Domingo, 29 de Maio de 2011

Gil Scott-Heron (1949 - 2011)

Gil Scott-Heron (1949 - 2011)


Morreu este fim de semana inesperadamente, com apenas 62 anos, o poeta norte-americano Gil Scott-Heron, nascido em Chicago a 1° de abril de 1949, falecido ontem, 27 de maio de 2011, em Nova Iorque. Scott-Heron tornou-se conhecido com o álbum de poemas Small Talk at 125th and Lenox (1970), que traz alguns de seus textos e poemas vocais mais famosos, como o icônico "The Revolution Will Not Be Televised", e ainda "Who'll Pay Reparations on My Soul?" e "Whitey on the Moon".

Scott-Heron lançaria em seguida, numa década em que foi prolífico, outros ótimos trabalhos: Pieces of a Man (1971), Free Will (1972), Winter in America (1974), The First Minute of a New Day (1975), From South Africa to South Carolina (1976), It's Your World (1976), Bridges (1977), Secrets (1978), Real Eyes (1980), Reflections (1981) e Moving Target (1984). Uma pausa de 12 anos se seguiria até o lançamento de Spirits (1994), e então outra de 15 anos até o lançamento de I´m New Here (2010). Colaborações suas com Brian Jackson, como as incríveis "Home is Where the Hatred Is" e "We Almost Lost Detroit", também foram bastante influentes sobre outros artistas.

Seus livros, além do já mencionado Small Talk at 125th and Lenox (1970), incluem o romance The Vulture (1970), The Nigger Factory (1972), So Far, So Good (1990) e a reunião de sua poesia em Now and Then: The Poems of Gil Scott-Heron (2001).

Eu poderia voltar aqui a alguns de meus assuntos obsessivos. Falar sobre como Gil Scott-Heron renova e faz renascer com força mamute em terras americanas a tradição oral da poesia africana dos griots. Sobre como a historicidade da poesia se encontra em toda a sua força de transpor contextos em uma obra como "The Revolution Will Not Be Televised". Historiadores do futuro encontrarão material de sobra neste poema para entender alguns dos conflitos do pós-guerra. Datado? Quem negará a atualidade desta peça em tempos de Wikileaks, revoltas da população do Egito e da Espanha, da Líbia e do Bahrein? É um pouco como o ótimo poema de Adrian Mitchell (1932 - 2008), intitulado "To Whom It May Concern". Sobre a Guerra do Vietnã? Ora, o que muda realmente de guerra em guerra? Nós aprendemos tanto com um poema sobre a Guerra do Vietnã como com um poema da antiguidade sobre a Guerra do Peloponeso.

Eu tenho calafrios, por exemplo, ao ler o famoso epigrama de Simônides de Ceos sobre os soldados mortos na Batalha das Termópilas (480 a.C.), que diz:



"Vai, desconhecido, diz aos lacedemônios:
aqui jazemos em obediência a suas leis."



Termópilas, Waterloo, Manchuria, Montecristo, Bagdá. A lista é interminável e crescente. Em qualquer lugar do mundo, dever-se-ia cavar a terra com o cuidado de quem possa estar escavando, sem saber, uma vala comum.

Será que um dia os versos de Gil Scott-Heron serão completamente incompreensíveis para os homens do futuro? Ora, todo poeta épico, se pensarmos na descrição de Ezra Pound para a poesia épica ("um poema que inclui a História") trabalha com o contextual: canta com tanta frequência o morto e o que vai morrer. Eles carregam a História em seu bojo, ainda que muitas vezes a mitificando, seja na Ilíada, ou mesmo, mais recentemente, n´O Guesa, de Sousândrade; n´Os Cantares, de Pound; no A, de Zukofsky; em The Walls Don´t Fall, de H.D.; n´A Rosa do Povo, de Drummond, e no gigantesco poema "Janela do Caos", de Murilo Mendes. A poesia reassume significados, sem ter que os engessar. Mesmo que o jogo inteligentíssimo de Scott-Heron em um verso como "You will not be able to plug in, turn on and cop out" se perca, e não saibamos que nele o poeta apropriou-se em intertextualidade da frase famosa de Timothy Leary, "Turn on, tune in, drop out", eu acredito que muito do texto sobrevive em sua própria carga de força.

A potência sonora, em aliteração e anáfora, é quase hipnótica, torna-se quase surreal-expressionista em certas imagens, ainda que saibamos lidar com figuras históricas. É texto de poeta. Em "lose yourself on skag and skip, / Skip out for beer during commercials", ou nas imagens de força expressionista em "The revolution will not show you pictures of Nixon / blowing a bugle and leading a charge by John / Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat / hog maws confiscated from a Harlem sanctuary", sem esquecer o jogo inteligente de criar paralelos sonoros entre Xerox e o nome de Nixon. Isso é sutil e ao mesmo agressivo, um soco, coisa de poeta satírico talentoso. Versos como "The revolution will not give your mouth sex appeal. / The revolution will not get rid of the nubs. / The revolution will not make you look five pounds / thinner, because the revolution will not be televised, Brother" preconizam elementos de apropriação que se tornariam comuns na poesia de hoje, além de ligá-lo, em minha opinião, a certas táticas de poetas modernistas, como Maiakóvski talvez, ou Brecht.

Sua morte é uma perda gigante, num momento em que precisamos tanto de poetas com coragem para incluir, quando necessário, a História em seus textos.


--- Ricardo Domeneck


§


POEMA VOCOTEXTUAL DE GIL SCOTT-HERON








The Revolution Will Not Be Televised
Gil Scott-Heron

You will not be able to stay home, brother.
You will not be able to plug in, turn on and cop out.
You will not be able to lose yourself on skag and skip,
Skip out for beer during commercials,
Because the revolution will not be televised.

The revolution will not be televised.
The revolution will not be brought to you by Xerox
In 4 parts without commercial interruptions.
The revolution will not show you pictures of Nixon
blowing a bugle and leading a charge by John
Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat
hog maws confiscated from a Harlem sanctuary.
The revolution will not be televised.

The revolution will not be brought to you by the
Schaefer Award Theatre and will not star Natalie
Woods and Steve McQueen or Bullwinkle and Julia.
The revolution will not give your mouth sex appeal.
The revolution will not get rid of the nubs.
The revolution will not make you look five pounds
thinner, because the revolution will not be televised, Brother.

There will be no pictures of you and Willie May
pushing that shopping cart down the block on the dead run,
or trying to slide that color television into a stolen ambulance.
NBC will not be able predict the winner at 8:32
or report from 29 districts.
The revolution will not be televised.

There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of pigs shooting down
brothers in the instant replay.
There will be no pictures of Whitney Young being
run out of Harlem on a rail with a brand new process.
There will be no slow motion or still life of Roy
Wilkens strolling through Watts in a Red, Black and
Green liberation jumpsuit that he had been saving
For just the proper occasion.

Green Acres, The Beverly Hillbillies, and Hooterville
Junction will no longer be so damned relevant, and
women will not care if Dick finally gets down with
Jane on Search for Tomorrow because Black people
will be in the street looking for a brighter day.
The revolution will not be televised.

There will be no highlights on the eleven o'clock
news and no pictures of hairy armed women
liberationists and Jackie Onassis blowing her nose.
The theme song will not be written by Jim Webb,
Francis Scott Key, nor sung by Glen Campbell, Tom
Jones, Johnny Cash, Englebert Humperdink, or the Rare Earth.
The revolution will not be televised.

The revolution will not be right back after a message
bbout a white tornado, white lightning, or white people.
You will not have to worry about a dove in your
bedroom, a tiger in your tank, or the giant in your toilet bowl.
The revolution will not go better with Coke.
The revolution will not fight the germs that may cause bad breath.
The revolution will put you in the driver's seat.

The revolution will not be televised, will not be televised,
will not be televised, will not be televised.
The revolution will be no re-run brothers;
The revolution will be live.


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Terça-feira, 24 de Maio de 2011

Sebastião Alba (1940 - 2000)



Sebastião Alba nasceu em Braga, Portugal, a 11 de março de 1940. Seu nome de batismo era Dinis Albano Carneiro Gonçalves. Em 1950, a família do poeta emigrou para Moçambique, onde ele passaria a viver até 1984, tornando-se cidadão moçambicano. No seu novo país, trabalhou como jornalista. Estreou em livro com Poesias (1965), ao qual se seguiram O Ritmo do Presságio (a primeira edição, moçambicana, em 1974 e a portuguesa em 1981) e ainda A Noite Dividida (1982).





A editora portuguesa Assírio & Alvum reuniria em um único volume seus livros O Ritmo do Presságio, A Noite Dividida e O Limite Diáfano em 1996, reunidos uma vez mais no ano 2000, incluindo inéditos, com o título Uma Pedra Ao Lado Da Evidência. A essa altura, o poeta vivia nas ruas de sua cidade natal. No dia 14 de outubro de 2000, com 60 anos, morreu atropelado. Havia escrito recentemente um bilhete:


"Se um dia encontrarem morto o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá".


Poeta lírico de extrema delicadeza, tentamos contribuir aqui com a divulgação de sua poesia tão bonita.


--- Modo de Usar & Co.


