiment l'seul défaut que j'gobe Ça demande des mois d'turbin C'est une vie de galérien Mais quand je sors avec Hildegarde C'est toujours moi qu'on r'garde J'suis snob... Foutrement snob Tous mes amis le sont On est snobs et c'est bon
Chemises d'organdi, chaussures de zébu Cravate d'Italie et méchant complet vermoulu Un rubis au doigt... de pied, pas çui-là Les ongles tout noirs et un tres joli p'tit mouchoir J'vais au cinéma voir des films suédois Et j'entre au bistro pour boire du whisky à gogo J'ai pas mal au foie, personne fait plus ça J'ai un ulcère, c'est moins banal et plus cher
J'suis snob... J'suis snob J'm'appelle Patrick, mais on dit Bob Je fais du ch'val tous les matins Car j'ador' l'odeur du crottin Je ne fréquente que des baronnes Aux noms comme des trombones J'suis snob... Excessivement snob Et quand j'parle d'amour C'est tout nu dans la cour
On se réunit avec les amis Tous les vendredis, pour faire des snobisme-parties Il y a du coca, on deteste ça Et du camembert qu'on mange à la petite cuiller Mon appartement est vraiment charmant J'me chauffe au diamant, on n'peut rien rêver d'plus fumant J'avais la télé, mais ça m'ennuyait Je l'ai r'tournée... d'l'aut' côté c'est passionnant
J'suis snob... J'suis snob J'suis ravagé par ce microbe J'ai des accidents en Jaguar Je passe le mois d'août au plumard C'est dans les p'tits détails comme ça Que l'on est snob ou pas J'suis snob... Encor plus snob que tout à l'heure Et quand je serai mort J'veux un suaire de chez Dior!
§
BORIS VIAN: O HOMEM-ORQUESTRA
por Ruy Proença
Gostaria em primeiro lugar de desejar boa noite a todos os presentes. É um privilégio podermos compartilhar este momento em torno da obra de Boris Vian, escritor tão vital e sempre tão ladino que não custa cumprimentá-lo também, uma vez que pode estar disfarçado no meio de nós, como grande Sátrapa Transcendente. Desejo que esta seja portanto uma noite alegre, cheia de jazz, como as festas que o autor-compositor cansou de organizar e animar com seu trompete.
Não é tarefa simples falar de Boris Vian, artista multifacetado: escritor, compositor, trompetista, crítico de jazz e, até mesmo, cenógrafo e ator de cinema. Durante 20 anos de atividade, nos legou mais de 40 livros, entre os quais romances, contos, peças de teatro, poemas, ensaios, além de quase 500 canções registradas. Não fosse o escritor hiperativo que foi, Boris Vian assinou ainda uma dúzia de traduções de thrillers norte-americanos.
Comecemos por deixar Vian falar de si mesmo, numa de suas peças:
DIÁLOGO COM UM SUBTENENTE
Nome?
Boris, subtenente.
Sobrenome?
Vian, subtenente.
Você é estrangeiro? Armênio? Mais um desses imigrantes?
De modo algum, subtenente. Natural de Ville-d’Avray, Seine-et-Oise. – Nome do pai: Paul; nome da mãe, Yvonne; e com toda certeza, Vian vem de Viana, da Itália, de nossa irmã latina.
Você não é o primo do almirante Philip Vian?
Infelizmente não, subtenente. Não tenho parentes ilustres, salvo meus avós, que eram artesãos ferreiros e bronzistas, no duro e no sério, e que fabricaram o gradil da propriedade de Edmond Rostand, em Arnaga; e, coisa extremamente curiosa, foi pela mão de Jean Rostand, nosso vizinho em Ville-d’Avray, que entrei para a literatura...
Ah! Então você mexe com literatura... Já devia ter suspeitado.
Bem, mexo com muitas coisas, subtenente: engenheiro, autor, tradutor, músico, jornalista, intérprete, crítico de jazz e, atualmente, diretor artístico de uma gravadora de discos.
Ah, sim!... Já entendi!... O bambambã faz de tudo, o que é o mesmo que nada... quem quer abraçar o mundo fica sem força, como se diz.
Depende dos braços que se tem, subtenente. Veja os meus... Sou forte como um macaco... Talhado para a cultura que te curva sobre a gleba glabra.
Olha aqui, ô, mais respeito! Ou te meto no xadrez... Quando ouço falar de cultura, saco meu revólver.
Não é do senhor que falo, subtenente.
Se não é, parece! Os intelectuais, estou cagando pra eles...
Pois então me diga, subtenente, a pessoa que inventou esse revólver, sem o qual o senhor não poderia fazer nada, não acha que ela era um pouquinho intelectual?
Repete esse troço!?
E aquele ou aqueles que inventaram esta língua da qual o senhor se serve tão bem, subtenente, não seriam eles intelectuais?
Onde você quer chegar?
E o inventor da hierarquia no exército ou nas paróquias, o que dá praticamente na mesma, já que a baioneta e a batina são farinha do mesmo saco, não teria ele elucubrado mais que o vizinho?
Malandros da sua raça não me impressionam! Conheço esse samba!
Bom, eu não... Por isso, vou pôr a mão na massa, subtenente. Preciso me elevar até o senhor, já que não quer se rebaixar até mim... Vou lhe preparar um manual do aspirante a sambista, que o senhor ainda há de me agradecer...
Fora! Suma daqui!
Tudo bem, subtenente, já estou caindo fora...
Boris Vian nasceu em Ville-d’Avray, próximo a Paris, em 10 de março de 1920 e morreu – apenas aparentemente, segundo seus colegas esquartejadores do Colégio de Patafísica – em 23 de junho de 1959 (daí a necessidade de cumprimentá-lo sempre).
Era o segundo de quatro irmãos, três meninos e uma menina. Seus pais viviam de rendas e a família morava numa mansão, cercada de amplo parque, com gramados e árvores. Em 1929, com a queda das bolsas de valores, seu pai perdeu a fonte de renda e a família teve de se mudar para a edícula dos caseiros, na entrada do parque. Em 1932, Boris Vian é acometido por uma febre reumática, que deixa sequelas em seu coração, e, em 1935, por uma febre tifoide mal curada. Os problemas cardíacos o acompanharão até o fim de sua vida. A doença lhe trouxe duas consequências imediatas: cuidados maternos excessivos e uma ânsia de aproveitar a vida. A primeira será motivo de várias passagens em sua obra, com imagens de crianças criadas em gaiolas e filhos carnalmente ligados à mãe, a ponto de serem simultaneamente escravos e vampiros de seu sangue. A segunda, o amor passional à vida, nascido da constante ameaça de morte, também marcará toda sua obra e lhe valeu a seguinte citação: viveu em túmulo aberto.
A morte, aliás, era não só uma realidade psicológica interna, mas também uma realidade externa quase permanente: seu berço foram os escombros da primeira guerra; viveu a adolescência e o período universitário no colo da segunda guerra, tendo sido Paris ocupada pelas forças nazi-fascistas em 1940, quando contava 20 anos; todo seu período de produção cultural deu-se no bojo da guerra-fria: guerra na Coréia, guerras empreendidas pela França em suas colônias africanas e asiáticas, macartismo nos Estados Unidos, ameaça de uma guerra nuclear mundial provocada pelas duas grandes potências militares: EUA x URSS. Contra o absurdo das guerras deixaria vários registros como a canção O desertor e o conto tragicômico As formigas, que retrata o desastroso desembarque das tropas aliadas na Normandia.
A morte, duplamente presente em Boris Vian, será sua companheira e adversária no tabuleiro de xadrez. Vian escreveria: “Morte, como você é impaciente”. Esse seu diálogo com a morte se acentuará com o passar dos anos.
Boris Vian teve uma formação simultaneamente humanística e científica. No ensino médio, estudou cultura greco-latina e matemática elementar. De 1939 a 1942, cursou e se formou engenheiro na École Centrale, uma das prestigiosas escolas francesas de ciências exatas. De 1942 a 1946 trabalhou como engenheiro na AFNOR – Associação Francesa de Normalização e, de 1946 a 1947, no Instituto do Papel. Foi o bastante para se desencantar com o enorme desperdício de potencial humano, causado pelo trabalho alienado, em repartições tecnoburocráticas.
Desde a adolescência, Boris Vian se apaixonara pelo jazz. Durante a ocupação de Paris, o jazz foi censurado, por representar a cultura negro-judeu-americana. Passou a ter assim uma dupla conotação de música de resistência, tanto da cultura negra em relação aos opressores brancos, quanto da resistência dos aliados (liderados pelos norte-americanos) em relação aos países do eixo. Representava também uma cultura nova, engendrada na América, distante portanto dos velhos padrões morais europeus. Em 1943, Boris Vian entrou como trompetista na orquestra de jazz amador de Claude Abadie. Em 1947 se tornaria o trompete e o animador da cave Tabou, no coração de Saint-Germain-des-Prés.Cardíaco que era, foi aconselhado por seu médico a abandonar o trompete. Apesar disso, e essa foi uma de suas ironias, jamais deixou de tocar. O jazz será combustível para toda vida.
Boris Vian casou-se cedo, aos 21 anos, com Michelle Léglise, com quem teria um casal de filhos e de quem viria a se separar em 1952. Em 1954, casou-se em segundas núpcias com Ursula Kübler, bailarina, com quem viveu até o fim da vida. Em 1944, aos 24 anos, perde o pai, assassinado, sem que se soubesse exatamente por que e por quem.
Publica seus primeiros textos entre 44 e 45, sob os pseudônimos de Hugo Hachebuisson e Bison Ravi (anagrama de Boris Vian: literalmente, bisão extasiado, que serviria mais tarde para brincar com Úrsula, a quem chamava “meu ursinho”, ou seja, o ursinho do bisão extasiado). A esses, seguirá seu mais famoso pseudônimo, Vernon Sullivan. Boris Vian foi responsável por um dos maiores embustes literários do século XX. Leitor assíduo e tradutor do romance noir americano (Raymond Chandler, Dashiell Hammet, Peter Cheney e James Hadley Chase), resolveu ele também enveredar por esse filão. Por sugestão do amigo e pequeno editor Jean d’Halluin, apresentou-se como tradutor do suposto escritor norte-americano Vernon Sullivan, que não passava dele mesmo. Sullivan, onde o nome Vian também ecoa, foi quem selou definitivamente a fama do escritor: o livro Vou cuspir nos seus túmulos, escrito e lançado em 1946, tornou-se o best seller de 1947. Ludibriando, momentaneamente, a cerimoniosa crítica francesa com seu Sullivan, tornou-se dela desafeto e refém até a morte. Além do que, o teor explosivo de violência e erotismo que impregnava o romance Vou cuspir nos seus túmulos lhe valeu a censura do livro e um processo judicial por infringir a lei dos bons costumes e da moral, o qual tramitaria ainda por três anos. Com Sullivan e seu modo de trabalhar a violência, o anti-racismo, misturados ao erotismo, Boris Vian se postava, a seu modo, ao lado de Henry Miller.
O período de 1945 a 1950 foram anos de fermentação. Foi a apoteose da “República” de Saint-Germain-des-Prés, onde Vian compartilhava a mesa, mas nem sempre as opiniões, com Sartre, Simone de Beauvoir, Camus, Raymond Queneau, Prévert, Jean Genet e outros. Raymond Queneau, secretário geral da Gallimard, quem conheceu em 1945, foi um dos principais amigos e incentivadores de Vian, tendo aberto para ele as portas do Colégio Patafísico.
1947 parece ter sido um ano de glória para Vian: best seller do ano, contratado como animador e trompetista do Tabou, escreve O esquartejamento para todos, publica Outono em Pequim, Vercoquin et le Plancton e seu romance até hoje mais difundido: A espuma dos dias.
Mas a glória foi aos poucos abandonando Boris Vian. Em 1949, foi proibido o romance Vou cuspir nos seus túmulos. Em 1950, é condenado a pagar uma multa considerável. Em 1952, separa-se de Michelle.
Boris Vian, não obstante, não desiste: em 1952 foi nomeado Esquartejador de primeira classe do Colégio de Patafísica. Mais tarde, se tornaria Sátrapa, posto de distinção máxima. Diante do fracasso de seus últimos romances, Boris Vian dá a volta por cima e retoma sua comunicação com o público através da música, compondo e se apresentando como intérprete. A título de curiosidade, são tributários de Vian nessa área compositores como Serge Gainsbourg, Léo Ferré e Serge Regiani.
Em 1959, o coração de Boris Vian falhou de vez, durante uma sessão privada de apresentação do filme Vou cuspir nos seus túmulos, projeto de cujo início tinha participado, mas que fora levado a cabo à sua revelia, e que o desagradara profundamente.
Vamos agora abordar a personalidade artística de Boris Vian, que começa a se revelar já nos títulos de alguns de seus textos. Vejamos alguns exemplos, traduzidos livremente: Vou cuspir nos seus túmulos, A espuma dos dias, Os mortos têm todos a mesma pele, Outono em Pequim, E mataremos todos os horrorosos, As formigas, O esquartejamento para todos, Elas não se dão conta, O arranca-coração, Os construtores de Império ou o Schmürz, Cantilenas gelatinizadas, Não queria partir, O lanche dos generais, Na frente de Zizique, Atrás de Zizique, Escritos pornográficos etc. etc. Imagens de morte, violência, poder, associadas no mais das vezes a sinais de menosprezo moral e à questão racial. Imagens erótico-pornográficas. Imagens líricas. Percebemos portanto, já nos títulos, alguns dos elementos que sintetizam a imaginação do autor: tendência ao deboche e ao sarcasmo, macabro ou violento, associada a grande sensualidade e lirismo. Querendo diferenciar o humor em Boris Vian de um humor meramente macabro, humor negro, Caradec, no prefácio de um de seus livros, chamou-o de “humor vermelho”.
O mundo de Vian é sobretudo o da “emancipação dolorosa do adulto que se separa da adolescência”. E o mundo adulto é visto por ele como bloqueio, como opressor, aniquilador. Neste sentido, Vian se aproxima de Kafka. No extremo desse ponto de vista há a guerra: a forma mais sofisticada e degradante de trabalho, já que nela se trabalha para gerar novos trabalhos.
A obra poética de Boris Vian pode parecer exígua perto dos mais de 40 livros publicados em vida, mas certamente é o motor de sua criação, isto é, irradia e ecoa por toda sua atividade criativa, dos romances às canções, e por isso mesmo é uma boa porta de entrada para o restante da obra.
Entre 1939, provavelmente, e 1944, Boris Vian escreve 105 sonetos, acrescidos de meia-dúzia de baladas, que seriam publicados postumamente sob o título de Cem Sonetos (fazendo trocadilho com a homofonia de Cem Sonetos, do número 100, e Sem Sonetos, isto é, nada). Trata-se de sua primeira obra escrita, tentativa músico-matemático-literária, considerada pelo próprio autor como uma obra ainda imatura. É interessante observar que Vian debuta com esse extenso e meticuloso trabalho com formas fixas, experimentando diferentes metros de verso, bem como diferentes combinações de rimas. Já neste livro, a utilização de um humor corrosivo mostra uma visão de mundo iconoclasta e, indiretamente, uma dessacralização do discurso poético.
À criação dos sonetos, seguirão quatro volumes de poesia: Barnum´s Digest, Cantilenas Gelatinizadas, Poemas Inéditos e Não queria partir. Vian, que começou com uma poesia formal, inverterá os sinais de seu projeto e percorrerá um caminho que vai do verso geralmente livre no segundo livro, até culminar, sob a forma de um ritornelo, no predomínio do verso metrificado em seu livro final.
Dois grandes símbolos parecem permear toda a obra do autor, sintetizados no binômio comédia-tragédia. Alguém usou a feliz metáfora de que nele “trabalhava um olho cômico sob uma sobrancelha amarga”. Estes dois polos entremeiam-se todo o tempo na obra de Vian, no detalhe e no todo, o mais das vezes servindo o humor como lenitivo para a condição trágica do homem. Esta conjunção de fatores, isto é, o humor associado ao horror, cria um certo parentesco entre a obra de Vian e os mestres da literatura do absurdo, entre eles Becket e Ionesco.
Podemos rastrear a dança que ocorre entre este par de extremos. Nas obras iniciais, o humor conduz o trágico na dança. Já no último livro, a situação é inversa, o balanço é francamente favorável ao trágico, servindo o humor apenas como a provisória e derradeira trincheira. A música que se dança, é sem dúvida a da morte. Nada mais apropriado para regê-la do que metros exatos, em ritmo de tambores, carregados de densa ironia. Como num réquiem para si mesmo, a morte é quem remunera o trabalho do autor.
O último livro de poemas de Boris Vian, Não queria partir, é talvez sua obra de poesia mais bem acabada. São poemas escritos quase todos por volta de 1952. Ganham em tensão e dramaticidade. A morte infiltra-se por todos os poros. Mas o escritor não se rende, luta até o fim, brandindo com destreza sua melhor arma: o humor.
O humor em Boris Vian tem vários sobrenomes, mas são todos primos-irmãos entre si: satírico, mordaz, cáustico, sarcástico, sardônico, irônico, non-sense, burlesco etc. etc. Nele aparecem a ternura misturada com a violência, o horror misturado ao cômico, o natural ao delírio. Foi um mestre nos trocadilhos, nas fusões de expressões idiomáticas, nos jogos de ambiguidade, na reformulação de provérbios, nas palavras-valise, nos neologismos.
Se Boris estivesse nos ouvindo agora (e talvez esteja mesmo), tenho certeza de que ficaria feliz com a homenagem que estamos lhe fazendo esta noite e que pode ser sintetizada de forma afetiva no trocadilho elaborado por Guilherme de Almeida, não o poeta, mas aluno da São Francisco e seu fã de carteirinha (sim, porque, por incrível que pareça, Boris Vian consegue operar milagres até mesmo a partir de onde está: tem um verdadeiro fã-clube espalhado pelo mundo; só em países como o Brasil, de tão poucos leitores, ainda é praticamente desconhecido). O trocadilho é: Boris Vian: le plus grand écrivian du siècle (cuja tradução literal seria, Boris Vian: o maior escrivian do século).
Para encerrar este breve retrato, vamos a uma estorieta patafísica criada a quatro mãos por Boris Vian e um de seus mais assíduos parceiros musicais, Henri Salvador.
HS. Sua excelência o bispo de Worcester mandou afixar em todas as igrejas de sua diocese o aviso seguinte:
Instale em sua casa um bar do qual você será o único cliente.
BV. Dê a sua mulher dinheiro suficiente para comprar a primeira garrafa.
HS. Beba em sua casa, mas pague para sua mulher, por cada dose, o preço que pagaria num bar.
BV. Dê dinheiro a sua mulher para que ela compre uma segunda garrafa. Assim seu bar terá sempre bebida e sua mulher poderá fazer o supermercado com o lucro.
HS. Convença-se de que, agindo assim, você morrerá de cirrose.
BV. Mas você poderá morrer tranquilo. Sua mulher terá feito importantes economias e poderá educar as crianças.
HS. E ela poderá se casar de novo com um homem inteligente.
Nota dos editores: a postagem abaixo foi originalmente publicada no dia 20 de novembro de 2008. No entanto, algum tempo depois os vídeos foram infelizmente apagados da Internet. Um amigo nos enviou novos links e resolvemos rever a postagem e convidar nossos leitores a contemplarem uma vez mais estes dois trabalhos tão belos quanto perturbadores do canadense Arthur Lipsett (1936 - 1986). Agradecemos a Ernesto Valença por nos chamar a atenção para os novos arquivos disponíveis.
Arthur Lipsett (1936 - 1986)
Arthur Lipsett nasceu em 1936, na cidade de Montreal, Canadá. Começou a trabalhar muito jovem no National Film Board of Canada, no departamento de animação. Sua obra inicial era dedicada à poesia sonora, trabalhando com a colagem de fragmentos para criar peças auditivas. Pouco depois, passa a usar a mesma técnica com imagens e a unir estas colagens visuais às suas colagens sonoras. O primeiro resultado foi o poema visual Very Nice, Very Nice (1962), uma peça visual-sonora de 7 minutos que o tornaria conhecido na América do Norte ao ser indicada ao Oscar como "Best Short Subject, Live Action Subjects". Seu próximo poema visual-sonoro foi o lendário 21-87, fazendo de Lipsett um dos artistas mais interessantes de uma década populosa destes. Este filme teria uma grande influência sobre diretores posteriores como Stanley Kubrick a George Lucas. O último se inspiraria em 21-87 para criar certos elementos de seu épico sci-fi Star Wars. Lucas declarou que sua ideia para "A Força" (The Force) vem deste poema-filme de Arthur Lipsett, retirado de um dos trechos sonoros em que uma das vozes diz que "people in the communication with other living things become aware of some sort of... Force... something behind this apparent mask which we see in front of us". Arthur Lipsett cometeu suicídio em 1986, pouco antes de completar 50 anos de idade.
§§§
O trabalho de Lipsett pode ser visto como uma ponte/elo entre o trabalho visual-poético-sonoro dos Lettristes parisienses (Isidore Isou, Marc O e Gil J. Wolman, entre outros) e as colagens visuais e sonoras dos filmes de Guy Debord (durante seu período "situacionista") e Jean-Luc Godard. Lipsett pode ser incluído entre os artistas e poetas que retomam certas estratégias das vanguardas do início do século XX, tenham eles religado o pós-guerra a DADA, como Isidore Isou com os outros Lettristes, Frank O´Hara com os nova-iorquinos, H.C. Artmann com os vienenses, John Cage, etc.; ou ao futurismo/construtivismo, como Augusto de Campos com os outros paulistanos ou Ian Hamilton Finlay com seus companheiros britânicos.
Marília Garcia, coeditora da Modo de Usar & Co., participa nesta sexta-feira do seminário Crítica de Intervenção, promovido pela Fundação Casa de Rui Barbosa no Rio de Janeiro. Mais informações sobre o seminário abaixo:
Setor de Filologia da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) promove, no dia 18 de maio, das 9 às 18 horas, o seminário “Crítica de Intervenção”. O evento, com entrada franca, acontece na sala de cursos da Fundação e tem a organização das pesquisadoras da FCRB Flora Süssekind e Tânia Dias. A programação do seminário inclui palestras de críticos, escritores e pesquisadores da área literária.
Ementa:
O seminário “Crítica de Intervenção” procura voltar-se para o exercício crítico enquanto diagnóstico do presente e forma de interferência direta na discussão cultural contemporânea. Enquanto trabalho imerso na própria hora histórica, tem como meios privilegiados as revistas, os suplementos e páginas especializadas de jornal, o artigo, a resenha, o texto de circunstância, os blogs, zines e publicações digitais, espaços de intervenção nos quais se engendram programas de ação e se desenham inflexões e transformações em curso, assim como um horizonte reflexivo em configuração estreitamente conectada às manifestações contemporâneas nos campos da literatura e das artes.
Programação:
:: 9h - Apresentação do seminário
1ª Mesa: Revista, Invenção, Intervenção
As revistas literárias dos anos 70, Maria Lúcia Barros Camargo (UFSC)
Todas las armas son buenas, Manoel Ricardo de Lima (Unirio)
Revistas de invenção - da revista como arte (do modernismo à contemporaneidade), Sérgio Cohn (Azougue)
Almanaque Biotônico Vitalidade e as artimanhas da Nuvem Cigana, Fernanda Teixeira Medeiros (Uerj/UFRJ)
:: 11h - 2ª Mesa: Os meios e a crítica
Antologias no presente: "As escolhas afectivas" e outras cirandas, Masé Lemos (Uerj)
Galeria de papel ou plataforma crítica? As revistas de arte na era da publicação digital, Laura Erber (PUC-Rio)
O Bairro, crítica disseminada, Julia Studart (UFSC)
A crítica literária do impresso ao iPad, Cristiane Costa (UFRJ)
A Inimigo Rumor e a página Risco, Carlito Azevedo (Inimigo Rumor)
Revistas de circulação reduzida: Noigandres e Tendência, Myriam Ávila (UFMG)
A revista Lado 7, Isadora Travassos/Jorge Viveiros de Castro (7 Letras)
A contribuição milionária de alguns erros: Leite Criôlo e as ambiguidades do primitivismo modernista, Miguel de Ávila Duarte (UFMG)
:: 17h - 4ª Mesa : Das revistas ilustradas à Z, Folhetim e Modo de Usar
Revistas ilustradas no Rio de Janeiro nas décadas de 1900 e 1910: Artes gráficas na formação da modernidade brasileira, Rafael Cardoso (Uerj)
Revistas on line e a convergência de culturas: três experiências, Beatriz Resende (UFRJ)
A revista Folhetim, Fátima Saadi (Teatro do Pequeno Gesto)
Em modo de usar, Marília Garcia (Unirio)
Violeta Parra foi uma poeta lírica (no sentido mais completo do termo) e artista visual chilena. Membro importante e decisivo do que ficaria conhecido como La Nueva Canción Chilena, é uma das mais conhecidas e amadas poetas latino-americanas. Nasceu em San Fabián de Alico ou San Carlos a 4 de outubro de 1917 no seio da família Parra, irmã do grande poeta Nicanor Parra, da folclorista e compositora Hilda Parra, do dramaturgo Roberto Parra, e ainda do músico e escritor Lautaro Parra, sem mencionar seus filhos, alguns destes hoje também importantes músicos e compositores do país. Após o fracasso do seu projeto com a comuna de La Reina e o abandono de seu companheiro de longa data Gilbert Favre, Violeta Parra escreveu os poemas-canções do álbum Las últimas composiciones (1966), que inclui poemas líricos dolorosos como "Que he sacado con quererte?".
Deste álbum, traduzi o destruidor e desesperado "Maldigo del alto cielo", um dos mais violentos poemas-canções de abandono e desamor do século XX. Três meses após o lançamento do álbum que inclui a famosa "Gracias a la vida", outro poema-canção violentíssimo em sua ironia, Violeta Parra levou uma arma de fogo à têmpora e puxou o gatilho, em Santiago do Chile, a 5 de fevereiro de 1967, com 49 anos de idade. Abaixo, minha tradução contextualizante do poema, a canção e o original castelhano. Aos desesperados de plantão. Os desesperados e desiludidos do amor sempre fazem plantão.
--- Ricardo Domeneck
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POEMA DE VIOLETA PARRA
Amaldiçoo no alto céu
Amaldiçoo no alto céu
a estrela e seu fogaréu,
eu amaldiçoo o corcel
e a sua crina no breu,
amaldiçoo no subsolo
a pedra e seu contorno,
amaldiçoo fogo e forno,
pois minh’alma está de luto,
amaldiçoo os estatutos
do tempo e seu modorro,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo Pico da Bandeira
e Mata Atlântica na costa,
amaldiçoo, senhor, a estreita
como a larga faixa de terra,
também a paz e a guerra,
o franco e o caprichoso,
eu amaldiçoo o cheiroso,
pois morreram meus anseios,
amaldiçoo todo o certeiro
e o falso com o duvidoso,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo a primavera
com seus jardins em flor
e do outono a sua cor,
eu o amaldiçoo deveras;
a nuvem passageira,
a amaldiçoo tanto, tanto,
pois me ajuda um quebranto.
Amaldiçoo o inverno inteiro
como o verão embusteiro,
amaldiçoo profano e santo,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo o peito varonil
e o berço esplêndido,
amaldiçoo todo emblema,
o Olimpo e o pau-brasil,
o mico-leão e o azul anil,
o Universo e seus planetas,
a terra e as suas cavernas,
pois me descorçoa uma tristeza,
amaldiçoo mar e correnteza,
seus portos e caravelas,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo lua e paisagem,
as praias e os desertos,
amaldiçoo morto por morto
e os vivos, do rei ao pagem,
a ave com sua plumagem,
os amaldiçoo como artífice,
os professores e pontífices,
pois me flagela uma dor,
amaldiçoo a palavra amor
com toda a sua porquice,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo enfim o branco,
o preto e o amarelo,
os bispos e os ateus,
hospitais e ministérios,
os amaldiçoo chorando;
o livre e o prisioneiro,
ao manso e ao brigão
eu jogo minha maldição,
em grego e em palavrão
por culpa de um traidor,
quanto durará minha dor.
(tradução de Ricardo Domeneck,
publicada originalmente no terceiro número impresso
da Modo de Usar & Co.)
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Maldigo del alto cielo
Violeta Parra
Maldigo del alto cielo La estrella con su reflejo Maldigo los azulejos Destellos del arroyuelo Maldigo del bajo suelo La piedra con su contorno Maldigo el fuego del horno Porque mi alma está de luto Maldigo los estatutos Del tiempo con sus bochornos Cuánto será mi dolor.
Maldigo la cordillera De los Andes y de la costa Maldigo señor la angosta Y larga faja de tierra También la paz y la guerra Lo franco y lo veleidoso Maldigo lo perfumoso Porque mi anhelo está muerto Maldigo todo lo cierto Y lo falso con lo dudoso Cuánto será mi dolor.
Maldigo la primavera Con sus jardines en flor Y del otoño el color Yo lo maldigo de veras A la nube pasajera La maldigo tanto y tanto Porque me asiste un quebranto Maldigo el invierno entero Con el verano embustero Maldigo profano y santo Cuánto será mi dolor.
Maldigo a la solitaria Figura de la bandera Maldigo cualquier emblema La venus y la araucaria El trino de la canaria El cosmo y sus planetas La tierra y todas sus grietas Porque me aqueja un pesar Maldigo del ancho mar Sus puertos y sus caletas Cuánto será mi dolor.
Maldigo luna y paisaje Los valles y los desiertos Maldigo muerto por muerto Y al vivo de rey a paje Al ave con su plumaje Yo la maldigo a porfia Las aulas , las sacrsitias Porque me aflije un dolor Maldigo el vocablo amor Con toda su porquería Cuánto será mi dolor.
Maldigo por fin lo blanco Lo negro con lo amarillo Obispos y monaguillos Ministros y predicantes Yo los maldigo llorando Lo libre y lo prisionero Lo dulce y lo pendenciero Le pongo mi maldición En griego y español Por culpa de un traicionero Cuánto será mi dolor.
Hanne Lippard nasceu na Inglaterra em 1986, mas cresceu na Noruega. É uma poeta trabalhando com o que poderia ser chamado de verbivocovisual, mas em suas peças o vocal faz-se realmente presente, não apenas implícito, com um trabalho visual que busca possibilidades para além da mera teatralização do signo, colocando-a na fronteira da poesia e arte contemporâneas. Pertence a uma pesquisa poética do que temos chamado de "textualidade". Em geral, não publica seus textos, preparados para performances vocais e acompanhados por vídeos. A poeta vive e trabalha em Berlim.
A revista Modo de Usar & Co manifesta-se de duas maneiras: como revista impressa (Livraria Berinjela), dedica-se à poesia-escrita. Como revista eletrônica (neste blog), dedica-se à poesia sonora e visual, em vídeo, e também escrita. Editada por Angélica Freitas, Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck.