Seguimos esta semana com o ciclo crítico sobre o poeta florentino Guido Cavalcanti (1250 - 1300), apresentando um texto do poeta Érico Nogueira (Bragança Paulista, 1979) sobre a recepção de Cavalcanti na poesia brasileira, através das traduções de Mario Faustino, Haroldo de Campos e Bruno Tolentino, e, ao final, sua própria tradução ou, como ele preferiria, sua emulação da "Balatteta" de Cavalcanti.
A ballatetta de Guido Cavalcanti por Érico Nogueira
Notável a fortuna da ballatetta de Guido Cavalcanti entre alguns dos maiores poetas brasileiros das últimas décadas: ora, desde que Pound a traduziu em The sonnets and ballate of Guido Cavalcanti (1912) e Eliot a transformou em Leitmotiv do sublime "Ash Wednesday" (1930), ela foi emulada e traduzida por Mário Faustino, emulada por Haroldo de Campos e traduzida, enfim, por Bruno Tolentino – para citar apenas os mais famosos.
A tradução de Faustino é, numa palavra, infeliz. Provavelmente a sua intenção fosse traduzir a tradução de Pound – sem, contudo, ter a técnica de Pound. De um trecho como este
“Bem sabes, Ballatetta, como a morte Já me constrange enquanto vai-se a vida. Bem sabes que meu peito bate forte Por aquilo em que pensa todo espírito. Meu ser de tal maneira é destruído Que nem resistir posso: Se me fazes favor leva contigo Minh’alma – isso te imploro – Quando ela abandonar meu coração.”
se conclui, porém, comparando-o com o original italiano, que é apenas grosseiramente literal, sem respeito ao número de versos ou ao esquema de rimas, e, pois, conseqüentemente, nada menos que infantil: há casos em que rimar ‘posso’ com ‘imploro’ é inovação; aqui, porém, dada a literalidade do resultado, inovação não é: é imperícia mesmo.
A tradução de Tolentino, por sua vez, se demonstra um domínio da língua de saída – e também da de chegada – evidentemente superior à de Faustino, não vai além de um exercício escolar, em conformidade inevitável com os então dezenove anos do poeta que a compôs. Eis como verte o mesmo trecho que acabamos de ler:
“Tu bem sabes, Balada, o quanto a morte me abraça enquanto a vida desfalece, ouves meu coração bater tão forte à idéia que nenhum mortal esquece. Tanto se acaba já tudo o que eu era que mal logro sofrer, mas se tu me quiseres socorrer, no instante em que parar meu coração faze o que eu mais quisera: vai e leva minh’alma pela mão.”
A seriedade com que ambos dizem ‘minh’alma’ incomoda um pouco – e me lembra um curioso poemeto de Márcio José Silveira Lima, hoje professor de filosofia da UFBA: “Descobri que minh’alma/ é um metaplasmo de subtração/ do tipo apócope sinalefítica”... Como quer que seja, o fato é que a tradução de Bruno é mais redonda que a de Mário, além de ser ao mesmo tempo mais fiel ao original e mais independente dele – como toda tradução digna do nome, aliás.
Já a “Baladeta à moda Toscana”, de Haroldo de Campos, não tradução propriamente, mas emulação da de Guido, é um ótimo poema, sem dúvida, – a despeito do igualmente indubitável deslize “Vai canção, vai com gana/ à Diana cigana” (ai!) na penúltima estrofe, mais próximo do nosso Wando que do alheio Cavalcanti.
Finalmente, um poema irreprimível: “Ballatetta”, de Faustino de novo, emulação (há que diga – argh! – ‘releitura’) da de Cavalcanti. Já a primeira estrofe é como um soco no estômago:
“Por não ter esperança de beijá-lo Eu mesmo, ou de abraçá-lo, Ou contar-lhe do amor que me corrói O coração vassalo, Vai tu, poema, ao meu Amado, vai ao seu Quarto dizer-lhe quanto, quanto dói Amar sem ser amado, Amar calado.”
Trata-se aqui, dir-se-ia, de um impossível Catulo refazendo Guido. O poema, como diria o nosso Ricardo, é realmente teso: já nosso Dirceu diria ser muito ágil (eu diria agílimo) ao tornar lingüisticamente palpável o que é perceptualmente sutil, e por aí vai. O importante, porém, é isto: ao optar pela emulação, livre das rédeas da tradução propriamente dita, Faustino chegou a produzir uma obra digna do modelo.
É precisamente o caminho do último Faustino, pois, que o poema abaixo segue ou procura seguir. Espero não ter feito muito feio: sabendo, porém, que a emulação, mesmo genial, talvez não seja mais que a tradução dos preguiçosos.
ARRIVEDERCI
Porque não espero retornar jamais, musiqueta, à Toscana, vai tu, leve, leviana, direto à amada minha que, bela, mas burrinha, vai dar-te alto valor.
Tu levarás fantasmas de suspiros, falsos de dor, sinceros de incerteza; e a todo o custo foge aos inimigos da, embora pouca, mas, enfim, “beleza”: que, por causa da minha natureza, eles te caçariam e te estrangulariam por que eu ficasse triste; agora, porque fugiste, é rir do seu rancor.
Tu sentes, musiqueta, a feia morte espremer-me esta vida como um pomo; o coração me sentes tão, tão forte que não entendo mais por que nem como; ando acabado, musiqueta, insano, não agüento mais sofrer: vai, cumpre o teu mister, leva-me a alma contigo – é só, é só o que digo – quando de mim se for.
Por consideração, vai, leva sim esta alma que a visão do inferno mata; em testamento lego-te um rubim e “as penas com que amor tão mal me trata”; Por dó que seja, à supramencionada forja, força um rompante e “je suis votre servante” ou outra frase de efeito diz-lhe com a mão no peito; pirita? – é por amor.
Tu, voz espaventada, de pateta, que vais saindo assim feito demente, conversa com a alma e com esta musiqueta sobre o encontrão – ai, ai – de corpo e mente; lá tereis uma orelha conveniente, um espírito vivaz, e em menos de um zás-trás já tudo estará dito; é gasto, mas insisto: “o poeta é um fingidor”.
§ § §
Érico Nogueira nasceu em Bragança Paulista, em 1979. Doutor em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo, é autor da coletânea de poemas O Livro de Scardanelli (2008). O poeta vive e trabalha atualmente em Roma, na Itália. Escrevendo semanalmente noArs Poetica.
Iniciamos aqui o ciclo crítico sobre a poeta norte-americana Gertrude Stein (1874 - 1946), abrindo-o com as traduções de Augusto de Campos (São Paulo, 1931) do famoso retrato de Stein para Picasso, intitulado "If I told him: a completed portrait of Picasso", além de dois textos do volume Tender Buttons (1914), um dos trabalhos mais importantes da vanguarda internacional produzidos antes do cataclismo da Primeira Grande Guerra. Reproduzimos também um longo excerto do texto crítico "Gertrude é uma Gertrude", publicado no volume O Anticrítico (São Paulo: Companhia das Letras, 1986), com a gentil permissão do poeta paulistano.