§

POEMAS DE SEBASTIÃO ALBA


A palhota

Espanta não ver nada
que se coma e caçarolas
As aranhas debandaram
não há moscas
até o humor secou
nas espinhas largadas
Vive-se como?
Donde a modeladora energia
que põe a carne?
Ladino um rato
como na infância o quereríamos
rói os bambus a viga
as horas urdem
e um opaco cisco indizível
aduz as proporções laqueia
a quietação à roda.


§


Ninguém meu amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


§


Último poema

(ao Jorge Viegas)


Nestes lugares desguarnecidos
e ao alto limpos no ar
como as bocas dos túmulos
de que nos serve já polir mais símbolos?

De que nos serve já aos telhados
canelar as águas de gritos
e com eles varrer o céu
(ou com os feixes de luar que devolvemos)?

É ou não o último voo
bíblico da pomba?

Que sem horizonte a esperamos
em nossa arca onde há milénios se acumulam
os ramos podres da esperança.


§


Ícaro

Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.


§


Não sou anterior à escolha

Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde
Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável
atento à efusão
da névoa na sala.


§


No meu país

No meu país
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.


§


A um filho morto

Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.


§


Como os outros

Como os outros discipulo da noite
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço

dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si

As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.


§


Como se o mar

Quero a morte sem um defeito.
Sem planos brancos.
Sem que pequeninas luzes se apaguem
dentro dos ruídos.
Também a não quero providencial,
com um anjo vingador e secretíssimo
enfim pousado.
Nenhuma mitologia. Nenhuma
fruição poética. Assim: Como se o mar
me aspirasse os ouvidos... etc.
Mas súbita e civil,
com repartições abertas,
comércio, a luz graduada
nas altas paredes
dum bom dia sonoro.


§


O limite diáfano

Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.


§


Há poetas com musa

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.


§


Gosto dos amigos

Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.


§



Sem título


Para isto de dar
um bambo passo entre as estrelas
não se vai com a grande ocasião reclinada
na cabeça a ouvir Puccini

Breve empanadas as estrelas
não mais se acenderão e apagarão
O rumo estará raso
O silêncio a nada obrigará

De pouco serve a ida ao lugar de ausência

que o teu sono já não é extensível
Aboliu-se uma posição relativa na noite
Não circulando em ti com a sua mistura
o ar atravessará o esqueleto

E tudo será sem data e sem prenúncio

E não acrescentarei ao poema ainda um verso relvado Que buxo!
Ele não seria a medida ou a balança Seu inconcreto molde
restaria quebrado entre outros cacos

(Se bem que da infância suba até mim o coro admonitório dos anjos.)


§


As mãos


Componho com as linhas dos meus dedos outros puros
cujas pontas façam girar nenhum raio sucessivo
de sol Dedos sem o cadastro de enlaces doendo
e se declamo ficções que eles escorem
Sem par noutras mãos Nem fundos na algibeira
mexidamente obscenos e a salvo da garra dos gatilhos
Dedos com um horizonte de pálpebra baixando
que assim não acordem as formas tacteadas
donde um sono mane estrie os espaços vedados
Dedos de que mesmo a chuva escorra sem uma lágrima
Ou os que já compus e assinam adiam o poema.


§


Epílogo

Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.


§





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Sexta-feira, 20 de Maio de 2011

Lois Pereiro (1958 - 1996)



Lois Pereiro foi um poeta galego, nascido na cidade de Monforte de Lemos, na Galícia, a 16 de fevereiro de 1958. Mudou-se para Madri, onde estudou Ciências Políticas e Sociologia, além das línguas inglesa, francesa e alemã. Aí fundou com os poetas Antón Patiño, Manuel Rivas e o seu irmão Xosé Manuel Pereiro a revista Loia. Mudando-se para Corunha em 1981, começou a publicar seus poemas em revistas como La Naval, Trilateral, Luzes de Galiza, e nas antologias De amor e desamor (1984) e De amor e desamor II (1985). Em vida, publicou apenas duas coletâneas, Poemas 1981/1991 (1992) e Poesía última de amor e enfermidade (1995). Lutando contra infecções advindas da AIDS, morreu em Corunha a 24 de maio de 1996. Neste ano, veio à luz o volume Poemas para unha Loia, que inclui poemas publicados na revista Loia e ainda o ensaio "Modesta proposición para renunciar a facer xirar a roda hidráulica dunha cíclica historia universal da infamia", publicado no nº 27 de Luzes de Galiza. O Dia das Letras Galegas de 2011, celebrado dia 17 de Maio, foi dedicado à sua obra. As publicações póstumas foram Conversa ultramarina (2010), e, todos deste ano, Náufragos do Paraíso, Antoloxía, Modesta proposición e outros ensaios e sua Obra poética completa (2011).

O epitáfio gravado em pedra em sua lápide vem de um de seus poemas e lê: "Cuspídeme enriba cando pasedes por diante do lugar onde eu repouse, enviándome unha húmida mensaxe de vida e de furia necesaria".

Reproduzimos abaixo alguns de seus poemas, no original galego, o que nos parece possível devido à proximidade entre nossas línguas.


--- Modo de Usar & Co.


§


POEMAS DE LOIS PEREIRO


Cero a la izquierda


O corredor de fondo perde o alento
fuxindo dunha vida inzada de renuncias
da súa liturxia obesa e oleosa,
mediocre nos seus comunais fracasos,
bágoas de xelo, indignación contida
non deu chegado a tempo de exercer
a súa rebelión,
nin de levar a cabo
a súa vinganza definitiva
contra un mundo inxusto, homicida, e cruel,
pola inutilidade da súa propia vida
solitario, enfermo e fatigado,
a morte anticipouse e chegou antes.



§


Luz e sombras de amor resucitado

Tristemente convivo coa túa ausencia
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.



§


Somentes

intentaba conseguir

deixar na terra

algo de min que me sobrevivise

sabendo que deberia ter sabido

impedirme a min mesmo

descubrir que só fun un interludio

atroz entre dous muros de silencio

só puiden evitar vivindo á sombra

inocularlle para sempre a quen amaba

doses letais do amor que envelenaba

a súa alma cunha dor eterna

sustituíndo o desexo polo exilio

iniciei a viaxe sen retorno

deixándome levar sen resistencia

ó fondo dunha interna

aniquilación chea de nostalxia.



§


¿Que es Galicia?


a. Agua. Aire. La Amnesia del vencido, la Atracción del Abismo, el Árbol junto al Árbol, y la alegría del espacio circundante. El Alma es el Atlántico y es el Acantilado el cuerpo de su llamada Atroz.

b. Barroco: la Belleza usual hecha materia en piedra en el Borde del Bosque omnipresente.

c. Calma. Castelao, Curros, Cunqueiro, Cultura, Celebración y Culpa: una conciencia Céltica del Cosmos.

d. Difícil definir ese Dolor, Doblegar el Destino, conseguir que el Deseo nos siga siendo útil. (Diluvia)

e. Espiral en el Espacio Esférico. Emigración: Estímulo de nuestro Exilio interior que nos lleva por el Este hacia Europa, por el mar hacia el Éxito y hacia la Enfermedad, y siempre hacia el eterno Extrañamiento del espíritu.

f. Fuego de hogar. Fantasía. Fábricas, Fiebre y Formas del Futuro, Figuras del pasado. El Fenómeno atmosférico de la Felicidad, y todas las Fiestas del mañana…

g. Gráficas del Granito, agua y silencio, donde transborda el alma de la Gulfstream. El gemir de las Gaitas, y en el carácter esa amable presencia de la Grasa.

h. Historia: Herbicida el olvido. La Humedad, el “Horror vacui” y la Humildad nos impiden convertir la Historia en Heroísmo. Nuestra Heredad adiestrada en la huída, con la sabiduría de las heridas viejas, por nuestras propias manos solamente vencidos.

i. Ironía: arte de convertir el Infierno en un cuento de Invierno.

j. Sonido oriental. Rotundidad sureña.

k. Kilowatios por tierra sumergida.

l. Luto: manchas en el paisaje, bolas negras sobre el tapete verde.

m. Lega muertos el Misterio de la Música, pero el Miño se va llevando ese Misterio al Mar.

n. Norte. Noche. Niebla. Negro: materia poética nacional.

ñ. Nh/ gn/ ñ.

o. Oeste: “Galicia atiende y obedece a la llamada del Oeste” (R. Otero Pedrayo). Tantos siglos de Ofensas y de Olvido crean anticuerpos en el Organismo de un pueblo, y esa continua Ofensa de la historia generará en el Orgullo de este pueblo apacible el destructivo Oxígeno del Odio, la Obsesión del fracaso y de la culpa.

p. Poesía. Patria. Pasión. Peligro de extinción, perdidos en nuestra propia Pureza, de la necesidad de ser un Pueblo. Nuestra indiferencia alimentará el Proceso de Autogenocidio que vivimos. Paisajes dispersos, alineados entre los Perfiles del Pasado, con la Presencia de una vegetal sensación de eternidad. Pasión y Poses “punk”, reflejos Postmodernos y altas horas en los diques urbanos de la noche.

q. Química del dolor Quintaesencia del miedo. ¿Ahí, pegado a mí, quién se ríe?

r. Río: el Rumor de la vida, la Religión de las aguas. Las Risas surgen siempre donde Reina la calma, en la quietud profunda de quien conoce el Riesgo y lo domina. Rural: corre sangre rural por estas venas; y si alguna vez la Razón opone Resistencia, se Reconoce el gallego en la tierra, en la lenta vitalidad del árbol, en la invencible resignación de la hierba.

s. El Sonido de la Soledad y el Silencio. El Salvaje Sarcasmo de los Sueños del presente, y la Silente atracción por el Suicidio: el Sil. El Miño es nuestra Sangre, el Sil su sombra. Serenos y Sombríos, finalmente trasciende la Sonrisa astuta.

t. Tierra. Y el Tiempo, y el Trastorno y sus Tinieblas. La Tradición de una
triste Ternura. La Tierra es el principio, y todo existe en ella y para ella.

u. Utopía: compaginar el deseo y la necesidad de nuestros sueños.

v. Vacas en Valles mojados, y la férrea Voluntad de los Viejos encadenados a la tierra, con el Vicio de su fatalismo escéptico. Verde. Verde y más Verde sobre otros Verdes, y por detrás: Verde.

w. Whisky: noche urbana. ¿Galicia es Wagneriana, o és más bien un Wolfgang Amadeus enfermo de paisaje, soñando con Sibelius?.

x. 25 de Xullo*.

y. y

z. Fin

Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

Isabel Câmara (1940 - 2006)

Da série Sonda nas jazidas 

Isabel Câmara nasceu em Três Corações, Minas Gerais, em 1940. Tornou-se conhecida com a peça As Moças, pela qual recebeu o Prêmio Molière de melhor autor em 1970, após a encenação do texto em São Paulo em 1969, com direção de Maurice Vaneau, e, no ano seguinte, com direção de Ivan de Albuquerque no Rio de Janeiro. Segundo o crítico Yan Michalski, "As Moças ocupa um lugar importante na dramaturgia do seu tempo, e revela uma singular sensibilidade, espontaneidade do diálogo, capacidade de envolver uma aguda observação psicológica numa aura de emocionada poesia, e um talento que poderia, em outras circunstâncias, ter aberto diante da autora o caminho para uma carreira mais duradoura".

Durante a década de 70, sua amizade com autores como Carlos Süssekind e Francisco Alvim a aproximaria dos poetas e escritores ativos no Rio de Janeiro. Teve alguns de seus poemas incluídos na antologia de Heloísa Buarque de Hollanda, 26 Poetas Hoje (1975), e parte de seu trabalho seria reunido no volume Coisas Coiós (Rio de Janeiro: 7 Letras, 1998), dos quais foram extraídos os poemas abaixo.

Foi contemporânea de poetas tão distintos entre si quanto Orlando Parolini (1936 - 1991), Roberto Piva (1937 - 2010), Orides Fontela (1940 - 1998), Leonardo Fróes (n. 1941), Elisabeth Veiga (n. 1941), Paulo Leminski (1944 - 1989), Torquato Neto (1944 - 1972) e Ana Cristina Cesar (1952 - 1983), entre tantos outros surgidos entre as décadas de 60 e 70. Para que estas obras poéticas todas sejam compreendidas e avaliadas por nossa geração, para além das narrativas historiográficas já engessadas sobre grupos e hegemonias estabelecidas em outros contextos, é preciso que elas circulem, estejam disponíveis. Com esta pequena mostra de poemas de Isabel Câmara, assim como de outros poetas daquelas décadas aqui na Modo de Usar & Co., tentamos participar do processo.

Isabel Câmara morreu em Goiânia, em 2006.



--- Modo de Usar & Co.


§


POEMAS DE ISABEL CÂMARA


I.

Se por acaso ao cruzar a luz
teu pé não se apegar a mim e o
trespassar em ti a espada
fruto masculino prazer de dolorosa e umbrática sombra
Saiba que por ti
ignorantemente passei sem querer
sem que sequer presumisses
e se supunhas
então era eu o tempo devido
fossem Outroras ou não
quando Aurora
(ah sacra palavra)
Aurora
AURORA
que em inglês também pressupõe pés sujos
de americanos forjadores de matracas...
...não fique aí parado
escoou – foi para baixo e sumiu na Noite
DAWN
E quando todo lógico-poema
não quiser assinalar-se à ponta da escrita
aquieta-te pássaro e força o prazer de pássaro
olhando à revelia o céu
porém ali
sentadinho mas num poleirinho.


II.

Se fosse moça (se moça fora) não teria nome
chamar-se-ia em boa gramática
de escrita antiga apenas Moça.
Só se faria maiúsculo o m de três pernas
que duas já devera de ter por causa dos sustos
e do medo de perder. A terceira perda
a perna terceira
tecera infindável
o recomeço
para o Futuro...
Quanta estranheza senhor Deus
nas orações de dona Rozenda.
Toda Ave-Maria era um coroar-se de rei
e de salve-rainhas a perder de vista
Depois
se por acaso alguém perdesse o dom de Ver
A Visão
até isso era um coroar-se da Vida


§


Light-cock-song

só para gênios, tímidos
e alguns porcos chauvinistas
desses que o padre vem me
benzer todo dia, e que quando
não vem ele cá vou eu lá:
Leva este caralho compra-me um maço
de cigarros Continental, umas cem
gramas de alho e o tempero, que te der na cuca.
E se o dinheiro render, um lacinho de fita
de seda ou crepom. Depois, na saída do cinema,
vem cedo pra casa, me leva pra cama, sem se
esquecer que o alho é para um aglio-olio.



§



ninguém morre ao travesseiro

só os sonhos

isto quando há travesseiro

ou lojas cheirosas
de
tanto capim-do-pará murta macela...

essas ervas que socorrem

a Santa Mãe Natureza


§


Dezenove do oito de mil novecentos e setenta & quatro

Não entendo nada desta janela fechada
que me aperta a culpa
Doer não doi mais,
nem sangra –
Consegui o que queria:
ser despedida, ficar perdida
falida & alone
olhando o pale da Comedia.
Sei que me chamam Bel
Mel de paixão
sugado da boca louca
de onde sangra o coração
e chora a hora
do leito vazio
da falta de peito
do jeito do beijo
fácil, difícil, sutil.

A verdade é que vivo a mil
sonhando a morte em azul-anil.


§


Fim (13° volume)

Você me falou
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.


§


Ih, lógica

Só quem sabe a Idade do Ferro
é a Bigorna que o modifica


§


Hora sagrada

Te espero.
Sob o travesseiro
a tesoura segura
o Ouro
o Trigo
o abraço ligeiro
de quem tem cheiro
das coisas pagãs
anãs sob o linho fino
o vinho rastreiro.
Faço a feira
vivo beirando a beira
da Orgia
que pia, escorrega,
cortando ligeira
a noite do dia que me alivia.
E aí só cria
meu mundo de fantasia
Agora vê se não chia
Você não é minha tia.


§


Quem diante do amor
ousa falar do Inferno?

Quem diante do Inferno
ousa falar do Amor?

Ninguém me ama
ninguém me quer
ninguém me chama
de Baudelaire


§


Lençóis

Aos domingos se vai ao longe. . .
Lavam-se panos brancos e os
denominamos roupas de cama:
Roupas de baixo
Roupas de cima –
Coisas da Casa
Aos Domingos todos se cansam cedo:
há enlaces matutinos
e muitos hinos.
Aos domingos há missa, música
entreveros. Há quem chore
nalguma hora e há também
possibilidades novas:
Há pares, bares, porres.
Aos domingos semeiam
as lavadeiras
seus azuis/brancos lençóis
lúcidos dos dias de semana.
Para elas lençóis
Prata da Casa
Lençóis louça de Porcelana


§


Cartilha

VOGAIS

A E I O U

a e i o u

Consoantes

B C D F G H J L M N P Q R S T V X Z

b c d f g h j l m n p q r s t v x z

A grande é Maiúsculo

A é vogal maiúscula

A maiúsculo se escreve após um ponto final (.) uma interrogação (?) uma afirmação (!)

E os nomes das pessoas devem começar com letra maiúscula.
Aquela menina é tua irmã?
Não. Aquela menina é minha amiga.
Eu sou a amiga da amiga.
Eu sou o amigo do amigo.
Eu sou amiga das amigas e dos amigos.
Aprendo a escrever.
Aprendo a perguntar: o que é ser Amigo?

Ia procurando a estrada. Era durante o dia.
Dia e meio já eram.
Era meio-dia e parecia mais.
Ia me escondendo, sol forte castiga.
Dia e meio é mais que meio dia.
Dia e meio são dois dias mais doze horas.
{Aqui existe erro. Você sabe dizer qual?}
Era manhã e eu ia só, sozinha pela estrada. Estrada longa.
Difícil. Outra pessoa apareceu.
Outros amigos vieram chegando.
Éramos amigos, pessoas, colegas caminhando pela longa estrada.
Uns brincavam, outros caminhavam sérios, pensativos,
até tristes. Seria fome? Seria medo?
Seria o Negrinho do Pastoreio no vento que embalava tanto silêncio?
A Escola já estava a meio caminho andado.
O outro caminho todos ainda havíamos de aprender.
Tem um aluno novo que é loiro. O outro é uma menina
bem pretinha de alumiar.
As duas crianças vão de braços dados.
Às vezes comem separadas.
O sol brinca no carrapincho de um e faz contraste com o
cabelo lourinho do outro. É bom de se olhar. Aprende-se
muito com o olhar.
Se a Escola ficasse mais perto das nossas casas, a gente
sentia menos fome, menos preguiça e até menos medo,
feito aquele menino do vento cujo vento era amigo do
Negrinho do Pastoreio.
A professora também mora longe.
Quando não vem de carroça, de charrete, tem coragem até
para os solavancos do carro de bois.
Por hoje é só.

Resposta:
Dia e meio são doze horas mais seis horas. São 12 + 6 = 18 horas.
18horas são as seis da tarde. Hora da Ave Maria.

Para escrever a gente pode começar assim:
Se esforçando na Caligrafia.
Ia me esquecendo de um relato:
B-b- de Belezura de belezura.
Beleza longamente. Sem hora.
Formosura. Sem usura. Sem avarícia ou indecência do olhar.
Beleza que dura, que permanece, guardadinha na gaveta
verde de alguma árvore da longa estrada.
Belezura é aprendizado de Liberdade. É a beleza da forma.
Por isso é complicado definir.
Eu vi duas amigas. Pareciam mais duas aves benzendo
a terra árida. Benedita saltava sobre brejos secos onde muitas
vezes se banhou.
Branca fitava os seixos, serena.
Branca a Benedita. Belezuras. Formosuras.
Um dia começou a chover.
Então a terra-mundo adormeceu feliz.


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Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

Lee Ranaldo


Lee Ranaldo - "Notebooks", poema vocal.

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Lee Ranaldo nasceu na pequena cidade de Glen Cove, localizada na famosa ilha conhecida como Long Island, em Nova Iorque, a 3 de fevereiro de 1956. É um músico, artista visual e poeta norte-americano, famoso desde a década de 80 por ser um dos membros fundadores da banda Sonic Youth.

Publicou as coletâneas de poemas JRNLS80s (1998), Lengths & Breaths (2004) e o mais recente Against Refusing (2010). Lançou também Dirty Windows, um álbum de poesia vocal (ou spoken word).

Vem há algum tempo trabalhando com a conjunção de texto vocalizado, som (especialmente distorções criadas com a guitarra) e arte visual, muitas vezes colaborando com sua esposa, videasta.

É um dos convidados especiais do Festival de Poesia de Barcelona deste ano.



--- Modo de Usar & Co.


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Nota dos editores: alguns leitores nos pediram que disponibilizássemos o texto escrito de Lee Ranaldo para o poema oral acima. Em geral, quando o texto tem sua publicação oral, evitamos a transcrição do texto escrito pelos parâmetros distintos de cada registro, a não ser que o próprio poeta o tenha também publicado em livro, como é hábito de Lee Ranaldo. No caso de "Notebook", trata-se mesmo de um poema oral, a partir da prática musical do spoken word, incluído no álbum Amarillo Ramp (2008), que Ranaldo dedicou ao artista norte-americano Robert Smithson (1938 - 1973), conhecido por sua land art. Como sabemos que pode ser difícil compreender poemas orais em outras línguas (ainda que esta indeterminação faça parte da própria experiência das poéticas orais), transcrevemos abaixo o texto de Lee Ranaldo.


Notebook
Lee Ranaldo

I watch as the whole country slides by below the wing.
Deep red clays and burned out browns, followed by snow bleached peaks
and now the flat geometry of the middle lands.
Hundreds of miles of patchwork squares and circles, an occasional
building group here or there isolated and tiny city clusters shrinking
in the capillary sprawl, grey and lifeless from above.
What is this all about?
The ground moving does not really alter my perspective up here.
Nothing seems to affect my view these days.
My life beyond stable, static.
35 years, 10 years, almost 5 years.
All these time line hash marks seem have ground me to a halt.
How do dreams and hopes end up frozen?
How can I get back that burning desire?
I am at a standstill now.
The days goes in and out and I get nowhere.
Still no great clang of astonishment, no brilliant flash of light,
no steeple with a wide view.
All that surrounds me, all the things that I have gathered and continue to gather
at such an obscene rate seem to be stones tied to the cuff.
Weights to make the freedom of the river that much harder to realize.
And all these stupid metaphors, what is one to do?
The idea of chucking it all seem so inviting.
To throw myself headlong into a love affair with some beautiful unknown person.
Or a trip off alone in the wilds never looking back.
But I can't help myself I must always look back.
Life is so beautiful in the rearview, everything in golden light and very still.
Faces and places, feelings, thoughts, embalmed forever.
That wall in Chapel Hill.
Karen lying on the bed by that sunshaded window, Johnson City,
listening for footsteps and not yet through.
The soft mountains green at 7 years old and 8 and 9.
Laurie's face in that photograph.
The old Volkswagen parked by the gate of those brown fields.
That red tractor leaving traces as it plotted across before Tom and I
our eyes wild with it.
La seguada vamilia in Barcelona.
Los Angeles palmtrees looming like endless flagpoles and reflected overhead
in the rear windows like arching spiders.
Hovering just 20 minutes ago above the cotton ball clouds.
The first gig in Berlin, Mud Club with the gate coming down.
The stained glass windows of St.Tom's seen close up in movie camera view.
All the envelopes full of tiny snapshots collecting dust.
My mother as a small girl in a burnished white dress.
My wife as a young mother.
All the girls whose initials have been L.S.
The feeling of almost drowning beneath a glassy blue surface.
Kissing Mary in the dark.
Old movies my first attempts all hazy and bleached out blue.
Cody in his leather jacket.
Amanda driving the old wrecked blue plymouth across the Canadian landscape.
My life in a frozen moment a fly's eyes faceted view of all the moments
which make up the full strand.
Do any of these moments mean even the slightest thing?
Michael dragging off the opium pipe in the shaded green of his back yard.
How much easier if the past were a black hole if we had amnesia.
Bright sun skating it's way and fractured kite like beads through
the pine trees outside Susan's house.
How many of my memories are created or reinforced by the documentation
of them?
Do we film events only to be able to see them in retrospect?
To see them as though they were the actual moments themselves
burned onto our retina?
To see them as though they were really what we saw at the time?
I don't really remember anything.
I only recall pictures, snapshots of events I may have been present at.
Televised pictures of the revolution no where near here on mine too.
I recall written words of my own past equally with those of times and
places I have little business knowing anything about.
I never really been to sea, never driven down an endless straight ribbon of
highway into the next state, never floated on a swiss alpine lake or borrowed
deep into the earth fossil corridor of time.
Is it even possible to reach out and touch another person?
To dent their flesh with my fingertips?
Why all the conventions the walls to prevent such happenings?
What can you show me?
What can I tell you?
How many years have we been apart?
Where have you been all my life?
When can I see you again?
I'm sick of the sight of you.
All the dichods head butting me one against the other.
Tearing my soul in two directions at once.
Ripping at the seams of my consciousness.
Babbling on and on in my mind.







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Quinta-feira, 12 de Maio de 2011

O poeta português Manuel António Pina ganha o Prêmio Camões de 2011



Manuel António Pina nasceu em Sabugal, a 18 de novembro de 1943. Foi anunciado hoje em Portugal que o Prêmio Camões de 2011 é do autor de Aquele que quer morrer (1978), O pássaro da cabeça (1983), Nenhum sítio (1984), O caminho de casa (1989) e Um sítio onde pousar a cabeça (1991), entre outros.


POEMAS DE MANUEL ANTÓNIO PINA


A um Homem do Passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.

Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.


§


Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.


§


A ferida

Real, real porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste

que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.

Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado! Mas onde encontrar um passado?


§


O livro

E quando chegares à dura
pedra de mármore não digas: «Água, água!»,
porque se encontraste o que procuravas
perdeste-o e não começou ainda a tua procura;
e se tiveres sede, insensato, bebe as tuas palavras
pois é tudo o que tens: literatura,
nem sequer mistério, nem sequer sentido,
apenas uma coisa hipócrita e escura, o livro.

Não tenhas contra ele o coração endurecido,
aquilo que podes saber está noutro sítio.
O que o livro diz é não dito,
como uma paisagem entrando pela janela de um quarto vazio.


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Terça-feira, 10 de Maio de 2011

Gertrude Stein (1874 - 1946): Ciclo crítico: Segunda Postagem - Tradução de Andrea Mateus para a palestra "Composition as explanation" (1926)



Iniciado no ano passado, este ciclo crítico sobre Gertrude Stein tem seguido de forma lenta e aos percalços, pois a norte-americana ainda parece ter uma acolhida crítica bastante difusa na poesia e crítica brasileiras. Nós o iniciamos com uma postagem que trazia traduções de Augusto de Campos para poemas e "retratos" da autora, assim como trechos de seu texto dedicado a Stein no volume O Anticrítico (São Paulo: Companhia das Letras, 1986).

Voltamos agora ao ciclo postando aqui a tradução da paulistana Andrea Mateus para a importante palestra "Composition as explanation", proferida pela autora em Oxford e Cambridge e publicada pela primeira vez em 1926. Mais tarde, o texto foi incluído no volume What Are Masterpieces (1936). A tradução de Andrea Mateus foi publicada originalmente no segundo número impresso da Modo de Usar & Co. (Rio de Janeiro: Livraria Berinjela, 2009). Desconhecemos outra versão para o português deste texto da americana.

Pareceu-nos um momento muito oportuno de publicar e divulgar aqui na franquia eletrônica da revista este que é um dos mais bonitos textos críticos de Gertrude Stein, com sua defesa apaixonada do "contemporâneo", neste momento em que a crítica brasileira mostra-se mais uma vez cega para aqueles com quem compartilha oxigênio. O texto, nos parece, tem algumas perguntas saudáveis para o debate poético hoje. Bastante longo, recomendamos que ele seja copiado e impresso... mas certamente lido.

Agradecemos mais uma vez a Andrea Mateus pela tradução. Com vocês, a "Composição como explicação".



--- Modo de Usar & Co.



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Composição Como Explicação
Gertrude Stein, tradução de Andrea Mateus.


Primeiramente uma palestra dada pela autora em Cambridge e
Oxford, este ensaio foi publicado pela primeira vez pela Hogarth
Press em Londres em 1926 e recuperada no volume chamado What
Are Masterpieces. (O Que São Obras Primas)


Não há nada em especial que faça de uma diferença uma diferença no começo e no meio e no fim exceto que cada geração tem alguma coisa diferente para a qual estão todos olhando. Com isso quero simplesmente dizer que qualquer um sabe que a composição é então a diferença que faz cada um e todos eles diferentes de outras gerações e isso é o que faz todas as coisas diferentes de outra forma serem parecidas e todo mundo sabe porque todo mundo diz.

É muito provável que quase todo mundo já tenha tido quase certeza de que algo que é interessante interessa a eles. Se podem e fazem. É muito interessante que nada dentro neles, ou seja quando você considera a história bem longa de como cada um já agiu ou sentiu, é muito interessante que nada dentro neles nada dentro em todos eles faz isso coerentemente diferente.

Com isso quero dizer isso.

A única coisa que é diferente de uma vez para outra é o que é visto e o que é visto depende de como todo mundo está fazendo todas as coisas. Isso faz a coisa que estamos olhando muito diferente e isso faz o que aqueles que a estão descrevendo entendem dela, isso faz uma composição, confunde, mostra, é, parece, gosta disso como é, e isso faz o que é visto como é visto. Nada muda de geração para geração exceto a coisa vista e isso faz uma composição. Lord Grey observou que quando os generais antes da guerra falavam da guerra falavam dela como uma guerra do século dezenove embora se lutasse com armas do século xx. Isso é porque a guerra é uma coisa que decide como será quando está para ser feita. É preparada e nesse ponto é como todas as academias não é uma coisa feita ao ser feita mas é uma coisa preparada. Escrever e pintar e tudo isso, é isso, para aqueles que se ocupam com isso e não fazem isso enquanto é feito. Agora os poucos que fazem isso enquanto é feito, e devemos observar que os mais decididos deles normalmente estão tão preparados quanto o mundo à volta deles se prepara, fazem dessa forma e se vocês não se importam vou dizer como acontece. Naturalmente não se sabe como aconteceu até que já tenha começado por um bom tempo a acontecer.

Voltando à parte em que a única coisa diferente é aquilo que é visto quando parece estar sendo visto, em outras palavras, composição e sentido temporal. Ninguém está à frente de seu tempo, é só que a variedade particular de criar o seu tempo é aquela que seus contemporâneos que também estão criando seu próprio tempo se recusam a aceitar. E se recusam a aceitar por uma razão muito simples que é a de não terem motivo algum para aceitar. Eles próprios isto é todo
mundo em seu entrar na composição moderna e eles entram mesmo, se eles não entram não estão propriamente nela estão fora dela e então entram; mas dentro do que pode ser chamado esforços não-competitivos onde se você não está dentro nada se perdeu exceto coisa alguma exceto o que não é tido, existem naturalmente todas as recusas, e as coisas recusadas só são importantes se inesperadamente acontecer de alguém precisar delas. No caso das artes isso é bastante definido.

Aqueles que estão criando a composição moderna autenticamente são naturalmente apenas importantes quando estiverem mortos porque então a composição moderna tendo se tornado passado é classificada e a descrição dela é clássica. Essa é a razão porque o criador da nova composição nas artes é um fora-da-lei até que seja um clássico, entre eles há menos que um instante e é naturalmente muito ruim muito ruim mesmo para o criador mas também muito ruim mesmo para o apreciador, eles todos realmente apreciariam a criação muito melhor logo após ter sido produzida do que quando já é um clássico, mas é perfeitamente simples que
não haja nenhum motivo pelo qual os contemporâneos devessem ver, porque não faria nenhuma diferença já que levam suas vidas na nova composição de qualquer forma, e como todos são naturalmente indolentes ora naturalmente não veem. Por essa razão como ao citar Lord Grey é bem certo que as nações não efetivamente ameaçadas estão militarmente em atraso por pelo menos várias gerações e assim esteticamente estão em atraso por mais de muitas gerações e é muito ruim mesmo, e é tão mais excitante e satisfatório para todo mundo se se pode ter contemporâneos, se todos os seus contemporâneos pudessem ser seus contemporâneos.

Quase não há um intervalo.

Por muito tempo todo mundo recusa e então quase que imediatamente quase todo mundo aceita. Na história dos recusados nas artes e na literatura a rapidez da mudança é sempre surpreendente. Agora, a única dificuldade com o volte-face no que concerne as artes é essa. Quando a aceitação vem, com essa aceitação a coisa criada se torna um clássico. É um fenômeno natural um fenômeno natural bem extraordinário que uma coisa aceita se torne um clássico. E qual é a qualidade característica de um clássico. A qualidade característica de um clássico é que é
belo. Agora é claro que é perfeitamente verdade que uma obra de arte mais ou menos de primeira linha é bela mas o problema é que quando uma obra de arte de primeira linha se torna um clássico porque é aceita a única coisa importante a partir daí para a maioria dos que a aceitam, a maioria esmagadora, a maioria dos mais inteligentes que a aceitam é que é tão maravilhosamente bela. É claro que é maravilhosamente bela, apenas quando é ainda uma coisa irritante incômoda estimulante então toda qualidade de beleza lhe é negada. É claro que é bela mas primeiro toda sua beleza lhe é negada e então toda sua beleza é aceita. Se todo mundo não fosse tão indolente perceberia que a beleza é a beleza mesmo quando é irritante e estimulante não apenas quando é aceita e clássica. É claro que é extremamente difícil não mais do que lembrar de quando não era bela uma vez que se tornou bela. Isso torna ainda mais difícil perceber sua beleza quando se recusa a obra e não deixa ninguém perceber que estavam convencidos de que a beleza foi negada, uma vez que a obra é aceita. Automaticamente com a aceitação do sentido temporal vem o reconhecimento da beleza e uma vez que a beleza é aceita ela
nunca escapa a ninguém.

Começar de novo e de novo é uma coisa natural mesmo quando há uma série. Começar de novo e de novo e de novo explicando composição e tempo é uma coisa natural. Se entende hoje que todas as coisas são o mesmo exceto composição e tempo, composição e o tempo da composição e o tempo na composição. Todas as coisas são o mesmo exceto a composição e como a composição é diferente e sempre será diferente todas as coisas não são o mesmo. Todas as coisas
não são o mesmo uma vez que o tempo quando da composição e o tempo na composição são diferentes. A composição é diferente, isso é certo. A composição é a coisa vista por todos vivendo na vida que estão vivendo, eles são o compor da composição que no tempo que estão vivendo é a composição do tempo no qual estão vivendo. É isso que faz viver uma coisa que estão fazendo.
Nada mais é diferente, disso quase todo mundo pode ter certeza. O tempo quando e o tempo da e o tempo naquela composição é o fenômeno natural daquela composição e disso talvez todo mundo possa ter certeza.

Ninguém pensa essas coisas quando está fazendo quando está criando o que é a composição, naturalmente ninguém pensa, ou seja ninguém formula até que o que está para ser formulado tenha sido feito. A composição não está lá, estará lá e nós estamos aqui. Isso é algum tempo
atrás para nós naturalmente. A única coisa que é diferente de um tempo para o outro é o que é visto e o que é visto depende de como todo mundo está fazendo todas as coisas. Isso faz a coisa para a qual estamos olhando muito diferente e isso faz o que aqueles que a descrevem fazem dela, faz uma composição, confunde, mostra, é, olha, gosta do jeito que é, e isso faz o que é visto como é visto. Nada muda de uma geração para a outra geração exceto a coisa vista e isso faz uma composição.

Agora os poucos que fazem a escrita como é feita e é para ser observado que os mais decididos deles são aqueles que estão preparados por preparar, preparados tanto quanto o mundo deles está preparado e se prepara para fazer dessa forma e assim se você não se importa vou novamente dizer como acontece. Naturalmente não se sabe como aconteceu até que já tenha começado por um bom tempo a acontecer. Cada período da vida difere de qualquer outro período da vida não em como a vida é mas em como a vida é conduzida e isso falando autenticamente é composição. Depois da vida ter sido conduzida de um certo modo todo mundo sabe mas ninguém sabe, pouco a pouco, ninguém sabe desde que ninguém saiba. Qualquer
um criando a composição nas artes não sabe também, estão conduzindo a vida e isso faz a composição deles o que é, faz a obra deles se compor enquanto se faz. A influência deles e as influências deles são as mesmas assim como as de todos seus contemporâneos só que se deve sempre lembrar que a analogia não é óbvia até que como digo a composição de um tempo se torne tão pronunciada que é passado e sua composição artística é um clássico.

E agora para começar como se começasse. A composição não está lá, estará lá e estamos aqui. Isso é naturalmente algum tempo atrás para nós. Há algo a ser adicionado depois.

O quanto você conhece o meu trabalho eu não sei. Acho que talvez seja bom que eu fale dele todo.

Começando a escrever escrevi um livro chamado Three Lives (Três vidas) esse foi escrito em 1905. Escrevi uma estória de negros chamada Melanctha. Nela havia um recorrer e um começar constante ali havia uma direção marcada na direção de estar no presente embora naturalmente eu tenha sido acostumada ao passado presente e futuro, e por que, porque a composição formando-se à minha volta era um presente prolongado. Uma composição de um presente prolongado é uma composição natural no mundo como tem sido nesses trinta anos era cada vez mais e mais um presente prolongado. Criei então um presente prolongado naturalmente eu não sabia nada de um presente contínuo mas me veio naturalmente criar um, era simples era claro para mim e ninguém sabia por que foi feito assim, nem eu mesma embora naturalmente para mim fosse natural. Depois desse fiz um livro chamado The Making of Americans é um livro longo de umas mil páginas.

Aqui novamente era tudo tão natural para mim e cada vez mais e mais complicadamente um presente contínuo. Um presente contínuo é um presente contínuo. Fiz quase mil páginas de um presente contínuo. O presente contínuo é uma coisa e começar de novo e de novo é outra coisa. Ambas são coisas. E então há o uso de todas as coisas. Isso nos traz de volta à composição isso de usar todas as coisas. O usar todas as coisas nos leva à composição e a essa composição. Um presente contínuo e usar todas as coisas e começar de novo. Nesses dois livros houve elaboração das complexidades de usar todas as coisas e de um presente contínuo e de começar de novo e de novo e de novo.

No primeiro livro havia um tatear por um presente contínuo e por usar todas
as coisas por começar de novo e de novo. Havia um tatear por usar todas as coisas e havia um tatear por um presente contínuo e havia um começo inevitável de começar de novo e de novo e de novo. Tendo feito isso naturalmente eu naturalmente me compliquei um pouco com ele quando li. Eu me tornei como os outros que o leram. É normal, você sabe, exceto que quando eu mesma o reli me perdi nele novamente. Então disse a mim mesma dessa vez vai ser diferente e comecei. Não comecei de novo apenas comecei.

Nesse começo naturalmente assim que comecei de uma vez logo havia páginas e páginas e páginas mais e mais elaboradas criando um presente mais e mais contínuo incluindo mais e mais o usar todas as coisas e continuando mais e mais começos e começos e começos.

Continuei e continuei até mil páginas daquilo.

No meio tempo naturalmente para começar comecei fazendo retratos de qualquer um e qualquer coisa. Fazendo esses retratos eu naturalmente fiz um presente contínuo um incluir todas as coisas e um começar de novo e de novo dentro de uma coisa bem pequena. Isso me fez começar a compor qualquer coisa em uma coisa só. Então naturalmente era natural que uma coisa uma coisa enormemente longa não era todas as coisas e uma coisa enormemente pequena também não era todas as coisas e nem era tudo nele uma coisa presente contínuo nem estava
sempre e sempre começando de novo. Naturalmente eu então começaria de novo. Começaria de novo e começaria naturalmente. Eu comecei naturalmente. Isso me traz a uma boa parte do que havia sido começado.

E depois disso o que muda o que muda depois disso, depois disso o que muda e o que muda depois disso e depois disso e o que muda e depois disso e o que muda depois disso.

O problema desse momento em diante se tornou mais definido. Era tudo tão parecido demais isso tinha que ser diferente e é diferente, é natural que se todas as coisas são usadas e há um presente contínuo e um começar de novo e de novo se é tudo tão parecido deve ser simplesmente diferente e todas as coisas simplesmente diferentes era então o modo natural de criar isso. Neste modo natural de criar isso então que era simplesmente diferente todas as coisas sendo parecidas era simplesmente diferente, isso acaba levando a pessoa para listas. Listas naturalmente por um tempo e com listas quero dizer uma série. Mais e mais voltando naquilo que estava feito até esse tempo descobri que naturalmente mantive o simplesmente diferente como uma intenção. Se havia ou se não havia um presente contínuo não mais me complicava se havia ou não havia, e usar todas as coisas não mais me complicava se todas as coisas são parecidas usar todas
as coisas não poderia mais me complicar e começar de novo e de novo não poderia mais me complicar porque se listas eram inevitáveis se séries eram inevitáveis e aquilo tudo era inevitável começar de novo e de novo não poderia mais me complicar e então com nada para me complicar eu completamente comecei naturalmente uma vez que todas as coisas são parecidas fazendo isso de modo simplesmente diferente naturalmente tão simplesmente diferente quanto possível.

Comecei a fazer fenômenos naturais o que eu chamo fenômenos naturais e fenômenos naturais
naturalmente todas as coisas sendo parecidas fenômenos naturais estão fazendo as coisas naturalmente serem simplesmente diferentes. Isso mais tarde encontrou o seu ápice, no começo começou em um centro confuso com listas com séries com geografia com retratos recorrentes e com particularmente frequentes quatro e três e frequentemente com cinco ou quatro. É fácil ver que no começo tal concepção de todas as coisas serem naturalmente diferentes seria muito inarticulada e muito lenta ela começou a emergir e tomar forma de alguma coisa, e então naturalmente se alguma coisa que é simplesmente diferente é simplesmente diferente o que se
segue se seguirá.

Até então o progresso das minhas concepções era o progresso natural inteiramente de acordo com minha época e estou certa que é muito facilmente perceptível se você pensar na cena que estava diante de nós todos de um ano para o outro. Como eu disse no começo, há uma longa história de como todos em algum momento agiram ou sentiram e que nada dentro neles em todos eles o faz coerentemente diferente. Com isso quero dizer tudo isso. A única coisa que é diferente de uma vez para outra é o que é visto e o que é visto depende de como todo mundo está fazendo todas as coisas.

Se entende agora que todas as coisas são o mesmo exceto composição e tempo, composição e o tempo da composição e o tempo na composição. Todas as coisas são o mesmo exceto composição e como a composição é diferente e sempre será diferente todas as coisas não são o mesmo. Então quando eu sendo contemporânea a criar a composição no começo estava tateando na direção de um presente contínuo, um usar todas as coisas um começo de novo e de novo e então todas as coisas sendo parecidas então todas as coisas muito simplesmente todas as coisas eram naturalmente simplesmente diferentes e então eu sendo contemporânea estava criando todas as coisas sendo parecidas estava criando todas as coisas naturalmente sendo naturalmente simplesmente diferente, todas as coisas sendo parecidas. Esse então foi o período que me traz ao período do começo de 1914. Todas as coisas sendo parecidas todas as coisas naturalmente seriam simplesmente diferentes e veio a guerra e todas as coisas sendo parecidas e todas as coisas sendo simplesmente diferentes traz todas as coisas sendo simplesmente diferentes
as traz ao romantismo. Romantismo é assim quando todas as coisas sendo parecidas todas as coisas naturalmente são simplesmente diferentes, e romantismo.

Então por quatro anos isso era mais e mais diferente ainda que isso fosse, fossem todas as coisas parecidas. Todas as coisas parecidas naturalmente todas as coisas eram simplesmente diferentes e isso é e era romantismo e isso é e era guerra. Todas as coisas sendo parecidas todas as coisas naturalmente todas as coisas são diferentes simplesmente diferentes naturalmente simplesmente diferentes. E então havia o fenômeno natural que era a guerra, que havia estado, antes da guerra chegar, em atraso por muitas gerações na composição contemporânea, porque veio a guerra e tão completamente se precisava ser contemporâneo tornar-se completamente contemporâneo e então gerou o reconhecimento completo da composição contemporânea. Todo mundo menos um pode dizer que todo mundo se tornou conscientemente se tornou desperto para a existência da autenticidade da composição moderna. Isso então o reconhecimento contemporâneo, porque a coisa acadêmica conhecida como guerra a havia forçado a se tornar contemporânea fez todo mundo não apenas contemporâneo na ação não apenas contemporâneo no pensamento mas contemporâneo na auto-consciência fez todo mundo contemporâneo com a composição moderna. E então a criação artística da composição
contemporânea que teria normalmente sido fora-da-lei normalmente fora-da-lei por muitas gerações mais para trás ainda do que a guerra, a guerra tendo vindo digamos que atualizou a arte digamos que permitiu não completamente ser atual, mas quase atual, em outras palavras nós que criamos a expressão da composição moderna seríamos reconhecidos antes de morrer alguns de nós muito tempo antes de morrer. E então pode-se dizer que a guerra avançou um reconhecimento geral da expressão da composição contemporânea em quase trinta anos. E agora depois daquilo não há mais nada daquilo em outras palavras temos paz e algo vem então e segue vindo então.

E então agora pode se achar a si próprio se interessando em um equilíbrio, que é claro significa palavras tanto quanto coisas e distribuição tanto quanto entre elas mesmas e entre as palavras e entre elas e as coisas e elas mesmas, a distribuição como distribuição. Isso faz do que se segue o que se segue e agora existem todas as razões por que se deve fazer um arranjo. Distribuição é interessante e equilíbrio é interessante quando um presente contínuo e um começo de novo e de novo e usar todas as coisas e todas as coisas parecidas e todas as coisas naturalmente simples-
mente diferentes foi feito.

Depois disso tudo, há aquilo, houve aquilo que há uma composição e que nada muda exceto composição a composição e o tempo da e o tempo na composição. O tempo da composição é uma coisa natural e o tempo na composição é uma coisa natural é uma coisa natural e é uma coisa contemporânea. O tempo da composição é o tempo da composição. Foi às vezes uma coisa presente foi às vezes uma coisa passada foi às vezes uma coisa futura foi às vezes um esforço de partes de todas essas coisas. No meu começo era um presente contínuo um começar de novo e de novo e de novo e de novo, era uma série e era uma lista e era uma similaridade e todas as coisas diferentes era uma distribuição e um equilíbrio. Este era todo o tempo e parte do tempo da composição.

Agora há ainda algo além do sentido temporal na composição. Isso é o que é sempre um medo uma dúvida e um julgamento e uma convicção. A qualidade na criação da expressão a qualidade na composição que a faz morrer logo após ter sido feita é muito complicada.

O tempo na composição é uma coisa que é muito complicada. Se o tempo na composição é muito complicado é porque deve mesmo que não haja tempo algum na composição deve haver tempo na composição que está na sua qualidade de distribuição e equilíbrio. No começo havia o tempo na composição que naturalmente estava na composição mas o tempo na composição vem agora e isso é o que agora está perturbando todo mundo o tempo na composição é agora uma parte da distribuição e do equilíbrio. No começo havia confusão havia um presente contínuo e mais tarde havia o romantismo que não era uma confusão mas um desembaraço e agora há ou sucesso ou falha deve haver distribuição e equilíbrio deve haver tempo que é distribuído e equilibrado. Isso é a coisa no presente momento mais complicada se há o tempo que está no presente o mais complicado o sentido temporal que está no presente o mais complicado é a coisa que faz o presente o mais complicado. Há no presente há distribuição, com isso quero dizer expressão e tempo, e dessa forma na presente composição é tempo que é a razão de que no presente o sentido temporal é complicado que é a razão por que no presente o sentido temporal na
composição é a composição que está fazendo o que está na composição.

E depois.

Agora isso é tudo.


(tradução de Andrea Mateus)


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Domingo, 8 de Maio de 2011

Marcus Fabiano Gonçalves




Marcus Fabiano Gonçalves nasceu em Santana do Livramento, na fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, em 1973. Cedo transferiu-se para Porto Alegre e é formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestre e Doutor em Teoria e Filosofia do Direito, prepara doutoramento em antropologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Morou também em Florianópolis e Natal. Radicado na cidade do Rio de Janeiro, é atualmente professor da Universidade Federal Fluminense. Estreou em livro com O Resmundo das Calavras (2005), e sua segunda coletânea, intitulada Arame Falado, será lançada este ano.

O trabalho de Marcus Fabiano Gonçalves já havia aparecido neste espaço, mencionado com seu poema "Oração do favelado" no artigo "Das fatrasies medievais a DADA, do Sapateiro ao Rilke shake", que discute as possibilidades da poesia satírica e alguns exemplos deste trabalho em certos contemporâneos, ligando-os à tradição da poesia medieval que vai mais tarde desaguar na poesia do nonsense britânica e na dadaísta germânica, por exemplo. Poética que tem no Brasil dois excelentes representantes em Gregório de Matos e Sapateiro Silva.

Apresentamos abaixo quatro poemas inéditos de Marcus Fabiano, extraídos de seu Arame Falado, a sair ainda este semestre. A postagem se completa com dois textos extraídos do livro de estreia do gaúcho.


--- Ricardo Domeneck



§



POEMAS INÉDITOS DE MARCUS FABIANO


Agulha e palheiro


quem ao palheiro se desse
munido apenas de um ímã
e dali tirasse a tal agulha
que ninguém garimpa

afeito ao tato da cegueira
quem nem a detectasse
por essa magnética patrulha
da improvável coisa miúda

mas sim a resgatasse cravada
feito uma seringa na nádega
como quem podendo a luz do mercúrio
garimpasse afinal sua pepita no escuro

e assim descobrisse pela agulha
o sentido de uma outra procura:
achar no ordinário do palheiro
a dádiva da palha, o aconchego.


§


Diário de bordo


um tanto de arroz
acautela a avareza da miséria:
uma cara mansa e rubicunda
de olhos trêfegos
mergulhados na tigela

o sorriso cínico ainda mercadeja
a dúvida dos céticos no bosque dos afetos
e um aleijão mendiga a piedade da repulsa
ostentando o seu falso caroço de corcunda

contudo, recorda-te:
anos 1800 – Gibraltar represa o Mediterrâneo
e a China dorme o ópio dos britânicos

anos 1900 – Celan pula da ponte da vida
sem perguntar ao carpina
o quanto verga sem quebrar
a severina compleição judia

anos 2000 – a árvore da vida desfolha
e em seu diário de bordo Noé anota:
afogado noutro dilúvio compulsório
ainda exerço os ofícios da memória.


§


Shukran


a Mahmoud Darwish


no armazém das migalhas
ser o chefe dos almoxarifes:
mesmo nos grandes negócios
jamais pechinchar seu bakshish
só pelo prazer de dizer shukran
aos deuses que falam ídiche.


§


A máquina do fundo


a pesca escassa, o rio poluído, a cotação do dracma
um heraclítico engenho rege o mundo das máquinas

na margem, a draga do imponderável rio sem fundo
sem opor o puro ao sujo, aceitando o fluxo de tudo

a lama negra das imagens infiltra o oco dos crânios
no entulho da palavra gaga, a jaula do orangotango

reúne uns cacos de naufrágio, enjambra umas tábuas
vê se salva a ave da linguagem nessa arca de sucata

une o conteúdo à sua forma mais perfeita e intransitiva
e embora toda solda, cuida de mantê-la móvel e flexível

coa a lama toda dessa draga e separa bem tua saliva
retém a gota e o grão no sorriso amarelo das espigas

observa o dedo lerdo catando seu milho na datilografia
de grão em grão germina um corvo no ventre da galinha

chocando a ave faz esfinge de quem ignora o enigma
mas na verdade ela bem sabe que no fundo nada finda.



::: poemas inéditos de Marcus Fabiano, incluídos em seu livro Arame Falado (no prelo) :::


§


Oração do favelado


pai nosso
que nos deixa ao léu
santificada seja a nossa fome
venha a nós o vosso treino
e seja feita a vossa vontade
aqui na guerra
como entre os réus

o pão nosso de cada dia
roubai hoje
e perdoai a nossa imprensa
assim como perdoamos
as migalhas que nos têm oferecido,
não nos deixeis cair na transação
mas livrai-nos do sistema penal,
amém.


§


Panifico e construo


sou em regra cortês
mas jamais peço licença sinhô
ou permiso señor

pulo a cerca corto o arame
arrombo a porteira cavo túnel
construo pontes improviso canoas
adivinho o segredo do cofre
salto contorno roubo a chave das algemas
me refugio em incertos algures
apago os rastros do meu paradeiro
disfarço-me em padeiro e pedreiro
panifico e construo
e meus pães eu distribuo
como quem oferece pedras
em uma ceia de banguelas

vim vi e vivi:
não vigiem minha viagem

vim vi e viciei:
não vasculhem minha bagagem

vim vi e vibrei:
não vomitem por minha beberagem




:::: poemas extraídos do livro O Resmundo das Calavras (Porto Alegre: WS Editor, 2005) ::::

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Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Heiner Müller (1929 - 1995)



Heiner Müller nasceu na cidade alemã de Eppendorf, na Saxônia, estado que tem sua capital em Dresden e que, durante a divisão do país, ficaria na Alemanha Oriental, da qual o autor viria a se tornar um dos intelectuais e artistas mais influentes e famosos. Heiner Müller pertence a uma geração de poetas e escritores que, apesar de muito jovem, veria de perto e viveria ainda as experiências horrendas da Segunda Guerra.

No Brasil, da mesma geração (em termos estritamente cronológicos) sairiam os poetas que formaram os grupos experimentais do pós-guerra, como Haroldo de Campos, Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Décio Pignatari, Mário Chamie e Affonso Ávila, entre outros. Dentro da poesia germânica, Heiner Müller foi também contemporâneo de vários poetas experimentais que retomaram as estratégias das vanguardas, como os poetas que formaram o Grupo de Viena (H.C. Artmann, Gerhard Rühm, Konrad Bayer, Oswald Wiener ou Friedrich Achleitner), o suíço Eugen Gomringer, ou o seu conterrâneo Helmut Heissenbüttel. A formação de Müller, no entanto, como dramaturgo e tradutor/renovador das tragédias gregas, parece ligá-lo a uma tradição clássica que remontaria pelo menos até poetas helênicos como Calímaco (310 a.C. e 240 a.C.).

Em 1955, Heiner Müller se casou com a escritora Ingeborg Schwenkner, que passaria a assinar e ficaria conhecida como Inge Müller. Com ela, escreveu algumas de suas primeiras peças a quatro mãos. A relação dos dois foi tumultuosa e eles se separaram na década de 60. Inge Müller viria a cometer suicídio em junho de 1966. Uma ótima poeta lírica, de textos delicadíssimos, apenas nos últimos anos sua escrita tem encontrado a acolhida que merece e saído da sombra da obra de Heiner Müller, especialmente após a publicação do volume Inge Müller: Gesammelte Texte (Inge Müller: Textos Reunidos), em 2002.

Na década de 60 Heiner Müller começaria a ter seus primeiros problemas com as autoridades comunistas da Alemanha Oriental. Em 1961, sua peça Die Umsiedlerin oder Das Leben auf dem Lande é proibida após sua estreia. Seus textos, críticos não apenas contra o Regime de Hitler mas também contra a sua sociedade contemporânea, começam a ser encenados no Oeste, o que torna ainda mais abrasiva sua relação com o governo da Alemanha Oriental. Seus trabalhos mais importantes incluem Mauser (1970), Germania Tod in Berlin (1971), Die Hamletmaschine (1977) e as maravilhosas Der Auftrag (A Missão), de 1979, e Medeamaterial (1982).


Muito mais conhecido como dramaturgo, com publicações apenas esparsas de poemas, o Heiner Müller poeta teria este lado de sua produção textual divulgado apenas com a publicação póstuma de suas Obras Completas em 1998, das quais o primeiro volume contém seus poemas. Em alguns textos não há, porém, grande quebra estilística ou distinções textuais entre os "poemas", como o longo "Ajax zum Beispiel" (Ajax por exemplo), e certas "peças" como Die Hamletmaschine (1977) ou Medeamaterial (1982). É que Heiner Müller era um mestre do monólogo dramático em verso, tradição que ainda une poesia e teatro, mesmo nos dias de hoje.

No entanto, na maior parte dos casos, pode-se dizer que Heiner Müller integra com seus poemas a tradição lírica alemã, mas aquela que encontramos nas Lieder (canções) de Heinrich Heine, de certa forma talvez também a de Christian Morgenstern (1871 – 1914), tradição que teria em Bertolt Brecht (1898 - 1956) um continuador e mestre, e, por exemplo, em um poeta mais jovem como Thomas Brasch (1945 - 2000), sobre o qual já escrevi aqui, um renovador. Trata-se de uma parte da tradição poética germânica, incrivelmente telúrica, sempre muito pouco divulgada no Brasil, onde se traduz com mais frequência a ala órfica desta poesia, a de Novalis, Hölderlin, Rilke e Trakl, até chegar, no pós-guerra, a poetas como Paul Celan e Ingeborg Bachmann.

O trabalho textual de Heiner Müller, tanto aquele destinado ao palco como os seus poemas, poderia ter uma acolhida interessante no debate poético contemporâneo brasileiro, especialmente com o que me parece ser uma insistência quase intransigente sua em ver o escritor, seja ele poeta ou dramaturgo, como um artesão interventor, intelectual presente nos debates de sua República. Ele está certamente fincado na tradição clássica, mesmo nestes aspectos. Sua erudição jamais é postiça - é usada de forma pontual, criando analogias com o seu próprio tempo, sempre para intervir em seus debates. É o uso que fizeram de sua erudição clássica outros grandes poetas, como o polonês Zbigniew Herbert (1924 - 1998), contemporâneo praticamente exato de Heiner Müller, ou o russo mais jovem Joseph Brodsky (1940 - 1996). Imagino o que Müller pensaria das veleidades "trans-históricas" de certos poetas contemporâneos no Brasil.

Eu traduzi o poema "Klage des Geschichtsschreibers" (Lamento do historiador) há dois anos, e a tradução foi publicada no segundo número impresso da Modo de Usar & Co. (Rio de Janeiro: Berinjela, 2009). Nestes últimos dias, com todos os acontecimentos que parecem encavalar-se em nossa visão e audição, revoluções, maremotos e assassinatos políticos, vi-me pensando neste texto de Heiner Müller.


Lamento do historiador

No quarto livro dos ANNALES Tácito queixa-se
Pela duração do tempo de paz, mal interrompido
Por disputas fronteiriças pueris, com a descrição
Das quais precisa contentar-se, cheio
De inveja de seus predecessores
Que tiveram à disposição guerras mamute
Com imperadores à frente, exigindo uma Roma
Sempre maior, povos subjugados, reis cativos
Revoltas e crises de estado: material dos bons.
E Tácito desculpa-se junto a seus leitores.
Eu, por minha vez, dois mil anos depois dele,
Não preciso desculpar-me e não posso
Queixar-me da falta de bom material.

(tradução de Ricardo Domeneck)


Klage des Geschichtsschreibers: Im vierten Buch der ANNALEN beklagt sich Tacitus / Über die Dauer der Friedenszeit, kaum unterbrochen / Von läppischen Grenzkriegen, mit deren Beschreibung er / Auskommen muss, voll Neid / Auf die Geschichtsschreiber vor ihm / Denen Mammutkriege zur Verfügung standen / Geführt von Kaisern, denen Rom nicht gross genug war / Unterworfene Völker, gefangene Könige / Aufstände und Staatskrisen: guter Stoff. / Und Tacitus entschuldigt sich bei seinen Lesern. / Ich meinerseits, zweitausend Jahre nach ihm / Brauche mich nicht zu entschuldigen und kann mich / Nicht beklagen über Mangel an gutem Stoff.


O texto, escrito em agosto de 1992, é de uma ironia mordaz e dolorida, como em tantos de Heiner Müller. O poeta morreu em 1995. Nós estamos (ao que parece) vivos, também cheios de material, do qual não sabemos, no entanto, se Tácito reclamaria.

Seguem abaixo algumas traduções recentes e inéditas de poemas do alemão.


--- Ricardo Domeneck

§



(Excerto do filme I was Hamlet, de Dominik Barbier. Filmado no Cemitério Judaico de Weissensee, arredores de Berlim.)

§


POEMAS DE HEINER MÜLLER
Traduções de Ricardo Domeneck


Tristão 1993

Ontem vi em meu filho um olhar estranho
Que durou uma notícia trágica um comercial
Eu li nos olhos do meu filho
Que já viram coisas demais a pergunta
Se o mundo ainda vale o esforço que é a vida
Pelo instante que durou uma notícia trágica
Um comercial eu fiquei em dúvida
Se desejava a ele uma vida longa
Ou por amor uma morte prematura.


:

Tristan 1993

Gestern hatte mein Kind einen fremden Blick
Eine Schreckensnachricht einen Werbespot lang
In den Augen meines Kindes las ich
Der zu viel gesehen hat die Frage
Ob die Welt die Mühe des Lebens noch aufwiegt
Einen Augenblick eine Schreckensnachricht
Einen Werbespot lang war ich im Zweifel
Soll ich ihm ein langes Leben wünschen
Oder aus Liebe einen frühen Tod



§


O pai

I.

Um pai morto teria sido talvez
Melhor pai. Ainda melhor
é um pai nado-morto.
Sempre nova cresce a grama sobre a fronteira.
A grama tem que ser arrancada
De novo e de novo que sobre a fronteira cresce.


II.

Eu queria que meu pai tivesse sido um tubarão
Que estraçalhara quarenta baleeiros
(E eu aprendido a nadar neste sangue)
Minha mãe uma baleia-azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
Em 1871 desconhecido


:


Der Vater

I.

Ein toter Vater wäre vielleicht
Ein besserer Vater gewesen. Am besten
Ist ein totgeborener Vater.
Immer neu wächst Gras über die Grenze.
Das Gras muß ausgerissen werden
Wieder und wieder das über die Grenze wächst.


II.

Ich wünschte mein Vater wäre ein Hai gewesen
Der vierzig Walfänger zerrissen hätte
(Und ich hätte schwimmen gelernt in ihrem Blut)
Meine Mutter ein Blauwal mein Name Lautréamont
Gestorben in Paris
1871 unbekannt




§



A SÓS COM ESTES CORPOS
Governos utopias
Cresce a grama
Entre os trilhos
As palavras apodrecem
No papel
Os olhos das mulheres
Ficam frios
Adeus amanhã
STATUS QUO


:


ALLEIN MIT DIESEN LEIBERN
Staaten Utopien
Gras wächst
Auf den Gleisen
Die Wörter verfaulen
Auf den Papier
Die Augen der Frauen
Werden kälter
Abschied von morgen
STATUS QUO



§


Olhar estranho: despedida de Berlim

De minha cela perante a folha em branco
Na cabeça um drama para plateia nenhuma
Surdos os vencedores os vencidos mudos
Sobre a cidade estranha um olhar estranho
Cinza-amarelas passam as nuvens sobre mim
Branco-cinza cagam as pombas sobre Berlim


:

Fremder Blick: Abschied von Berlin


Aus meiner Zelle vor dem leeren Blatt
Im Kopf ein Drama für kein Publikum
Taub sind die Sieger die Besiegten stumm
Ein fremder Blick auf eine fremde Stadt
Graugelb die Wolken ziehn am Fenster hin
Weißgrau die Tauben scheißen auf Berlin



§


Fim dos manuscritos

Ultimamente quando quero escrever algo
Uma frase um poema um ditado
Minha mão rebela-se contra a vontade de escrever
Que minha cabeça tenta forçar sobre ela
A letra torna-se ilegível Só a máquina de escrever
Mantém-me pairando sobre o abismo do silêncio
Que é o protagonista do meu futuro


:


Ende der Handschrift

Neuerdings wenn ich etwas aufschreiben will
Einen Satz ein Gedicht eine Weisheit
Sträubt meine Hand sich gegen den Schreibzwang
Dem mein Kopf sie unterwerfen will
Die Schrift wird unlesbar Nur die Schreibmaschine
Hält mich noch aus dem Abgrund dem Schweigen
Das der Protagonist meiner Zukunft ist



§


NOTA DO TRADUTOR: Todos os poemas foram extraídos do volume Ende der Handschrift (Frankfurt: Suhrkamp, 2000)


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