GERTRUDE STEIN: Ciclo crítico: Primeira postagem, por AUGUSTO DE CAMPOS
Se eu lhe contasse: um retrato acabado de Picasso tradução de Augusto de Campos
Se eu lhe contasse ele gostaria. Ele gostaria se eu lhe contasse. Ele gostaria se Napoleão se Napoleão gostasse gostaria ele gostaria. Se Napoleão se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se eu lhe contasse se eu lhe contasse se Napoleão. Gostaria se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse se Napoleão se Napoleão se eu lhe contasse. Se eu lhe contasse ele gostaria ele gostaria se eu lhe contasse. Já. Não já. E já. Já. Exatamente como como reis. Tão totalmente tanto. Exatidão como reis. Para te suplicar tanto quanto. Exatamente ou como reis. Fechaduras fecham e abrem e assim rainhas. Fechaduras fecham e fechaduras e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim e assim fechaduras e assim fechaduras fecham e assim fechaduras fecham e fechaduras e assim. E assim fechaduras fecham e assim e assado. Exata semelhança e exata semelhança e exata semelhança como exata como uma semelhança, exatamente como assemelhar-se, exatamente assemelhar-se, exatamente em semelhança exatamente uma semelhança, exatamente a semelhança. Pois é assim a ação. Porque. Repita prontamente afinal, repita prontamente afinal, repita prontamente afinal. Pulse forte e ouça, repita prontamente afinal. Juízo o juiz. Como uma semelhança a ele. Quem vem primeiro. Napoleão primeiro. Quem vem também vindo vindo também, quem vem lá, quem vier virá, quem toma lá dá cá, cá e como lá tal qual tal ou tal qual. Agora para dar data para dar data. Agora e agora e data e a data. Quem veio primeiro Napoleão de primeiro. Quem veio primeiro. Napoleão primeiro. Quem veio primeiro, Napoleão primeiro. Presentemente. Exatamente eles vão bem. Primeiro exatamente. Exatamente eles vão bem também. Primeiro exatamente. E primeiro exatamente. Exatamente eles vão bem. E primeiro exatamente e exatamente. E eles vão bem. E primeiro exatamente e primeiro exatamente e eles vão bem. O primeiro exatamente. E eles vão bem. O primeiro exatamente. De primeiro exatamente. Primeiro como exatamente. De primeiro como exatamente. Presentemente. Como presentemente. Como como presentemente. Se se se se e se e se e e se e se e se e e como e como se e como se e se. Se é e como se é, e como se é e se é, se é e como se e se e como se é e se e se e e se e se. Cachos roubam anéis cachos fiam, fiéis. Como presentemente. Como exatidão. Como trens. Tomo trens. Tomo trens. Como trens. Como trens. Presentemente. Proporções. Presentemente. Como proporções como presentemente. Pais e pois. Era rei ou rês. Pois e vez. Uma vez uma vez uma vez era uma vez o que era uma vez uma vez uma vez era uma vez vez uma vez. Vez e em vez. E assim se fez. Um. Eu aterro. Dois. Aterro. Três. A terra. Três. A terra. Três. A terra. Dois. Aterro. Um. Eu aterro. Dois. Eu te erro. Como um tão. Eles não vão. Uma nota. Eles não notam. Uma bota. Eles não anotam. Eles dotam. Eles não dão. Eles como denotam. Milagres dão-se. Dão-se bem. Dão-se muito bem. Um bem. Tão bem. Como ou como presentemente. Vou recitar o que a história ensina. A história ensina.
If I told him: a completed portrait of Picasso: If I told him would he like it. Would he like it if I told him. / Would he like it would Napoleon would Napoleon would would he like it. / If Napoleon if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if I told him if I told him if Napoleon. Would he like it if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him if Napoleon if Napoleon if I told him. If I told him would he like it would he like it if I told him. / Now. / Not now. / And now. / Now. / Exactly as as kings. / Feeling full for it. / Exactitude as kings. / So to beseech you as full as for it. / Exactly or as kings. / Shutters shut and open so do queens. Shutters shut and shutters and so /shutters shut and shutters and so and so shutters and so shutters shut and so shutters shut and shutters and so. And so shutters shut and so and also. And also and so and so and also. / Exact resemblance. To exact resemblance the exact resemblance as exact as a resemblance, exactly as resembling, exactly resembling, exactly in resemblance exactly a resemblance, exactly and resemblance. For this is so. Because. / Now actively repeat at all, now actively repeat at all, now actively repeat at all. / Have hold and hear, actively repeat at all. / I judge judge. / As a resemblance to him. / Who comes first. Napoleon the first. / Who comes too coming coming too, who goes there, as they go they share, who shares all, all is as all as as yet or as yet. / Now to date now to date. Now and now and date and the date. / Who came first. Napoleon at first. Who came first Napoleon the first. Who came first, Napoleon first. / Presently. / Exactly do they do. / First exactly. / Exactly do they do too. / First exactly. / And first exactly. / Exactly do they do. / And first exactly and exactly. / And do they do. / At first exactly and first exactly and do they do. / The first exactly. / And do they do. / The first exactly. / At first exactly. / First as exactly. / As first as exactly. / Presently / As presently. / As as presently. / He he he he and he and he and and he and he and he and and as and as he and as he and he. He is and as he is, and as he is and he is, he is and as he and he and as he is and he and he and and he and he. / Can curls rob can curls quote, quotable. / As presently. / As exactitude. / As trains. / Has trains. / Has trains. / As trains. / As trains. / Presently. / Proportions. / Presently. / As proportions as presently. / Father and farther. / Was the king or room. / Farther and whether. / Was there was there was there what was there was there what was there was there there was there. / Whether and in there. / As even say so. / One. / I land. / Two. / I land. / Three. / The land. / Three. / The land. / Three. / The land. / Two. / I land. / Two. / I land. / One. / I land. / Two. / I land. / As a so. / They cannot. / A note. / They cannot. / A float. / They cannot. / They dote. / They cannot. / They as denote. / Miracles play. / Play fairly. / Play fairly well. / A well. / As well. / As or as presently. / Let me recite what history teaches. History teaches. ::: Gertrude Stein.
§
do volume Tender Buttons (1914)
Um selo vermelho
Se lírios são branco como lírio se eles exaurem barulho e distância e mesmo pó, se eles poentos sujam uma superfície que não tem grande graça, se eles fazem isso não é necessário não é de todo necessário se eles fazem isso precisam de um catálogo.
(Augusto de Campos. poesia da recusa. perspectiva, 2006)
A RED STAMP.
If lilies are lily white if they exhaust noise and distance and even dust, if they dusty will dirt a surface that has no extreme grace, if they do this and it is not necessary it is not at all necessary if they do this they need a catalogue.
§
Uma garrafa, isto é um vidro cego
Uma espécie de vidro e um primo, um espetáculo e nada estranho uma única dor ferida e um arranjo em um sistema para apontar. Tudo isso e não ordinário, não desordenado em não parecer. A diferença está se espalhando.
(Augusto de Campos. poesia da recusa. perspectiva, 2006)
A CARAFE, THAT IS A BLIND GLASS.
A kind in glass and a cousin, a spectacle and nothing strange a single hurt color and an arrangement in a system to pointing. All this and not ordinary, not unordered in not resembling. The difference is spreading.
§
Excertos do texto "Gertrude é uma Gertrude" Augusto de Campos
Gertrude é uma Gertrude
gertrude stein não gostava de pound q não gostava de gertrude mas gostava de joyce mas não gostava do finnegans wake pound ignorou mallarmé (mesmo valéry vacilou ante un coup de dés) mallarmé não entendeu o lance de dados de flaubert q lhe pareceu então “uma aberração estranha”: bouvard et pécuchet em q pound anteviu lucidamente “a inauguração de uma forma nova sem precedentes”
“livre assez bête” segundo valéry q também não percebeu o projeto dessa “enciclopédia crítica em farsa” como a via o próprio flaubert ou dessa “encyclopédie de la bêtise” como a chamou mais cruamente geneviève bollème
bouvard et pécuchet cujo segundo volume inacabado e inacabável – o “álbum” ou “sottisier” (tolicionário) – equivaleria em radicalidade ao projetado “livro” de mallarmé “mas é preciso estar louco e triplamente frenético para empreender um livro como este” (flaubert a mme roger de genettes sobre bouvard et pécuchet, 1872) “você não acha q é um ato de demência?” (mallarmé a valery sobre un coup de dés, 1897)
da impassibilidade à impossibilidade
[...]
mas flaubert foi o pai reconhecido do conflito fraterno desses irmãos antigêmeos joyce e gertie “james joyce et pécuchet” era o titulo do artigo pioneiro de pound sobre ulysses em 1922 e gertrude mais tarde: “tudo o q fiz foi influenciado por flaubert e cézanne”
“tout ce que j’ai de plus poétique à vous dire est de ne rien dire” (flaubert) “there was nothing to say because just then saying anything was nothing” (g. stein) “i am here and i have nothing to say and i am saying it and this is poetry” (john cage)
mas quero falar de gertrude stein porque ela teria feito 100 anos este ano (1974) se pudesse com schoenberg e ives e se me perguntassem por que prefiro falar dos mortos podendo falar dos vivos respondo com fernando pessoa: “com uma tal falta de gente coexistivel como há hoje que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos ou quando menos os seus companheiros de espírito?”
[...]
ela é uma chata genial a única q pegou o outro lado da questão inglês básico mais repetições it is it is it is it is. if it and as if it if it or as if it and it is as if it and as if it. or as if it. repetições q no monstruoso the making of americans ultrapassam o limite da legibilidade
[...]
ela descobriu algo não é dadá não é surrealista é gertrude stein gertrude é uma gertrude é uma gertrude é uma “escutem aqui! eu não sou nenhuma idiota eu sei muito bem q na vida cotidiana ninguém sai por aí dizendo ‘... é uma... é uma... é uma...’ sim eu não sou nenhuma idiota mas eu penso q nessa linha a rosa está vermelha pela primeira vez na poesia inglesa em cem anos
lançadora de manias (“starter of crazes”)? talvez mas suas manias duraram mais do q duram as manias e sua loucura tem uma coerência e uma limpidez q não encontramos nos brilharecos automatistas de tantos surrealistas em termos pignatarianos ela é linguagem enquanto os surrealistas (q marxfreudizaram dadá) são muito mais língua alem de posteriores
[...]
num artigo publicado em 1959 gertrude stein e a melodia de timbres traduzi dois fragmentos de suas peças four saints in threee acts (1927) e listen to me (1938) vale a pena lembrá-los
em four saints in three acts (cinco palavras de uma silaba) “an opera to be sung” o uso dominante de monossílabos cria verdadeiros blocos de moléculas sonoras certos trechos parecem mais a decupagem de uma partitura onde a miúda permutação de palavras-sílabas entre personagens induz a uma melodia de timbres “um santo um verdadeiro santo nunca faz nada um mártir faz alguma coisa mas um santo verdadeiramente bom não faz nada e assim eu queria ter quatro santos q não fizessem nada e eu escrevi os quatro santos em três atos e eles não fizeram nada e isso foi tudo” (autobiografia de todo mundo)
a música de virgil thomson com seus propositados clichês e lugares-comuns de gregoriano a exército da salvação é a de um satie norte-americano q consegue captar com grande eficácia os valores prosódicos do texto a ópera foi apresentada pela primeira vez em 1934 (um ano antes da estreia de porgy and bess) por um elenco de cantores negros q se apaixonaram pelo texto sem entendê-lo e portanto o entenderam
gertrude stein não ouviu le testament de villon a ópera de ezra pound extraordinária proeza musical provençal-futurista em cuja orquestração robert hughes vê uma modalidade de klangfarbenmelodie mas virgil thomson a assistiu em paris (salle pleyel) em 1926 e recordou-a anos mais tarde “não era exatamente a música de um músico mas era talvez a mais bela música de poeta desde thomas campion”
gertie e pound convergem nos textos de john cage as “conferencias” e o longo poema (?) diário: como melhorar o mundo (você só tornará as coisas piores) parcialmente incluído em a year from monday (de segunda a um ano)
os monossílabos voltaram a obcecar gertrude em listen to me “eu pretendia escrever todo um livro sobre palavras de uma sílaba numa peça q acabo de escrever listen to me continuo pensando em palavras de uma sílaba é natural escrever poemas com palavras de uma só sílaba e algumas vivem com palavras de três letras e outras vivem com palavras de quatro letras” e/ou “eu direi em palavras de uma sílaba tudo o q há para dizer não muito bem mas tão bem e assim não houve pano pano é uma palavra de duas sílabas”
elizabeth sprigge conta q as últimas palavras de gertrude foram: “qual é a resposta?” e como ninguém respondesse: “então qual é a pergunta?”
marcel duchamp disse: “não há solução porque não há problema” e flaubert, antes: “a imbecilidade consiste em querer concluir”
(Augusto de Campos. O anticrítico. São Paulo: Companhia das letras, 1986)
§
Augusto de Campos nasceu em São Paulo, em 1931. Publicou o primeiro livro em 1951, chamado O Rei Menos O Reino. No ano seguinte, inicia a pesquisa que levaria à fundação internacional do Movimento da Poesia Concreta, editando com Haroldo de Campos e Décio Pignatari, nos anos seguintes, algumas das revistas mais importantes e influentes do pós-guerra, como Noigandres e Invenção. Em janeiro de 2009, publicamos nesta franquia eletrônica da Modo de Usar & Co. um artigo em que conversamos sobre o trabalho especificamente oral e sonoro da poesia do paulistano.
Desde o início de nossas atividades, no final de 2007, tivemos a oportunidade de apresentar, neste espaço e na revista impressa, o trabalho dos poetas e artistas textuais que têm comandado nossa atenção, iluminado nosso próprio trabalho e fundamentado nossa est-É-tica.
Alguns são nomes recorrentes, na revista impressa (dois números até o momento) e nesta franquia eletrônica, como os poetas ligados ao Cabaret Voltaire e à revista DADA. Praticamente ausentes dos debates críticos modernistas brasileiros, foi um prazer traduzir e discutir poetas tão estimulantes quanto Hugo Ball, Hans Arp, Tristan Tzara, Raoul Hausmann e Kurt Schwitters, centrais para nosso pensamento, enquanto a crítica nacional (e internacional, em grande parte) relegou-os às notas de rodapé, para seu prejuízo pessoal. Em nossa leitura, foram criadores de algumas das obras mais frutíferas do início do século XX, inseminando as neovanguardas do pós-guerra, como os Lettristes de Paris, a Internacional Situacionista, a Escola de Nova Iorque e o Grupo de Viena, além dos grupos ligados aos movimentos do Fluxus, do Punk e do Pop. Seguindo a linhagem desta est-É-tica, em outros momentos discutimos ou apresentamos o trabalho de poetas independentes, ligados, porém, de formas tangenciais a estes grupos, como os franceses Pierre Albert-Birot e Henri Chopin, o catalão Bartomeu Ferrando, o canadense bpNichol, a poeta (ligada ao movimento Beat) Diane di Prima, latino-americanas como Susana Thénon e Blanca Varela, brasileiros como Sebastião Nunes e Zuca Sardan.
Até o momento, iniciamos dois ciclos críticos sobre poetas que gostaríamos de ver no centro dos debates contemporâneos, convidando jovens poetas brasileiros para a discussão do trabalho do poeta latino Caio Valério Catulo (84 a.C. - 54 a.C.), além do ciclo crítico em andamento, sobre o poeta florentino Guido Cavalcanti (1250 - 1300). Colocamos também os trovadores medievais em uma posição central de nosso trabalho, mas a partir de uma leitura completa das formas poéticas, suas funções e seu contexto, interessados na união entre escrita e oralidade, em troubadours como Arnaut Daniel e Raimbaut de Vaqueiras, além da trobairitzBeatriz de Diá, discutindo uma possível renovação do conceito de verbivocovisual, em que o trabalho vocal seja privilegiado, ou esteja realmente presente e não apenas implícito.
Traduzimos e convidamos tradutores, discutimos e convidamos outros companheiros de geração para a discussão. Sem explicitar intenções, temos eleito nossos antepassados, fundado nosso paideuma, honrado nossos mestres. Há ausências de que ainda gostaríamos de tratar, autores centrais e imprescindíveis para nossa est-É-tica, como Murilo Mendes e Clarice Lispector. Muito trabalho pela frente.
Entre essas aparentes ausências, há também uma outra poeta, que é absolutamente central e incontornável em nosso pensamento, autora que não havia, até agora, explicitamente comparecido aqui com a força implícita que tem em nosso trabalho: a norte-americana Gertrude Stein (1874 - 1946). Começamos a cobrir esta lacuna no segundo número impresso da revista, no qual publicamos a tradução de Andréa Mateus para a importante palestra "Composition as explanation", que nos parece, além do mais, muito estimulante para os debates de que temos buscado participar, como sobre a historicidade do fazer poético, além de uma preocupação com a forma, a função e o contexto assumidos por este fazer.
Iniciamos agora, nesta semana, paralelo ao ciclo crítico sobre Guido Cavalcanti, um ciclo crítico sobre Gertrude Stein. Abriremos o ciclo, nos próximos dias, com a reprodução de traduções e um texto-poema crítico de Augusto de Campos sobre a americana, aqui mostrados com a gentil permissão do poeta paulistano.
Nesta apresentação, queremos primeiro invocar o trabalho de Gertrude Stein, pagar-lhe as devidas honras centrais, apresentando alguns vídeos e trabalhos esparsos, como o vídeo abaixo, com uma rara filmagem da americana, ainda que não possamos ouvir sua voz inconfundível;
... um excerto do documentário Paris Was A Woman (2005), de Greta Schiller, em que esta discute algumas das mulheres ativas nas vanguardas parisienses da década de 20, como, entre outras, Djuna Barnes, Sylvia Beach, Berenice Abbott, Gisele Freund, Natalie Barney, além, é claro, de Gertrude Stein e Alice B. Toklas;
... abaixo, duas canções do álbum Tender Buttons (2005), do coletivo britânico Broadcast. A letrista e vocalista Trish Keenan já nomeou Stein como influência. O nome do álbum é a homenagem explícita, trazendo ainda canções com títulos como "Michael A Grammar", referência ao texto "Arthur A Grammar", de Stein.
("America´s boy", do álbum Tender Buttons, de 2005, do coletivo Broadcast, com a poeta vocal Trish Keenan)
("Corporeal", do álbum Tender Buttons, de 2005, do coletivo Broadcast, com a poeta vocal Trish Keenan)
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... abaixo, o poema sonoro "Love poem for Gertrude Stein", do canadense bpNichol.
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A partir desta semana, o ciclo crítico sobre Gertrude Stein, iniciando-o com traduções e texto de Augusto de Campos.
NOTA: Este texto, com sua pequena seleção, não tem a menor ambição de instituir ou influir em cânones. É guiada apenas pelo prazer e por parâmetros pessoais, pensando na influência e importância específica de algumas mulheres para muitos poetas de hoje.
A textualidade em algumas poetas brasileiras
do século XX e início do XXI
por Ricardo Domeneck
Durante seus primeiros séculos de criação, as mulheres estiveram quase completamente ausentes da escrita da poesia e literatura brasileiras oficiais e registradas, com a exceção de uma ou outra moralista árcade. Personagens, manifestações do desejo masculino. De Marília, sabemos o que fluiu pela garganta de Dirceu. Como sabemos que a moça Iracema era muito formosa, com seus lábios de mel ou, de Capitu, o que Bentinho tinha a dizer. Apenas no final do século XIX uma mulher alcançaria certo renome com seu trabalho poético, como foi o caso de Francisca Júlia (1871 - 1920), a partir da publicação de seu Mármores (1895). Dizem que escandalizou a sua época, talvez por sonetos como "Dança das centauras", com versos tais: "Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios, / Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças, / Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças / Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios".
Deste lado de cá do modernismo, colocamos toda a poesia daquela época sob suspeita, distantes do nosso paladar, mas, lendo com olhos livres, não é difícil perceber que Francisca Júlia tem alguns sonetos sofisticados e melhores que os de muitos de seus contemporâneos machos e famosos. Há, em minha opinião e leitura, um coisismo muito mais concreto e objetivo em um soneto como este "Egito", abaixo, que em muito da poesia parnasiana de antologias.
EGITO
Francisca Júlia
No ar pesado, nenhum rumor, o menor grito; Nem no chão calvo e seco o mais pequeno adorno; Um velho ibe somente arranca um raro piorno Que cresce pelos vãos das lájeas de granito.
A aura branda, que vem do deserto infinito, Arrepia, ao de leve, a água do Nilo, em torno. Corre o Nilo, a gemer, sob um calor de forno Que, em ondas, desce do alto e invade todo o Egito.
Destacando na luz, agora o vulto absorto De um adelo que passa, em caminho da feira, Dá mais um tom de mágoa ao vasto quadro morto.
Bate na areia o sol. E, num sonho tranqüilo, Pompeia, ao largo, a alvura uma barca veleira, A tremer, a tremer sobre as águas do Nilo.
de Mármores (1895).
O Grupo de 22 não mudou muito a situação. Mesmo a que talvez seja a figura feminina mais fascinante do primeiro modernismo, Patrícia Galvão, não deixou textos à altura de sua influência prática sobre muitos debates importantes no país entre as duas Guerras Mundiais. Considero-a fascinante e importantíssima, lembro-me de ter lido com muito prazer, há bastante tempo, o trabalho de Augusto de Campos sobre ela, mas é uma daquelas figuras larger than life, com personalidades radiantes, não exatamente como artistas textuais. Dos que nos deixaram obras ainda perturbadoras e importantíssimas, o modernismo contou melhor com o trabalho de mulheres nas artes plásticas, principalmente com Tarsila do Amaral e Maria Martins. No entanto, em alguns poucos textos conhecidos, Pagu demonstra grande talento imagético, com versos que poderiam conectá-la, por veios poéticos subterrâneos, a poetas como Pedro Kilkerry, de "É o silêncio", por exemplo.
Natureza morta *
Patrícia Galvão, publicado com o pseudônimo de Solange Sohl
Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas. Estou dependurada na parede feita um quadro. Ninguém me segurou pelos cabelos. Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova Espetaram, hein? a ave na parede Mas conservaram os meus olhos É verdade que eles estão parados. Como os meus dedos, na mesma frase. Espicharam-se em coágulos azuis. Que monótono o mar! Os meus pés não dão mais um passo. O meu sangue chorando As crianças gritando, Os homens morrendo O tempo andando As luzes fulgindo, As casas subindo, O dinheiro circulando, O dinheiro caindo. Os namorados passando, passeando, O lixo aumentando, Que monótono o mar!
Procurei acender de novo o cigarro. Por que o poeta não morre? Por que o coração engorda? Por que as crianças crescem? Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas? Por que existem telhados e avenidas? Por que se escrevem cartas e existe o jornal? Que monótono o mar! Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo. Si eu ainda tivesse unhas Enterraria os meus dedos nesse espaço branco Vertem os meus olhos uma fumaça salgada Este mar, este mar não escorre por minhas faces. Estou com tanto frio, e não tenho ninguém ... Nem a presença dos corvos.
Não estou me esquecendo de Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa, é que seus trabalhos me parecem pertencer a uma linhagem um tanto distinta do modernismo brasileiro. Na década de 20, Meireles ainda estava envolvida com os intelectuais católicos da revista Festa e o cenáculo cruz-sousista. Gosto do trabalho de Meireles e ela nos deu uma lírica cristalina e simples, muito bonita, que provavelmente será lida ainda por muito tempo. Isso aqui é realmente muito elegante:
Canção
Cecília Meireles
Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre de meus dedos colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito; praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas.
Pessoalmente, prefiro o trabalho de Henriqueta Lisboa (1901 - 1985), especialmente os dos seus livros da década de 60 e 70, como Além da imagem (1963) e O alvo humano (1970) e Reverberações (1976). Além da imagem é um volume ótimo, cristalino, no qual a autora se mostra não mais tão ligada à poética simbolista, mas com uma linguagem mais tesa e consciente de si. Ou, talvez como escreve no poema "Condição", deste volume: "Fecham-se, pois, os reposteiros / do princípio e do fim. / Cessam as vibrações orquestrais / do transcendente, do inefável, / do absoluto."
Frutescência
Henriqueta Lisboa
Em solidão amadurece a fruta arrebatada ao galho antes que o sol amanhecesse. Antes que os ventos a embalassem ao murmurinho do arvoredo. Antes que a lua a visitasse de seus mundos altos e quedos. Antes que as chuvas lhe tocassem a tênue cútis a desejo. Antes que o pássaro libasse do palpitar de sua seiva o sumo, no primeiro enlace. Na solidão se experimenta a fruta de ácido premida. Mas ao longo de sua essência já sem raiz e cerne e caule perdura, por milagre, a senha. Então na sombra ela adivinha o sol que a transfigura em sol a suaves pinceladas lentas. E ouve o segredo desses bosques em que se calaram os ventos. E sonha invisíveis orvalhos junto à epiderme calcinada. E concebe a imagem da lua dentro de sua própria alvura. E aceita o pássaro sem pouso que a ensina, doce, a ser mais doce.
de Além da imagem (1963)
As páginas de poesia na Rede geralmente concentram-se na obra inicial de H. Lisboa, mais mística e abstrata, dos poemas de A face lívida (1945) e Flor da morte (1949), que foram, no entanto, bem recebidos por críticos inteligentes como Sérgio Buarque de Holanda. Mas a obra final de Henriqueta Lisboa nos entregou uma poeta não apenas consciente de sua condição como mulher, como uma escritoa bastante material.
Modelagem / Mulher
Henriqueta Lisboa
Assim foi modelado o objeto: para subserviência. Tem olhos de ver e apenas entrevê. Não vai longe seu pensamento cortado ao meio pela ferrugem das tesouras. É um mito sem asas, condicionado às fainas da lareira Seria uma cântaro de barro afeito a movimentos incipientes sob tutela. Ergue a cabeça por instantes e logo esmorece por força de séculos pendentes. Ao remover entulhos leva espinhos na carne. Será talvez escasso um milênio para que de justiça tenha vida integral. Pois o modelo deve ser indefectível segundo as leis da própria modelagem.
in Pousada do Ser (1982)
Publicado pela Editora Global há alguns anos, o volume Os Melhores Poemas de Henriqueta Lisboa, com organização de Fabio Lucas, traz alguns dos excelentes poemas de Além da imagem e exemplos do que há de melhor em poesia minimalista no Brasil, com textos do volume Reverberações (1976), com o qual muitos de nós hoje poderíamos aprender a escrever poesia realmente concisa, sem ser desarticulada.
Calendário
Henriqueta Lisboa
Calada floração fictícia caindo da árvore dos dias
de Reverberações (1976)
No pós-guerra, a situação se transforma consideravelmente. Clarice Lispector (1925 - 1977) e Hilda Hilst (1930 - 2004) são guias maiores para uma est-É-tica contemporânea, incontornáveis, imprescindíveis. É na década de 50, enquanto estávamos (e seguimos) ocupados com os machos-alfa com pitadas de enfant terrible das neovanguardas, que estas mulheres começam a entregar alguns dos artefatos est-É-ticos mais perturbadores do pós-guerra brasileiro, com trabalhos como A maçã no escuro (1951), A paixão segundo G.H. (1964) e A hora da estrela (1977), de Lispector, e Qadós (1973) e A obscena senhora D (1982), ou poemas tão bonitos como os de Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974) ou Da morte. Odes mínimas (1983), entre os outros volumes maravilhosos de Hilst.
Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Antes, o cotidiano era um pensar alturas Buscando Aquele Outro decantado Surdo à minha humana ladradura. Visgo e suor, pois nunca se faziam. Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo Tomas-me o corpo. E que descanso me dás Depois das lidas. Sonhei penhascos Quando havia o jardim aqui ao lado. Pensei subidas onde não havia rastros. Extasiada, fodo contigo Ao invés de ganir diante do Nada.
Do desejo (1998)
ou
Difícil de explicar, ia dizendo aos borbotões que essas coisas senhora são para fazer uma limpeza na minha alma devo começar por aí não sei se a senhora entende mas o branco é demais importante para começar as orações e acendendo as velas fica visível para a Excelência que sou eu mesmo que me acendo, matéria de amor etc. etc. A maioria revirava os olhos, torcia a boca, umas coçavam os cotovelos, a cintura, diziam: homem, se queres comida eu entendo mas não tenho, o resto é confusão, despacha-te. Às vezes davam-me panos pretos, ou alaranjados ou com listas ou vermelho com florzinhas, nunca o branco, Excelência, e como último recurso para conseguir os círios eu entrava numa loja aos solavancos, o olho girassol e gritava: duas velas por favor, a mãe agoniza, em nome do vosso nosso Deus duas velas para as duas mãos de mamãe. E saía como o raio, como o cão danado, como Tu mesmo que te evolas quando Te procuro, ai Sacrossanto por que me enganaste repetindo: hic est filius meus dilectos, in quo mihi bene complacui? Nudez e pobreza, humildade e mortificação, muito bem, Grande Obscuro, e alegria, é o que dizem os textos, humilde e mortificado tenho sido, mas alegre, mas alegre como posso? Se continuas a dar voltas à minha frente, estou quase chegando e já não estás e de repente Te ouço, bramindo: mata o rei, Qadós, o inteiro de carne e de pergunta, pára de andar atrás de mim como um filho imbecil. Como queres que eu não pergunte se tudo se faz pergunta? Como queres o meu ser humilde e mortificado se antes, muito antes do meu reconhecimento em humildade e mortificação, Tu mesmo e os outros me obrigam a ser humilde e mortificado? Como queres que eu me proponha ser alguma coisa se a Tua voracidade Tua garganta de fogo já engoliu o melhor de mim e cuspiu as escórias, um amontoado de vazios, um nada vidrilhado, um broche de rameira diante de Ti, dentro de mim? E as gentes, Máscara do Nojo, como pensas que é possível viver entre as gentes e Te esquecer? O som sempre rugido da garganta, as mãos sempre fechadas, se pedes com brandura no meio da noite que te indiquem o caminho roubam-te tudo, te assaltam, e se não pedes te perseguem, se ficas parado te empurram mais para frente, pensas que vais a caminho da água, que todos vão, que mais adiante refrescarás pelo menos os pés e ali não há nada, apenas se comprimem um instante, bocejam, grunhem, olham ao redor, depois saem em disparada. Andei no meio desses loucos, fiz um manto dos retalhos que me deram, alguns livros embaixo do braço, e se via alguém mais louco do que os outros, mais aflito, abria um dos livros ao acaso, depois deixava o vento virar as folhas e aguardava. O vento parou, eis o recado para o outro: sê fiel a ti mesmo e um dia serás livre. Prendem-me. Uma série de perguntas: qual é teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós. Qadós de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre fui só Qadós. Profissão. Não tenho não senhor, só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro uma maneira sábia de me pensar. Fora com ele, é louco, não é da nossa alçada, que se afaste da cidade, que não importune os cidadãos. Sou quase sempre esse, matéria de vileza e confusão para os outros, para os Teus olhos um nada que te persegue, um nada que se agarra às tuas babas, e como é difícil te perseguir, nem o rasto, nem a estria brilhante (aquela que os caracóis deixam depois da chuva) eu vejo, pois é pois é, seria fácil para o teu inteiro gosma e fereza, o teu inteiro amoldável, me dar umas pequeninas alegrias e te mostrares um dia Grande Caracol baboso aguado brilhante, te mostrares um dia intimidade, vê Cão de Pedra, agora não sei, fui íntimo para um uma ou dois, nem me lembro, e a princípio como me trataram bem, cuidado na fala, langor no olhar, a minha palavra era véu dourado que pouco a pouco pousava, translúcido, luminosidade delicada, eu Qadós falava e o espaço era pérola, leite fresco, pistilo, um ou três relinchos para aquecer ainda mais tanta mornura, sorriam, lábio frouxo encantado, gula de me possuir inteiro, se era mulher ela me dizia isso mesmo gula de te possuir inteiro, Qadós, se era homem também, aí eu me escondia, dias e dias sobre Plotino, outros dias apenas flutuava sobre o verde dos parques, de longe me seguiam, eu de névoa transfixado, melindre dissolvência, Qadós O Inteiro Desejado.
de Qadós (1973)
§
No entanto, uma das melhores escritoras do pós-guerra, Maria Ângela Alvim (1926 - 1959), acabou, para nossa perda, deixada às margens do cânone, ainda que tenha sido a autora de alguns dos textos mais claramente logopaicos da poesia do pós-guerra, poesia com um veio místico que, no entanto, jamais descamba para o que Wittgenstein chamava de tranzendentales Geschwätz, ou baboseira transcendental.
dos Poemas em Agosto
Moro em mim? No meu destino, largado partido em mil? Moro aqui? Demoraria sempre aqui, sem me saber - fugindo sempre estaria? Eis um lugar. Degredo (de quê?). Dimensão se perseguindo num sonho? - Sim, que me acordo. Tudo existe circunstante e ninguém para me crer. Sou eu o sonho, momento da ausência alheia (que devasso quase fria). Morte, vida recente, subindo em mim a resina, ungüento de noite, amor. As sombras e seus véus, tantos véus - o mais sucinto preso a meu corpo (aparente?) me divide em dois recintos. Um deles sendo equilíbrio noutro posso me conter. Avanço no sono aberto até a altura do dia, fria, fria, mais fria, minha pele filtra a aurora - neste tempo aquela hora, seu pulso de instante e ocaso. Eis que me encontro. Limite de transparência e contato entre a luz e meu retrato, na casta parede - a louca? Marulho d'água, caindo dentro de mim, claridade. Graça de mãos mais presentes, que minhas mãos, já vazias de sua forma, na palma. Que gesto extenso as reteve sempre além, configuradas? E este azul, quase em branco se desfazendo (na carne?). Ah! Três retinas cortadas de um prisma, se amanhecidas nestes vidros, na vigília. Ah! Três retinas pousadas em ver, em ver contemplando (ser, será o esquecimento de quanto somos - pensando?). § Quero crer-me este sentido de longa memória branca. Sobre ele não lembrar, - ficar, ficar, no encontro de tudo em pouco: o tempo se refez no instante deste espaço, superfície, chão que nem me sustenta (dura sou, eu, e dura amargura é a minha). Não, não me lembrarei, seria pensar começos e outros fins - ó lunares lembranças, doridos passos (muitos fui acompanhando de longe e mais me pisaram aqui, ali, onde sei). Estou? Se estou me consentem os gestos e os movimentos? Nenhum ruído se atenta que dentro não fosse ouvido. E tudo em mim se repete enquanto durante e sempre a lembrança vai baixando a seu leito mais dormente. Os pensamentos seriam roteiros menos sofridos? Deixá-los que se solveram nestes noturnos tormentos da mente se procurando, da idéia, refluindo sobre dúvida, distância e certeza, aéreo marco de um repouso em si medido. Deixá-los. Deixar-me enquanto existe um consenso oculto. Pensarei que desvivi num limite-lucidez lá e, no entanto, aqui.
in Maria Ângela Alvim, Poemas (Unicamp, 1993).
Na década de 50 estrearia ainda outra elegante poeta lírica, a capixaba Marly de Oliveira (1935 - 2007), com uma estreia muito bonita em Cerco da primavera (1957) e o também muito bonito A suave pantera (1962). Confesso gostar bastante também de O mar de permeio (1998), costumava ler e reler alguns daqueles poemas em livrarias, em pé, na época em que foi lançado o livro. Quem pensa que um texto como este, abaixo, é fácil de fazer e atingir, está muito enganado. Compreende-se, de certa maneira, como isso pôde passar despercebido em uma década como a de 60, mas é nossa perda pessoal que sigamos ignorando poesia desta qualidade.
A suave pantera
Marly de Oliveira
I
Como qualquer animal, olha as grades flutuantes. Eis que as grades são fixas: Ela, sim, é andante. Sob a pele, contida - em silêncio e lisura - a força do seu mal, e a doçura, a doçura, que escorre pelas pernas e as pernas habitua a esse modo de andar, de ser sua, ser sua, no perfeito equilíbrio de sua vida aberta: una e atenta a si mesma, suavíssima pantera.
II
É suave, suave, a pantera, mas se a quiserem tocar sem a devida cautela, logo a verão transformada na fera que há dentro dela. O dente de mais marfim na negrura toda alerta, e ser do princípio ao fim a pantera sem reservas, o fervor, a força lúdica da unha longa e descoberta, o êxtase da sua fúria sob o melindre que a fera, em repouso, se a não tocam, como que tem na singela forma que não se alvoroça por si só, antes parece, na mansa, mansa e lustrosa pelúcia com que se adorna, uma viva, intensa jóia.
de A suave pantera (1962)
§
Para uma compreensão da textualidade brasileira do pós-guerra, parece-me estimulante pensar nas implicações poéticas do trabalho de Mira Schendel (1919 - 1988), sobre as quais escrevi um artigo para a Modo de Usar & Co., em colaboração com Marília Garcia.
(Mira Schendel, "Bendizei o senhor")
§
Estreando na década de 60, uma das poetas brasileiras que mais me interessam no pós-guerra, como já deixei claro inúmeras vezes, é a paulista Orides Fontela (1940 - 1998), com sua poesia oscilando entre o simbólico e o semiótico ou, como já escrevi em outro momento, como se sua poesia não se decidisse de forma definitiva entre a destruição do mundo por uma força centrípeta ou centrífuga. Seus poemas têm, em minha opinião, apesar da superfície polida de cristal, uma violência sem muitos paralelos na poesia do pós-guerra no Brasil. O mesmo tormento possa talvez ser sentido na prosa e poesia de Hilda Hilst, mas nesta outra mística a solução era o escárnio e a exuberância do dilúvio, enquanto em Orides Fontela o desértico, daquele que jamais possuiu coisa alguma, era preferível. Algo deste fluxo e refluxo, entre o concreto e o abstrato, entre o símbolo e o signo, pode ser sentido em vários poemas. Em "São Sebastião", do livro Helianto (1973), temos a concreção centrípeta do símbolo fazendo-se signo, do verbo fazendo-se carne, do mito ganhando corpo de sangue e osso.
São Sebastião
Orides Fontela
As setas – cruas – no corpo
as setas no fresco sangue
as setas na nudez jovem
as setas – firmes – confirmando a carne.
ou
Clima
Neste lugar marcado: campo onde uma árvore única se alteia
e o alongado gesto absorvendo todo o silêncio - ascende e imobiliza-se
(som antes da voz pré-vivo ou além da voz e vida)
neste lugar marcado: campo imoto segredo cio cisma o ser celebra-se
- mudo eucalipto elástico e elíptico.
Na década de 70 é que ocorre a manifestação clara da importância que algumas mulheres passariam a ter para a poesia brasileira contemporânea. É inevitável aqui falar sobre aquela que já foi de adorada a infame, mas hoje parece estar aos poucos encontrando a apreciação exata de seu incrível talento, em um trabalho realmente interessante e surpreendente, especialmente quando nos lembramos que a autora morreu com apenas 31 anos: Ana Cristina Cesar (1952 - 1983). A própria poeta estaria entre as primeiras a realmente abordar a questão de uma escrita feminina, retornando, por exemplo, a Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa, mas criticando-as, em suas palavras, pela admiração exagerada por homens como Carlos Drummond de Andrade, insinuando certa "dependência" estética em suas predecessoras, um desejo de imitação que denotava subserviência. A própria A.C. Cesar passaria a devorar intertextualmente, mas de forma menos respeitosa, poemas de homens como Drummond e, principalmente, Jorge de Lima. Como em qualquer poeta a morrer tão jovem, deixou-nos alguns poemas que hoje me parecem horrorosos e outros que me parecem primorosos, mas creio que Ana Cristina Cesar seguirá sendo um vulto importante nas décadas por vir.
Flores do mais
Ana Cristina Cesar
devagar escreva uma primeira letra escreva nas imediações construídas pelos furacões; devagar meça a primeira pássara bisonha que riscar o pano de boca aberto sobre os vendavais; devagar imponha o pulso que melhor souber sangrar sobre a faca das marés; devagar imprima o primeiro olhar sobre o galope molhado dos animais; devagar peça mais e mais e mais
ou
Poema
Quando entre nós só havia uma carta certa a correspondência completa o trem os trilhos a janela aberta uma certa paisagem sem pedras ou sobressaltos meu salto alto em equilíbrio o copo d’água a espera do café
§
Apenas o pudor me impediria de falar sobre outra poeta surgida na década de 70, que produziu vários poemas de que confesso gostar bastante: a mineira Adélia Prado (n. 1935), especialmente alguns de Bagagem (1975) e de O pelicano (1987). Adélia Prado também se entregaria à reescritura dos textos de certos homens, localizando-se em algum ponto equidistante entre a admiração das poetas dos anos 30 e a sedução de Ana Cristina Cesar?
Com licença poética
Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos -- dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.
§
Fatal
Os moços tão bonitos me doem, impertinentes como limões novos. Eu pareço uma atriz em decadência, mas, como sei disso, o que sou é uma mulher com um radar poderoso. Por isso, quando eles não me vêem como se dissessem: acomoda-te no teu galho, eu penso: bonitos como potros. Não me servem. Vou esperar que ganhem indecisão. E espero. Quando cuidam que não, estão todos no meu bolso.
Entre as duas famosas poetas da década de 70, as senhoras Cesar e Prado, há outras que aprecio, menos conhecidas mas talvez até melhores em vários aspectos, como a carioca Elisabeth Veiga (n. 1941), que estreou em 1972 com o volume Gosto de fábula, e só vinte anos mais tarde voltaria a publicar, o que talvez explique um pouco sua obscuridade.
Perda
Elisabeth Veiga
Da primeira vez que me quebraram toda dobrei os joelhos, caí sem joelhos, me dobrei toda sobre o vazio dos braços. Os ossos tiritavam, a cabeça estalava um sino: toda um estaleiro sem navios, só pavios de viagem, toda uma estalagem bêbada de sombras e sinas, não sabia mais quantas primaveras fazem um cisne, não sabia beber a não ser com as mãos em cuia, eu era um pires com a cara redonda que os gatos lamberam e fugiram, um piano com febre em desarticulação nervosa, uma pátina derretida, uma patavina atarantada com os caracóis da poeira sumida no horizonte.
ou
Algias
Elegia 1
Já repeti o antigo encantamento e só o cimento respondeu, rastro de cinzas de maçã vencida, desvestígio de gosto, estanque julho que moeu vindimas e deixou no espaço seu vinagre branco. Onde havia um deus os dias emboloram nuvens de estrita agonia antepassada que se olha no espelho antes do adeus. Inexiste, não soa, o que havia fixou-se atrás da mente: fim estalado de fotografia. É agosto seco. É hoje e nunca houve.
Alergia 2
Já repeti o velho encantamento e o antigo deus Xipanto não azarou na minha gleba de piche solferina. Peguei o convescote, as sandálias murchas e mudei de travesseiro lírico, para afinar meu sambão em outros infernos.
§
Também com estreia na década de 70, mas que somente na década de 90 alcançaria maior atenção para seu trabalho, temos a maranhense, vivendo no Rio de Janeiro, Lu Menezes (n. 1948). Gosto especialmente de poemas como estes:
Corpos simultâneos de cisne
Lu Menezes
Branco ideal e branco real o mesmo cisne no espaço de um saco de sal
ocupam mas eis transmigrante
lei que em mantimentos transfez obsoleta ampulheta: um cisne de sal
segue o curso do tempo
e míngua
até ser somente
de plástico transparente
ou
Molduras
Sonhara ter, refletida em explícitos espelhos, vida burguesa de pintura holandesa do século XVII
Tocou-lhe ser simples Sísifa de si, com rotina que ganhou, todavia, algum valor quando perdida em frios dias de terror como o Jóquei perdido de Magritte se achou
Hoje palmeiras não mais a hasteiam Resta o passeio guiado por certo sapato de gáspea longa que cai como meia
Como um matiz de Matisse, manter-se à superfície é dom de jeunesse
- jamais de velhice, turno de Turner, pendor invisibilizador
Não poderia deixar de falar da espetacular prosadora Márcia Denser, antes de deixar a década de 70. Ainda em atividade, Denser tem textos impressionantes e apenas a incompetência crítica no país a mantém na obscuridade. Talvez a descubram quando estiver às vésperas de adentrar o esquife, como fizeram os patifes com Hilda Hilst.
Deitamos ouvindo Roberto Carlos, a voz dos motéis, “por que me arrasto a seus pés?”. Porque sexo é isso mesmo. Essa gana de rastejar com Roberto, no coito dos motéis. Ele diz:esse motel já foi bom, e eu olho o banheiro, caixa amplificadora de fibroplast, as toalhas embaladas em sacos plásticos, os lençóis castanhos com ramagens duvidosas entre encardido e vestígios de cor, os três espelhos redondos, montados em curvim (um em frente ao outro, no meio a cama, o terceiro no teto, sobre a cama), claro que para transformar-nos numa espécie de confuso coquetel de siris assados: pernas, braços, carnes vivas, canteiro de patas, antenas, pêlos moventes, espiando de esguelha uma outra hidra em perspectiva no espelho da frente, de trás, de cima, de baixo, devassados, misturados, confundidos, a 850,00 a diária, porque (e então eu sei porque) todos os motéis é sempre o mesmo motel, o animal mitológico, a quimera que se arrasta interminávelmente na madrugada ao som de Roberto Carlos.
(trecho de "O animal dos motéis", de Márcia Denser)
Na década de 80, talvez a poeta que mais atraia minha atenção seja Lenora de Barros (n. 1953), com um trabalho que transita entre a escrita e a visualidade, manifestando-se em textualidade poética.
A década de 90 gerou talvez um retorno à poética do simbólico da década de 30, mas mulheres como Josely Vianna Baptista (n. 1951) e Claudia Roquette-Pinto (n. 1963) nos deram alguns poemas muito bonitos. Gosto destes dois poemas, ainda que pudesse também usá-los para dialogar sobre muitas de minhas discordâncias quanto a certas escolhas dos poetas daquela década, algo que já expus em diversos momentos. Prefiro, aqui, ler os poemas:
cadeira em mykonos
Claudia Roquette-Pinto
I
nela não se auréola, nem é falsa a idéia, que dela se alça, como o fogo da lenha um grego, aliás, quem a aprisionou, como a um inseto sobre a camurça-conceito: na língua, terceiro objeto, menos cadeira, se a escrevo tampouco devo (se a quero) nos arrabaldes das sílabas buscar madeira de mobília preciso (para que a tenha) adestrar-me ao negativo, do branco contíguo da parede, hauri-la como figura: literal (modo-de-éden) nua entre lençóis de cal
II
ícaro sem penas noiva muda em cendais de secagem rápida quadrúpede engendrado para solidões
§
Onde o céu devore a terra
Josely Vianna Baptista
o breu devore à noite
o próprio rasto;
no solo ocre, de rojo,
o escuro escureça,
noite tão noite
que se dobre em dia
os charcos zoem
outra vez insetos;
virem os regos
de lodo
em que chafurdo
– com o sol –
pó púrpuro,
ou longos rolos
que o vento
eleva e enovela
a prumo o solo fusque
a si mesmo,
e a tarde entardeça
num crepúsculo
bojo de sombras,
lusco-fusco de névoas
(frutos apodrecendo
na gamela)
§
Estreando no final da década de 90, a pernambucana Jussara Salazar (n. 1959) tem publicado belos exemplos de poesia tesa, unindo-se a poetas tão distintas entre si quanto Marly de Oliveira, Elisabeth Veiga e Ana Cristina Cesar, em seus melhores momentos.
Plegária
Jussara Salazar
Verde, âmbar as pedras, e as violetas rosadas – eternas e o humo que cobria o chão negro como a noite, e quisera falar-lhe em seu idioma antigo e recordar os lobos correndo ao redor da casa e a hera selvagem cobrindo os vestidos e os animais, pequenos, nos bordados coloridos e ramitos a entreabrir-se brancos e escuros, cristal de la luna ao reflexo como a aparição das lebres e das ovelhas correndo os campos sob as nuvens e a subterra profunda do horto na pele do ar em minutos precisos, envolvendo o tempo quando vi morrer o sol, e o vento girando, soprando mirações da cor da água, nas rosas e nos insetos. Quisera falar seu idioma antigo e guardar-lhe nas luzitas do espelho como os cravos também tão antigos sobre a toalha branca, e uma lua de seda derrama um rosário de ouro mais os rumores de um sonho, quisera.
§
Pessoalmente, encontro muito estímulo no trabalho de uma artista como Jac Leirner (n. 1961), com seu trabalho de colagem textual e visual.
(trabalho visual de Jac Leirner)
§
Adentrando o século XXI, posso dizer, sem dificuldade ou hesitação, que a maior parte da poesia brasileira que me interessa hoje tem sido escrita por mulheres. Algumas são ainda inéditas em livro, como Izabela Leal (n. 1969) e Juliana Krapp (n. 1980).
Oriental Hotel
Izabela Leal
na poeira se perdem os amantes, entre os escombros. as esquinas com letreiros luminosos dardejam os passantes de brasas nas mãos e bocas transversas de batom.
antes foi cingapura
eles estavam lá, na solidez dos quartos de hotel, e se desencontravam sempre e sempre sob a intermitência do amor.
no futuro repousam as memórias perdidas
um comboio atravessa as noites de Hong Kong - o eterno desvio, uma dobra de tempo no cetim do lençol - enquanto as imagens passam e rasgam as sombras do ventre.
ela sacudia as pernas nos clubes noturnos e o neon emanava um manto de andróide. era um adágio, solúvel em água como uma das tantas palavras anotadas em nanquim com caligrafia milenar a escorrer pelos poros de papel.
§
Limite
Juliana Krapp
Sebe é um acúmulo de varas entretecidas cerceando por vezes sim por vezes não
eu sei do esforço para persuadir naturezas terríveis
simultaneamente à graça dos perímetros que permanecem estanques
(a dor de coabitar tanto as frinchas quanto os confinamentos)
Quando rarefeitos, os movimentos aguardam mais do que a conclusão, preferem o desdém e o resguardo ou mesmo esse estalido (um arquejo) embalado pelo embaraço hipnótico das pequenas sombras
Somente as ventanias são de fato enamoradas e apenas nelas alijam-se as imundícias mais profundas
como somente os ramos estraçalham-se e engravidam-se num único carretel de músculos em escombros
(um aparelho de tensões alimentado pelo ritmo dos sumidouros)
Com outras destas mulheres tenho tido o prazer de trabalhar e dialogar, como as companheiras Angélica Freitas e Marília Garcia, sobre quem já escrevi em outras ocasiões.
Linha 14
Marília Garcia
I.
custa esquecer o último túnel, o tempo subterrâneo e o demorar aquela hora.
no mapa, é como um fio lilás e o vidro tem espessura de muralha: quase um perigo iminente. enquanto submergem em alta velocidade, não desvia para ver quem vem atrás. ali ainda atuam as leis da gravidade
(sabe que precisa responder mas talvez não entenda a pergunta. um leve movimento de rosto cobre os círculos na parede) talvez não responda porque gastou o mecanismo.
II.
atravessou o cemitério antes de descer as escadas, o viu encostado no mármore branco, 4 passos para o sul, 17 para o oeste.
quer descer, escapar, ninguém que tenha descido pôde jamais voltar (não responde porque seu tempo é diferente ou porque já não entende).
III.
acima de 120 decibéis começa a correr risco, mas insiste: você quer vir comigo? o eco da voz no vidro. do outro lado sempre responde algo sem som, um acento diferente na falta de voz.
de 20 poemas para o seu walkman (2007)
§ sereia a sério
Angélica Freitas
o cruel era que por mais bela por mais que os rasgos ostentassem fidelíssimas genéticas aristocráticas e as mãos fossem hábeis no manejo de bordados e frangos assados e os cabelos atestassem pentes de tartaruga e grande cuidado
a perplexidade seria sempre com o rabo da sereia
não quero contar a história depois de andersen & co todos conhecem as agruras primeiro o desejo impossível pelo príncipe (boneco em traje de gala) depois a consciência de uma macumba poderosa
em troca deixa-se algo a voz, o hímen elástico a carteira de sócia do méditerranée
são duros os procedimentos
bípedes femininas se enganam imputando a saltos altos a dor mais acertada à altivez pois a sereia pisa em facas quando usa os pés
e quem a leva a sério? melhor seria um final em que voltasse ao rabo original e jamais se depilasse
em vez do elefante dançando no cérebro quando ela encontra o príncipe e dos 36 dedos que brotam quando ela estende a mão
de Rilke shake (2007)
Gostaria de encerrar esta postagem, com uma minúscula seleção que não se quer completa ou canônica, justamente com aquela que a iniciou, a mulher na foto de abertura: Hilda Machado (1952 - 2007). Nascida no mesmo ano que Ana Cristina Cesar, escolheu o mesmo fim que esta, cerca de 25 anos mais tarde. Não publicou livro. Dois de seus poemas, incluindo o deslumbrante "Miscasting", abaixo, foram publicados por Carlito Azevedo na revista Inimigo Rumor número 16. Outros 4 poemas nós publicamos no segundo número impresso da Modo de Usar & Co.. Se houver no espólio de Hilda Machado outros poemas desta qualidade, seremos leitores de poesia felizes nesta década que está para se abrir.
Miscasting
Hilda Machado
estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino
há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri
mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída
agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias
vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil
seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa
os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
.
.
.
* O autor agradece a Juliana Bratfisch pela assistência em localizar textos de Patrícia Galvão.
A revista Modo de Usar & Co manifesta-se de duas maneiras: como revista impressa (Livraria Berinjela), dedica-se à poesia-escrita. Como revista eletrônica (neste blog), dedica-se à poesia sonora e visual, em vídeo, e também escrita. Editada por Angélica Freitas, Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck.