Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Luis Felipe Fabre


Luis Felipe Fabre nasceu na Cidade do México em 1974. Publicou as coletâneas de poemas Vida quieta (2000) e Una temporada en el Mictlán (2003). Em 2005, lançou a reunião de ensaios Leyendo agujeros.



Com epígrafe de Décio Pignatari, o pequeno volume discute trabalhos de poetas como Néstor Perlongher, Ramón López Velarde, Ulises Carrión, Nicanor Parra, assim como o romance Los Detectives Salvajes, de Roberto Bolaño. Seu último livro chama-se Cabaret Provenza (Cidade do México: Fondo de Cultura Económica, 2007), do qual foram extraídos os poemas abaixo.


--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE LUIS FELIPE FABRE

Sumi-e

Uma pedra sobre outra pedra: assim começa
uma montanha.

Uma montanha:
vulto imenso de silêncio. Uma pedra:
pequeno vulto de silêncio. Imenso e pequeno:
um bonsai.

Um monge nos olhos puxados de outro monge: budistas!

Uma montanha
ou duas ou três ou quatro que já se tornam cordilheira.

:

Sumi-e

Una piedra sobre otra piedra: así comienza
un montaña.

Una montaña:
inmenso bulto de silencio. Una piedra:
pequeño bulto de silencio. Inmenso y pequeño:
un bonsái.

Un monje en los ojos rasgados de otro monje: budistas!

Una montaña
o dos o tres o cuatro que ya van siendo cordillera.


§

Sutra da vaca

Uma vaca:
branca e negra. Ruminando pastagem: verde.
E acima o céu

e no céu
uma nuvem cor de nuvem e detrás da nuvem

outra vez o céu: azul celeste: a cor
do divino Vishnu presenteando uma flor-de-lótus.

Azul: a pele do divino Vishnu.
Celeste: a ação de presentear uma flor-de-lótus.

Outra flor-de-lótus: branco
deixando de ser branco: branca
nuvem dissipada: meditação.

E a vaca
ruminando flores-de-lótus a sagradíssima:
ioga, desioga, reioga.

:

Sutra de la vaca

Una vaca:
blanca y negra. Rumiando pasto: verde.
Y encima el cielo

y en el cielo
una nube color de nube y tras la nube

otra vez el cielo: azul celeste: el color
del divino Vishnú obsequiando un loto.

Azul: la piel de divino Vishnú.
CelesteL la acción de obsequiar un loto.

Otro loto: blanco
dejando de ser blanco: blanca
nube disipada: meditación.

Y la vaca
rumiando lotos la muy sagrada:
yoga, desyoga, reyoga.


§

Mandala

Pedras ensimesmadas como pedras:

dizem isso os que dizem
tê-las visto. E os que viram

Jesus caminhar sobre as águas dizem que Jesus

caminhou sobre as águas. Mas
que certeiras são as pedras ao afundarem.

:

Mandala

Piedras ensimismadas como piedras:

eso dicen los que dicen
haberlas visto. Y los que vieron

a Jesús caminar sobre el agua dicen que Jesús

caminó sobre el agua. Pero
qué certeras son las piedras al hundirse.



(traduções para o português de Ricardo Domeneck)

§


POEMAS ORALIZADOS


(Luis Felipe Fabre no III Encuentro Latinoamericano de Poesía Actual Poquita Fe, em 2008)

§


(Luis Felipe Fabre em Tlaxcala, México, 2004)

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Suor nas mãos, saliva nos lábios: poesia escrita e poesia oral

por Ricardo Domeneck

Como combater o hábito ocidental, já tão enraizado, de compartimentar o plural até que este se torne dual, cavar uma trincheira que o divida e erigir o monolito de outra dicotomia? Não quero retornar ao velho debate brasileiro da letra-de-música X poema. Também não compartilho do fervoroso ativismo anti-literário de Zumthor, por exemplo. Nem pretendo fazer uma defesa da oralidade contra a escrita, tentando instituir a naturalidade de uma sobre a artificialidade da outra. Ora, natureza é discurso e artifício. Linguagem. Produtor de texto: poeta. Cristalizado em escrita, fluindo em oxigênio e gás carbônico, suor da mão, gotículas de saliva.



VERSUS





§

É claro que, muitas vezes, não se percebe que o trabalho com a oralidade requer o mesmo rigor e estudo que o trabalho com a escrita exige. Os poetas literários não têm, em geral, preparo vocal para a leitura de seus próprios poemas.

Há o medo da retórica, o medo do discursivo.

Há poetas literários, porém, com leituras excelentes de seus textos, como Giuseppe Ungaretti e Charles Olson. São exemplos de leituras que vivificam o texto.


(Giuseppe Ungaretti lê o poema "Inno alla morte")



(Charles Olson lê "Maximus to Gloucester, Letter 27 [withheld]", 1966)

Percebe-se claramente a filiação bárdica de Olson. Foi o homem, afinal, que defendeu a respiração do poeta como base rítmica para a escrita.

§

É claro que muitas características do poema transformam-se no processo de oralização, assim como certas possibilidades poéticas intrínsecas do trabalho oral se perdem na página. Tomemos um exemplo extremo: um poema de Augusto de Campos:



O vídeo, aqui, oferece um suporte de união para o oral e o escrito.



É interessante notar que Augusto de Campos escreve que tudo está dito e, em seguida, que tudo está visto. Oralizado, o poema se transforma e perde toda a sua carga visual, é verdade. O difícil equilíbrio triplo do verbo, do vocal e do visual?

Já com um poema como "cidade/city/cité", uma vez ouvido, percebemos que sua existência na página é incompleta, trata-se de um texto que exige oralização:


(Augusto de Campos - "cidade/city/cité", texto de 1963, performance de 1985)

§

A voz a doar tantos ápices ao literário.

Como os poemas dos provençais? Ora, seguiremos olvidando
que os grandes textos literários de Arnaut Daniel eram letras-de-música?
Estou a blasfemar ou voltaremos a ouvi-los?


::: Arnaut Daniel :::: performance moderna para o poema "Lo ferm voler qu'el cor m'intra", de Arnaut Daniel, ressuscitado por musicólogos especialistas na poesia-música medieval, aqui guiados pelo grande Thomas Binkley (1932 - 1995):::

Uma das primeiras sextinas.
Alta literatura e letra-de-música.
Poesia oral, poesia escrita.
Parâmetros para uma poesia verdadeiramente verbiVOCOvisual.

§

Dois grandes exemplos modernos de harmonia de composição, reunindo escrita e oralidade: Gertrude Stein e Ghérasim Luca:

Gertrude Stein - "If I told him - a completed portrait of Picasso" from Revista Modo de Usar on Vimeo.


(Gertrude Stein - "If I told him: A completed portrait of Picasso")


(Ghérasim Luca - "Passioneément")

§

Medo do discursivo? Prefiro os que têm coragem de enfrentá-lo.

Uma das características mais interessantes dos poetas em torno da revista L=A=N=G=U=A=G=E é justamente a investigação que fazem sobre o "discurso", dissecando-o e minando-o por dentro: tática de guerrilha.

Discursivo ou anti-discursivo, o poema abaixo?:

Elegy
Lyn Hejinian

I am writing now in preconceptions
Those of sex and ropes
Many frantic cruelties occur to the flesh of the
.......imagination
And the imagination does have flesh to destroy
And the flesh has imagination to sever
The mouth is just a body filled with imagination
Can you imagine its contents
The dripping into a bucket
And its acts
The ellipses and chaining apart
The feather
The observer

The imagination, bare, has nothing to confirm it
There's just the singing of the birds
The sounds of the natural scream
A strange example
The imagination wishes to be embraced by freedom
It is laid bare in order to be desired
But the imagination must keep track of the flesh
.......responding--its increments of awareness--a
.......slow progression
It must be beautiful and it can't be free

§

Elegia

Eu agora escrevo em preconcepções
Aquelas de sexo e cordas
Muitos frêmitos violentos ocorrem à carne da
.......imaginação
E a imaginação tem em verdade carne a destruir
E a carne tem imaginação a lacerar
A boca é apenas um corpo preenchido de imaginação
Você pode imaginar seus conteúdos?
O gotejar a um balde
E seus atos
As elipses e encadeamento à parte
A pluma
O expectador

A imaginação, vazia, nada possui que a confirme
Há apenas o cantar dos pássaros
Os sons do grito original
Estranho exemplo
A imaginação deseja ser abraçada pela liberdade
É esvaziada para poder ser objeto de desejo
Mas a imaginação precisa da observância à carne
.......em resposta – seus incrementos de vigilância – uma
.......progressão vagarosa
Precisa ser bela e não consegue libertar-se

(tradução de Ricardo Domeneck,
publicada no número de estréia da revista
Modo de Usar & Co.)

§

__ Quem é sua cantora favorita?

__ Safo.

§


Mas é um equívoco associar, tão apressadamente, oralidade com discursividade, e esta com frouxidão da escrita. Exemplo drástico para possível ilustração do argumento: o poeta menos retórico que conheço é um poeta sonoro --- o francês Henri Chopin. Ouça o poema "L´énergie du sommeil":



(Henri Chopin, apresentando seu trabalho em Berlim, 2003)

§

Seria possível, no entanto, acusar alguém como Bernard Heidsieck de ser "demasiado discursivo"? Ouça o poema "R", do livro Derviche/Le Robert (1988), em que Heidsieck trabalha com cada letra do alfabeto:


(Bernard Heidsieck, performance em Paris.)

§

Ora, isso acontece quando julgamos a poesia CORPoral sob parâmetros literários.

São trabalhos distintos e ambos são trabalhos poéticos... é o que Paul Zumthor chamava de "hegemonia da escrita" em nossa cultura que faz com que todos os outros trabalhos poéticos recebam rótulos

poesia "sonora"
poesia "em vídeo"
poesia "visual"

enquanto apenas a poesia "escrita" (ou poesia "literária") reserva-se o direito de não usar seu rótulo
e auto-proclamar-se POESIA simplesmente.

É uma questão de ênfase (ou, se quisermos politizar a discussão, de hegemonia).

§

Não há por que criar uma oposição entre trabalhos que investigam diferentes ângulos da poesia.

Veja/ouça bem:

por exemplo, quando se discute no Brasil se letra-de-música é poesia, o que se está perguntando, na verdade, é se um texto composto para a voz pode funcionar como Literatura. A pergunta parece-me simplesmente errada, desde o princípio. Um texto para a voz não tem a menor obrigação de também funcionar como Literatura. Se o faz, ao ser transplantado para a página, torna-se um texto literário e pode ser julgado como tal, mas a atividade me parece muitas vezes pueril.

Não consigo deixar de ter o mesmo respeito por poemas líricos (que nos acostumamos a chamar de cançoes) como os de Beth Gibbons, a poeta associada ao coletivo Portishead, quanto pela pesquisa de Edmond Jabès, a que ele chamava de "busca pela autoridade perdida do Livro".


(Beth Gibbons - "Cowboys", um dos grandes poemas dos anos 90, aqui acompanhada pelo Portishead.
A propósito: a tradição de poetas com acompanhamento musical é algo antiquíssimo.)

Edmond Jabès, em tradução de Caio Meira:

O livro seria, assim, apenas o espaço
circunscrito pela palavra aberta à palavra.
Não somos escritos onde ela se escreve,
mas inscritos onde ela se apaga.
Há uma linguagem própria que a inscrição
tumular nos impõe e nos força ao silêncio.
Pesado silêncio em busca de um signo.
Ah! outro - homem, mundo, Deus - mais nós
mesmos do que poderíamos sê-lo no
segredo de nossas confissões; palavra
de uma palavra à qual não ousamos
ligar nosso nome; pois se somos
tributários dela, ela, contrariamente,
mais nos escapa do que nos pertence.
Brancura, brancura de sangue.
Séculos de orgulho e de derrotas
jazem no vocábulo. Você
os desperta ao revelá-lo.
Um livro se entreabre
quando nos abandonamos.


§

A voz pode muitas coisas que a escrita não pode, e vice-versa.

Há textos que foram criados, pensados para a página, e adquirem ali seu potencial (quase) completo. Já cheguei a chamar o "Coup de dès" de Mallarmé de coroamento da poesia como escrita, poesia literária, talvez um poema para os olhos, mais que para os ouvidos. Daí a fascinação do grupo Noigandres? Há poetas, no entanto, em que a voz parece estar implícita no texto, recuperando os volteios do oral. Algo como os poemas, por exemplo, de Frank O´Hara, ainda que o próprio O´Hara não me pareça um grande leitor de seus próprios poemas:

Having a coke with you
Frank O´Hara

is even more fun than going to San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
or being sick to my stomach on the Travesera de Gracia in Barcelona
partly because in your orange shirt you look like a better happier St. Sebastian
partly because of my love for you, partly because of your love for yoghurt
partly because of the fluorescent orange tulips around the birches
partly because of the secrecy our smiles take on before people and statuary
it is hard to believe when I’m with you that there can be anything as still
as solemn as unpleasantly definitive as statuary when right in front of it
in the warm New York 4 o’clock light we are drifting back and forth
between each other like a tree breathing through its spectacles

and the portrait show seems to have no faces in it at all, just paint
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them
.................................................................................I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the
Polish Rider occasionally and anyway it’s in the Frick
which thank heavens you haven’t gone to yet so we can go together the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
just as at home I never think of the
Nude Descending a Staircase or
at a rehearsal a single drawing of Leonardo or Michelangelo that used to wow me
and what good does all the research of the Impressionists do them
when they never got the right person to stand near the tree when the sun sank
or for that matter Marino Marini when he didn’t pick the rider as carefully
.................................................................................as the horse
it seems they were all cheated of some marvellous experience
which is not going to go wasted on me which is why I’m telling you about it






Tomar coca-cola com você (transcontextualização de Ricardo Domeneck)

é ainda mais divertido que ir a São Francisco, La Jolla, Tijuana, Tecate, Ensenada
ou ter o estômago revirado de enjôo na Madison Avenue em Nova Iorque
em parte porque nesta camisa laranja você me parece um São Francisco melhor mais feliz
em parte por causa do meu amor por você, em parte por causa do seu amor por vodca
em parte por causa das margaridas laranjas fluorescentes cercando os ipês
em parte por causa do mistério que nossos sorrisos vestem diante de gente e estatuaria
é difícil de acreditar quando estou com você que pode haver algo tão imóvel
tão solene tão desagradavelmente definitivo quanto estatuaria quando bem em frente
no ar quente das quatro da tarde em São Paulo nós vagamos em círculos um entre o outro
sem parar como uma árvore respirando por suas oftálmicas

e a exposição de retratos parece não ter qualquer rosto, só tinta
você de repente pergunta-se por que diabos alguém deu-se ao trabalho de fazê-los
.................................................................................eu olho
você e preferiria olhar você a todos os retratos do planeta com exceção
talvez do
Auto-Retrato com corrente de ouro de vez em quando que está no MASP
a que graças aos céus você ainda não foi então podemos ir juntos pela primeira vez
e o fato de que você se move tão lindo resolve mais ou menos o Futurismo
assim como em casa eu nunca penso no
Nu Descendo uma Escada ou
num ensaio um único desenho de Da Vinci ou Michelangelo que antes me boquiabria
e de que adianta aos Impressionistas toda a sua pesquisa
quando eles nunca conseguiam a pessoa certa para encostar-se à árvore ao pôr-do-sol
ou a propósito Marino Marini se ele não escolheu o cavaleiro com o mesmo cuidado
.................................................................................que o cavalo
é como se eles tivessem sido fraudados em alguma experiência maravilhosa
que eu não pretendo desperdiçar o motivo pelo qual estou aqui falando tudo isso para você


§
§

É legítimo que um poeta decida trabalhar apenas com a escrita,
é legítimo que um poeta decida trabalhar apenas com a oralidade.

Em minha busca pelo borrar de fronteiras e delir de dicotomias, interesso-me pelos que vivem em guerra com a alfândega entre as duas. Há, no Brasil de hoje, bons exemplos destes poetas, como Arnaldo Antunes, Ricardo Aleixo e Marcelo Sahea.


(Arnaldo Antunes - "O mar")

§

Real irreal from ricardo aleixo on Vimeo.


(Ricardo Aleixo - "Real irreal")

§


(Marcelo Sahea - "2415")

§
§

Ao mesmo tempo, fascina-me a pesquisa daqueles poetas que seguem trabalhando com o TEXTUAL sobre a página, investigando as falhas nas malhas do discurso:

Classificação da secura
Marília Garcia

I

agora já é quase amanhã mas queria
dizer apenas que é muito
tarde: acrescentar quatro horas ao relógio
indica que já é depois. lá é sempre
depois. parecia um nome
italiano com aquele som ecoando e a
resposta em outra língua mostrava
a cor das linhas no mapa,“é lilás”, para
não dizer algo preciso
para não terminar: com ela
saio cedo todos os dias. fico de
vez em quando escondido
no porto. tomarei
o transmediterrâneo e comerei
calçots,
.....................................até chegar o instante antes
do instante
, momento em que olha para o relógio
e diz: não. já conhece todos os erros
do sistema e a retina derretendo
sempre que levanta
.....................................para sair dali.
(precisão é o retângulo do degrau
inferior.)

II.

alguém que não consegue se mover
e uma semana de vozes cortadas, deve
se acostumar aos movimentos em câmera
lenta, à descida pela escada em
espiral:
................recorta os sons
de cada quarto e apaga as
perguntas que mais detesta
responder. como aquela noite
no ônibus, ruídos do rádio e
pedaços de frases atiradas,
sempre girando as horas.
........................................ver a paisagem
sem ela e precisar o tamanho da ausência
com poucos dados. sabe que as baleares ficam
do outro lado do mar, e custa muito chegar
anos depois e dizer. ergue os olhos para
fixar o que tem ali e não perder
de vista a secura.

§

E por que impediríamos o estritamente sonoro?


(Philadelpho Menezes - "Poema não música")

O estritamente visual?


(Joan Brossa - "Eclipse")

Os títulos contam?
Existe o estritamente textual? Ou todo texto implica voz e olho?

§


Pluralidade de pesquisa segue sendo o caminho para uma poesia que se orgulha de cada um dos seus cinco sentidos.

Terça-feira, 17 de Março de 2009

Edgar Bayley (1919 - 1990)

Edgar Bayley nasceu em Buenos Aires, em 1919. Sua estréia como poeta viria em 1949, com a coletânea En común. Mais tarde, publicaria os livros La vigília y el viaje (1961), El día (1968), Todo el viento del mundo (1972), Nuevos Poemas (1981) e Alguien llama (1983). Sua obra poética foi reunida postumamente em 1999. Está entre os fundadores da Asociación Arte Concreto-Invención e da revista Poesía Buenos Aires.

Apresentamos aqui a tradução para o português, com gentil permissão do poeta Renato Rezende, do poema "Es infinita esta riqueza abandonada", um dos mais conhecidos textos de Edgar Bayley.


POEMA DE EDGAR BAYLEY

É infinita esta riqueza abandonada

esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio

não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada

(tradução de Renato Rezende)

§

Es infinita esta riqueza abandonada
Edgar Bayley

esta mano no es la mano ni la piel de tu alegría
al fondo de las calles encuentras siempre otro cielo
tras el cielo hay siempre otra hierba playas distintas
nunca terminará es infinita esta riqueza abandonada
nunca supongas que la espuma del alba se ha extinguido
después del rostro hay otro rostro
tras la marcha de tu amante hay otra marcha
tras el canto un nuevo roce se prolonga
y las madrugadas esconden abecedarios inauditos islas remotas
siempre será así
algunas veces tu sueño cree haberlo dicho todo
pero otro sueño se levanta y no es el mismo
entonces tú vuelves a las manos al corazón de todos de cualquiera
no eres el mismo no son los mismos
otros saben la palabra tú la ignoras
otros saben olvidar los hechos innecesarios
y levantan su pulgar han olvidado
tú has de volver no importa tu fracaso
nunca terminará es infinita esta riqueza abandonada
y cada gesto cada forma de amor o de reproche
entre las últimas risas el dolor y los comienzos
encontrará el agrio viento y las estrellas vencidas
una máscara de abedul presagia la visión
has querido ver
en el fondo del día lo has conseguido algunas veces
el río llega a los dioses
sube murmullos lejanos a la claridad del sol
amenazas
resplandor en frío

no esperas nada
sino la ruta del sol y de la pena
nunca terminará es infinita esta riqueza abandonada

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Sóror Violante do Céu (1602 - 1693)


Violante Montesino foi uma freira dominicana portuguesa, nascida em Lisboa em 1602. É mais conhecida como Sóror Violante do Céu. Chegou a ser chamada de "Décima Musa", mas, para nossa perda, sua poesia não encontrou acolhida em nosso cânone lacunar. A poeta escreveu parte de sua obra em castelhano, o que talvez explique (mas certamente não justifica) sua ausência no debate crítico, até mesmo sobre o Barroco, do qual foi representante excelente. Sua obra principal está reunida em Rimas Várias, publicada em Ruão, França, em 1646. Listam-se ainda Romance a Cristo Crucificado (1659), Solilóquio ao SS. Sacramento (1662), Solilóquios para antes e depois da Comunhão (1668) e Meditações da Missa (1689). Sóror Violante do Céu morreu em Lisboa em 1693.


Quem chamou nossa atenção para a poesia de Sóror Violante do Céu foi o poeta paulistano Dirceu Villa (n. 1975). É dele a seleção de poemas abaixo.


--- Modo de Usar & Co.


§


POEMAS DE SÓROR VIOLANTE DO CÉU


Canção

Amante pensamento,
Núncio de amor, correio da vontade,
Emulação do vento,
Lisonja da mais triste soledade,
Ministro da lembrança,
Gosto na posse, alívio na esperança,

Já que de minhas queixas
A causa idolatrada vás seguindo,
Diz-lhe qual me deixas:
Diz-lhe que estou morta, mas sentindo,
Que pode mal tão forte
Fazer que sinta (ai triste!) a mesma morte.

Diz-lhe que é já tanto
O pesar de me ver tão dividida,
Que só me causa espanto
A sombra que me segue de üa vida
Tão morta para o gosto
Como via (ai de mi!) para o desgosto.

Diz-lhe que me mata
Quem, vendo-me morrer sem resistência,
De socorrer-me trata,
Pois para quem padece o mal de ausência
Que é só remédio entendo
Ver o que quer ou fenecer querendo.

Diz-lhe que a memória
Toma por instrumento do meu dano
A já passada glória,
Fazendo o mais suave tão tirano,
Que o bem mais estimado
Me passa o coração, porque é passado.

Diz-lhe que se sabe
O poder de üa ausência rigorosa,
Que a que começa acabe
Antes que ela me acabe poderosa,
Pois de tal modo a sinto,
Que julgo ter por eterno o mais sucinto.

Diz-lhe que se admite
Rogos de um coração que o segue amante,
Que ver-me solicite
Apesar do preciso e do distante,
E que tão cedo seja
Que toda a compaixão se torne inveja.

Diz-lhe que se acorde
De uns efeitos de amor que encarecia,
E que todos recorde,
Mas que seja um minuto cada dia,
Pois eu cada minuto
Infinitas lembranças lhe tributo.

Diz-lhe que até à morte
Assistência contínua lhe ofereces,
E que te invejo a sorte;
E enfim, se de meu mal te compadeces,
Ó pensamento amigo,
Diz-lhe tudo, ou leva-me contigo.

§


Ao Padre António Vieira, pregando
do nascimento de N. Senhora
no Convento da Rosa


Silva

Aspirar a louvar o incompreensível,
E fundar o desejo no impossível;
Reduzir a palavras os espantos,
Detrimento será de excessos tantos;
Dizer, do muito, pouco,
Dar o juízo a créditos de louco;
Querer encarecer-vos,
Eleger os caminhos de ofender-vos;
Louvar diminuindo,
Subir louvando e abaixar subindo;
Deixar também, cobarde, de louvar-vos,
Será mui claro indício de ignorar-vos;
Fazer a tanto impulso resistência,
Por o conhecimento em contingência;

Delirar por louvar o mais perfeito,
Achar a perfeição no que é defeito;
Empreender aplaudir tal subtileza,
Livrar todo o valor na mesma empresa.
Errar exagerando,
Ganhar perdendo e acertar errando.
Siga pois o melhor indigna Musa
E deponha os excessos de confusa,
Que, para acreditar-se,
Basta, basta o valor de aventurar-se;
E para vos livrar de detrimento,
Ser vossa a obra e meu o pensamento.
Pois não fica o valor aniquilado,
Sendo meu o louvor, vós o louvado,
Porque somos os dois, no inteligível,
Eu ignorante e vós incompreensível.

§
§
§

Dirceu Villa nasceu em São Paulo, em 1975. É autor dos livros MCMXCVIII (São Paulo: Selo Badaró, 1998), Descort (São Paulo: Hedra, 2000) e Icterofagia (São Paulo: Hedra, 2008). Escreve semanalmente no Demônio Amarelo.


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Quarta-feira, 11 de Março de 2009

Odile Kennel

Odile Kennel nasceu em 1967, em Bühl/Baden, Alemanha, de um casal francês/alemão, crescendo em um lar bilíngue. Estudou Ciências Políticas em Tübingen, Berlim e Lisboa. No ano 2000, publicou a novela Wimpernflug - eine atemlose Erzählung (Berlin: Edition Ebersbach, 2000). Seus poemas encontram-se em várias antologias de poesia contemporânea alemã.

Odile Kennel é uma das mais ativas tradutoras alemãs da poesia em língua portuguesa, especialmente a brasileira. Traduziu, entre outros, poemas de Arnaldo Antunes, Douglas Diegues e Angélica Freitas, além dos portugueses Pedro Mexías e Adília Lopes. Traduziu ainda muitos textos do poeta Jean Portante, de Luxemburgo.

Odile Kennel vive e trabalha em Berlim.


--- Modo de Usar & Co.

§


POEMAS DE ODILE KENNEL


Por sorte a névoa chegou

tarde. Mais abaixo, eu sei
com certeza, nadavam girinos
num tanque de pedra, as vacas
traçavam com patas cautelosas
veias na montanha, visíveis. Sobre
nós circulava um busardo. Não

é um busardo, você disse, mas
nos faltavam binóculos e dicionário
de inglês. E havia o ruído
dos planadores. Eles abocanhavam o ar
em goles ávidos. Riscavam verticais acima

e abaixo cambaleavam nossos
olhos uns nos outros, mergulho cauteloso
das palavras vale abaixo, cartografado
de montanha a montanha.

Por sorte a névoa chegou tarde
para que pudéssemos
admirar na capela o
Senhor Jesus transsexual, suas unhas
pintadas. Para que nossos olhos
patas cautelosas sob
círculos intraduzíveis, para que nossos
olhos tais como girinos
no tanque de pedra nadassem
uns pelos outros se medissem uns nos outros
mergulhassem por sorte

a névoa chegou tarde.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Zum Glück kam der Nebel
Odile Kennel

verspätet. Weiter unten, ich weiß es
genau, schwammen Kaulquappen
in einem Steintrog, Kühe legten
mit bedächtigen Hufen die Adern
des Berges bloß. Über uns kreiste
ein Bussards. Das ist kein

Bussard, sagtest du, aber wir hatten
kein Fernglas und kein englisches
Wörterbuch. Und das Geräusch kam
von den Segelfliegern. Sie rissen die Luft
an sich in gierigen Zügen. Rissen sie aufwärts und

abwärts taumelten unsere Augen
ineinander, bedächtiges Tauchen
der Wörter ins Tal hinab
geschwungen, ausgelotet
von Berg zu Berg.

Zum Glück kam der Nebel verspätet
so dass wir in der Kapelle den
transsexuellen Herrn Jesus
bewundern konnten, lackiert
seine Nägel. So dass unsere Augen
bedächtige Hufe unter unübersetzbaren
Kreisen, so dass unsere
Augen Kaulquappen gleich
im Steintrog schwammen
sich aneinander maßen ineinander
tauchten zum Glück

kam der Nebel verspätet.



§

Também não consigo terminar

................. para Angélica Freitas

Quando é que houve um cometa
que se chocou cometário ou
bateu despercebido no vidro,
todos pensaram em gotas
de chuva, em um evento
particularmente outonal. Ah,
os trajetos noturnos de bonde
digo trajetos, não digo através,
não digo chuva, não digo luz que
sonda a fundura do intradorso e já
não é a mesma após a medição, digo
cratera, rabisco em um caderno que,
observado além do vidro, torna-se
talvez o centro de uma existência, mas
serei ainda eu, observada de fora, ou
um evento particularmente outonal
que se obceca, se engancha, faz até
da cratera crochê, na chuva, sim,
digo, quando e onde (eu também
não consigo terminar meu
poema.)

(tradução de Ricardo Domeneck)

:


Auch ich finde keinen Schluss
Odile Kennel
.......................(Für Angélica Freitas)

Wann war da ein Komet der
kometenhaft einschlug oder
unbeachtet an die Scheibe prallte
alle dachten an Regentropfen, an ein
besonders herbstliches Ereignis. Ach,
mit der Straßenbahn nachts fahren,
sage fahren, sage nicht durch,
nicht Regen, nicht Licht das die
Laibungstiefe der Fenster auslotet
und nach der Messung nicht mehr
dasselbe ist, sage Krater und
Gekritzel in ein Heft, das von
jenseits der Scheibe betrachtet
vielleicht zum Zentrum einer
Existenz wird, aber bin das von
außen betrachtet noch ich oder
ein besonders herbstliches Ereignis
das hadert, sich verhakt, gar
häkelt am Krater, im Regen, ja,
sage ich, wann, und wo (auch ich
finde für mein Gedicht keinen
Schluss.)



§

Dinossauros levantam primordialmente questões
(animais extintos I)


Em que pensavam os dinossauros
enquanto pastavam tranquilos? Mugiam
realmente como vacas? O céu estava de fato
rajado por nuvículas rosadas? Os lagartos
arrastavam as patas, mordiscavam as copas?
Voavam sobre a espuma? Teria sido possível
confundi-los de longe com gaivotas? O ar
tinha então cheiro? Era azul o mar? Sabia
o último deles quando lhe sobreveio o fim
que ele era o último? Pousou cansado a cabeça
num leito de samambaias? Sonhava pela última vez
ser pequeno como um jabuti, sonhava com peixes,
com frutas, com bijuterias, morria sobre a areia?

(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Dinosaurier werfen in erster Linie Fragen auf
(ausgestorbene Tiere I)

Odile Kennel

An was dachten die Dinosaurier wenn sie
gemächlich grasten? Muhten sie wirklich
wie Kühe? War der Himmel tatsächlich
von rosa Wölkchen durchzogen? Zogen
die Dinos die Füße nach, zupften an Kronen?
Flogen sie über die Gischt? Hätte man sie
von weitem mit Möwen verwechselt? Roch
damals die Luft? War das Meer blau? Wusste
der Letzte als es zu Ende ging dass er der
Letzte war? Legte er müde den Kopf auf ein Bett
aus Farn? Träumte ein letztes Mal davon, klein
zu sein wie ein Kriechtier, träumte vom Beeren,
von Fischen, von Tand, starb auf dem Sand?



§


E então começara de novo com o verso

E então começara de novo com o verso,
de repente, lá estava eu, nesse ponto
em minha vida.
(Rolf Dieter Brinkmann)



De repente, lá estava eu, nesse
ponto, saída de minha própria
vida, nesse ponto, quando
se observava de perto, nada
havia de significante, não
havia signatário, coisa ou
nome para a coisa. Houvesse
batido à porta, teria sido talvez
permitida minha entrada. Preciso,
digo, dessa luz pálida de
março, preciso, nos sábados
à tarde, ouvir o tilintar
de vidro para reciclagem
e então pensar que não penso
em nada, preciso que o sapato
seja apenas sapato, uma geladeira,
uma geladeira, e o despertador,
que algures toca todos os dias
à mesma hora, apenas um
despertador, que algures
toca todos os dias à mesma
hora. Esse verso novo
que começo, talvez nunca
termine, ou fique, como
um cachorro escaparia
apenas por estar aberta
a porta.


(tradução de Ricardo Domeneck)


:


Und dann fing ich noch einmal mit der Zeile an
Odile Kennel

& dann fing ich noch einmal mit der Zeile an,
Auf einmal, da war ich, an dieser Stelle,
in meinem Leben.
(Rolf Dieter Brinkmann)

Auf einmal, da war ich, an dieser
Stelle, aus meinem Leben
heraus, an dieser Stelle war,
wenn man genau hinsah, nichts
Nennenswertes, kein Nennwert, kein
Ding, kein Name für das Ding. Hätte ich
geklopft, man hätte mich vielleicht
hereingelassen. Ich brauche dieses blasse
Licht im März, sage ich, ich brauche es,
am Samstagnachmittag das Klirren
der Glascontainer zu hören und dabei
zu denken, dass ich an nichts denke,
ich brauche es, dass ein Schuh nur
ein Schuh ist, ein Kühlschrank ein
Kühlschrank und der Wecker da draußen
der jeden Tag um die gleiche Zeit piept
nur ein Wecker da draußen, der jeden Tag
um die gleiche Zeit piept. Diese neue
Zeile, die ich beginne, endet vielleicht
nie, oder bleibt, so wie ein
Hund hinausliefe, nur
weil die Tür offen steht.



§

Pensar sálvia e você

Eu penso sálvia quando eu
vejo sálvia penso folhas de veludo
verde-cinza pareadas opostas ou
labiadas ou temperadas e amargas
ou eu penso em nada nem sálvia nem
planta nem cheiro pois por tanto
pensar a sálvia se encontra
à janela se desencontra na mente
pois ela para mim não existe mas
existe para si nada sabe de
seu nome nada sabe de seu
existir presume-se que nonada sabe.

Eu penso você quando eu não
penso sálvia quando não penso que
os andorinhões cochilam nas altas
camadas do ar e nós deitadas
despertas à janela eu penso
você e o cheiro amargo
e temperado infiltra-se no seu
no meu existir de que nada sabe
e assim origina-se um desequilíbrio
existencial na luz pós-meridiana
pois sabemos sabemos muito bem
que todo tempo é uma xícara a
despenhar-se aos céus ou óleo etéreo
ou a maquinaria da solidão, presume-se.

(tradução de Ricardo Domeneck)

:


(Odile Kennel lê em Berlim, a 19 de agosto de 2008, em evento que contou ainda com leituras do belga Damien Spleeters, da espanhola Sandra Santana e do brasileiro Ricardo Domeneck)

:

Salbei denken und Du
Odile Kennel

Ich denke Salbei wenn ich Salbei
sehe denke grüngraue samtene
Blätter paarweise gegenständig oder
Lippenblütler oder bitter und würzig
oder ich denke nichts nicht Salbei nicht
Pflanze nicht Duft weil vor lauter
Denken der Salbei wohl vorkommt
am Fenster doch verkommt im Kopf er also
für mich nicht existiert er aber
für sich existiert und nicht weiß wie er
heißt und nichts weiß von seiner
Existenz vermutlich gar nichts weiß.

Ich denke Du wenn ich nicht
Salbei denke nicht denke dass
die Mauersegler dösen in den höheren
Schichten der Luft während wir wach
liegen am Fenster ich denke
Du während der bittere und
würzige Duft in deine und meine
Existenz dringt von der er nichts weiß
und so entsteht ein existenzielles
Ungleichgewicht im Nachmittagslicht
denn wir wissen wir wissen sehr genau
dass alle Zeit nur eine himmelwärts stürzende
Tasse ist oder ätherisches Öl oder eine
Apparatur der Einsamkeit, vermutlich.


(Zitat: Ulrike Draesner)

.
.
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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

"Formación de la poesía brasileña: 1945-2008", por Cristian De Nápoli

O ensaio a seguir serviu de introdução à pequena antologia de poesia brasileira contemporânea organizada por Cristian De Nápoli para o Diário de Poesía de Buenos Aires, publicada em novembro de 2008, com traduções de C. De N. e Aníbal Cristobo.

Os poetas incluídos foram:

Ricardo Aleixo (Belo Horizonte, 1960),
Carlito Azevedo (Rio de Janeiro, 1961),
Marcos Siscar (Borborema - SP, 1964),
Joca Reiners Terron (Cuiabá, 1968),
Manoel Ricardo de Lima (Parnaíba - PI, 1970),
Angélica Freitas (Pelotas - RS, 1973),
Ricardo Domeneck (Bebedouro - SP, 1977),
Marília Garcia (Rio de Janeiro, 1979),
Juliana Krapp (Rio de Janeiro, 1980) e
Renato Mazzini (Santa Fé do Sul - SP, 1981).

A Modo de Usar & Co. reproduz aqui o ensaio, seguindo com o debate.


§
§

Formación de la poesía brasileña: 1945-2008 : PRIMEIRA PARTE

por Cristian De Nápoli



Hay en la historia brasileña un período que se conoce como desarrollista (desenvolvimentista) y abarca los años entre 1945 y 1964. En palabras de Guido Mantega, actual Ministro de Hacienda, fue el período de mayor crecimiento económico del Brasil durante el siglo XX. Sus emblemas son la construcción de Brasilia y la foto del presidente Juscelino Kubitschek tocando el violão. Bajo el gobierno de Kubitschek –o “el Presidente bossa nova”– se condensaron los principales rasgos del período: el culto a la inversión en infraestructura (entendida como la vía hacia una verdadera integración federal) y una apuesta fuerte por la industrialización. Para lograr ambas cosas se alentó la apertura a todos los capitales extranjeros, incluido el cultural –y dentro de éste, en un lugar de privilegio, el llamado estilo de vida norteamericano que tanto se adhirió a las costumbres de los sectores profesionales en ciudades como San Pablo y Río. Desarrollista nunca falta quien considere también al período del “milagro económico” en torno a 1970, bajo dictadura, aunque en este caso desarrollo industrial e inversión en infraestructura fueron de la mano de un acelerado proceso de concentración de la renta: según datos del Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, el 5% de la población acumulaba en 1960 el 27% de la riqueza, y el 40% en 1976. Más tarde, bajo las presidencias del heterodoxo Sarney –autor, por lo demás, de algunos libros de poesía memorables–, el aventurero privatista Collor de Melo –en palabras de Bush padre, el “Indiana Jones de América Latina”– y el privatista culposo Fernando Enrique, dos décadas de democracia no lograron mejorar la distribución de la renta, de modo que acabaría consolidándose la visión del Brasil como paradigma de la república desigual. Es el famoso “Belindia”, mezcla de Bélgica e India, término acuñado en los 70 para graficar los parámetros del bien y el mal estar en que se dividía el país. Así, durante las últimas décadas del siglo XX el proyecto desarrollista acaba transformándose en un enunciado cínico. Es al tiempo que se inaugura en 2003, en un Brasil que ahora es reserva petrolera además de potencia exportadora de alimentos y manufacturas, que se lo puede llamar, como de hecho hoy se lo llama, “período social-desarrollista”, y ello debido al aprovechamiento por parte del gobierno de la nueva coyuntura mundial así como también a la implementación de políticas anfibias, sí, pero con su carga no desdeñable de efectividad en términos de equidad social.
En la poesía, durante el período desarrollista a secas (decíamos: 1945-1964) surge la última vanguardia estética brasileña: el concretismo o poesía concreta. De naturaleza minimalista (poemas breves o con sus elementos dados a la alteración leve y/o la plena recursividad) y al mismo tiempo multifacética (verbal, sonora y también visual en la experimentación con las tipografías y el espacio de la página), el concretismo pronto pasaría a regir la investigación formal en poesía. Y durante el mismo período se asienta también una noción que provenía de la arquitectura y las artes plásticas: el constructivismo. Respecto de la poesía concreta en tanto movimiento, mucho se ha intentado determinar que fue algo así como el ala artística de la misma política que, entre sus proyectos más visuales, construyó la ciudad de Brasilia. Nada es más bellaco en el gremio de los poetas que las tentativas siempre presentes de igualar sin más lo productivo con lo oficial, y si bien es innegable que los movimientos o las poéticas corren mejor suerte cuando las condiciones económicas son favorables, ahí están, en última instancia, las biografías de los poetas concretos –los hermanos Haroldo y Augusto de Campos, Décio Pignatari y otros: vidas en ningún aspecto acopladas a los departamentos de gobierno o los comités, y tocadas eventualmente por las instituciones del mismo modo en que muchas otras, líricas y anti-concretas, fueron tocadas. Si de lo que se trata, en cambio, es de señalar ya no una subordinación sino una afinidad entre el concretismo y la ideología desarrollista, ahí los indicios abundan, empezando quizás por esta loa a la planificación industrial por medio de la cual Pignatari se dirige a sus contemporáneos: “Guárdense sus lamentos personales o demagógicos y traten de construir poemas a la altura de los objetos industriales, racionalmente planeados y producidos” (“A coragem de construir”, publicado en el Correio Paulistano en 1960)

Respecto del constructivismo, hay que decir que el primer brasileño en hablar sistemáticamente del rigor en la construcción de un poema no fue un poeta sino un crítico. Es Antonio Cândido, que nació en 1918 y hoy sigue escribiendo. Cândido es quien lee tempranamente, en 1941, el primer libro de poemas de João Cabral de Melo Neto, Pedra do sono, y subraya esta dimensión del rigor constructivo para deslindarla de otra marca igualmente visible en aquellos poemas y que al crítico esta vez no le satisface: la marca del surrealismo. Algún tiempo después comienza a usarse este término, constructivismo, tal como se lo sigue usando hasta hoy: de manera muy precisa para sintetizar la poética de João Cabral –quizás el brasileño más leído por quienes escriben poesía dentro y fuera de Brasil– y de un modo bastante vago para designar toda obra elaborada bajo un cierto ideal de dureza.

Tenemos, entonces, a mediados de siglo XX, una poética de contornos bien definidos como el concretismo, y sobrevuela este concepto difuso o exacto según el objeto al que se lo aplica, el constructivismo. El modo en que lo incorporo en este ensayo puede que sea un paso más en esa selva de las resignificaciones que hace que todo ismo termine no queriendo decir nada. Me interesa pensarlo como un proyecto transhistórico, que incluye no sólo la poesía de Cabral sino también el concretismo –y el llamado a “construir” ya está en título del artículo de Pignatari recién citado– y muchas otras manifestaciones desde las vanguardias del ’20 hasta la actualidad. Entiendo el constructivismo no tanto como un “modo de escribir”, sí como un modo de hacer a partir de una concepción de la escritura creativa: la concepción, en líneas generales, de que ésta es mucho más interesante en sí misma que con su sentido atado a la vida del artista. De lo que se trata entonces, y por oposición, es de desmitificar los procesos y las herramientas para la creación poética, razón por la cual la tarea constructivista suele imponer, tanto o más que poemas, la fabricación de accesos concretos y definidos a la poesía. Así, el poeta es necesariamente otra cosa: traductor, crítico, ensayista; divulgador. Tal visión del constructivismo lo supone en pugna con fuerzas que buscan hacer creíble una misión de tiempo completo, liberadora de todo lo que no sea creación (o autopromoción), en la cual el poeta se piensa sacerdote y a su obra la conceptúa una revolución no captada por el vulgo. Y supone una parada tanto o más difícil: dejar en el lugar que les corresponde, que no es el del arte, a las preclaras recetas del superego educativo, ése que está adentro, instalado en las células menos estimulables de la región más creativa del cerebro desde que la lengua es discurso. A esas recetas y a aquellas pasiones se les opusieron en Brasil a lo largo del siglo XX manifiestos como el de la poesía pau-brasil (Oswald de Andrade) y poéticas como las de Murilo Mendes o Ferreira Gullar entre muchas otras, además de las ya mencionadas de João Cabral y los concretos.


Constantes y variaciones (desde acá)

Es justamente esta tradición constructivista, o al menos la constelación que forman algunos de sus exponentes desde Manuel Bandeira, Drummond de Andrade y João Cabral hasta Haroldo de Campos y Ferreira Gullar, la única que alcanzó una difusión considerable en América Latina. Si uno repara en la selección de los autores incluidos en Puentes/Pontes –la antología más completa en traducción al castellano de la poesía escrita en Brasil entre mitad de siglo y comienzos de los 80– hay allí una decena de nombres que probablemente se daban a conocer por primera vez en una edición en español en 2003, año en que aparece dicha antología. Mientras que, de la otra decena (son veinte en total), autores como Adélia Prado, Armando Freitas Filho, Paulo Leminski y Ana Cristina César tienen o tuvieron hasta hace poco una circulación muy limitada en América Latina, restringida incluso entre lectores habituales de poesía. Es enorme y de lo más heterogéneo el conjunto de poetas brasileños del período que poco y nada han circulado en nuestra lengua. Yo diría que incluye a casi toda obra ajena a esto que acá llamo tradición constructivista: ya sean los exponentes más destacados de una poesía lírica (Hilda Hilst), filosófica (Orides Fontela) o erudita (Sebastião Uchoa Leite), como las figuras de esa otra vertiente que acabó volviéndose una tradición, la llamada poesía marginal –sobre la que luego volveré.
Sin embargo, el verdadero hiato en la comunicación entre la América hispana y Brasil en el terreno de la poesía vendría a darse con los poetas que comenzaron a publicar en los años 80. Obras como las de Horácio Costa, Claudio Daniel o Josely Vianna-Baptista, quizás las más próximas por el hecho de que sus autores son también traductores del español, y casos atípicos como el de Arnaldo Antunes, conocido a partir de su labor como músico, darían la pauta de este nuevo contexto paradójicamente contemporáneo a la creación del Mercosur: ellos son, de los surgidos en el último cuarto del siglo XX, los más “accesibles” en traducciones, y aun así, descontando el caso excepcional de Antunes, es muy poco lo que de ellos podríamos tener a mano. Y de sus contemporáneos, con la excepción esta vez de lo publicado por Reynaldo Jiménez en la revista Tsé-tsé, ya es prácticamente nada lo que circula, al menos en papel.

Volviendo a la línea constructivista, hay que decir que ésta alcanza con Haroldo de Campos y Ferreira Gullar un interés entre lectores no habituales de poesía, algo que hace a la difusión de las obras de ambos en el contexto hispanoamericano aun más singular. En el caso del primero, el hecho de ser el anima mater del concretismo y haber teorizado las relaciones posibles entre esta y otras poéticas como el neobarroco o prácticas de escritura como la traducción, condujo a que sus ideas despertasen el interés de lectores afincados en todo tipo de disciplinas del discurso y puso a Haroldo en un lugar de privilegio entre los interrogadores de la cultura revelados a escala continental con la vuelta de las democracias. En cuanto a Gullar, su reconocimiento por fuera del ámbito estricto de lectores de poesía fue más pese que gracias a haber teorizado en textos como el Manifiesto neoconcreto (1959) –donde urgía a los concretos a ser más existencialistas–, y mucho tiene que ver con un momento histórico en que tanto los lectores como los medios de comunicación exigían, a veces con honestidad y otras por puro deporte epocal, una participación nítida de los escritores en la vida política, exigencia a la que Gullar supo responder con altura desde su juventud como militante en las Ligas Camponesas creadas por Francisco Julião, y más tarde en el PC brasileño.
A la hora de interrogar las razones de esta desigual difusión en lengua castellana de la poesía brasileña del período en cuestión, intuyo que la repercusión de las obras de Haroldo y Ferreira Gullar tan por encima de las de sus contemporáneos (incluso de compañeros de ruta como Augusto de Campos, que curiosamente no integra la antología Puentes/Pontes) también tiene que ver con cuestiones como la preocupación, comúnmente abordada en ensayos, por una posible “estética continental” que es a su vez la extensión de un deseo de forma nacional para el período histórico en que ambos viven. Una inquietud que potencia la voluntad de diálogo y el entusiasmo por lo que se estaba escribiendo en lengua española. Que genera un diálogo concreto, por medio de cartas, viajes y exilios, con sus pares de la región. La solidez de ese gesto también los diferencia del grueso de sus contemporáneos, y los separa tal vez de sus herederos de un modo que bordea lo radical. Y es que habría un llamativo desinterés respecto de la poesía americana en lengua española. Esto no es algo que sirva en absoluto, por sí mismo, para hacer un juicio estético acerca de cada obra en particular. Hay en el período, de hecho, tendencias como la mencionada “poesía marginal” –anticoncretistas furiosos muchos de sus adeptos– que parecía hacer gala de cierta indolencia frente a toda tradición que no fuera la brasileña de la música popular o la norteamericana de los beatniks, y no por ello esta movida marginal, también llamada poesía del desbunde, dejó de dar no sólo adeptos sino poetas y poesía. Pero esta desconexión, que hace pensar bastante en el ideologema de “la isla Brasil” tan retomado a lo largo de la historia de las ideas en el vecino país, tampoco es un aspecto menor. Permite leer la soledad de las vanguardias de los 60 en su aspiración internacionalista. Permite, retrotrayéndonos ahora hasta las primeras vanguardias históricas del Brasil, poner en duda la célebre muletilla intelectual según la cual la cultura brasileña es “antropofágica” y devora todo lo que está a su alcance, puesto que aquel espíritu voraz sublimado por Oswald de Andrade no parece señalar en absoluto una constante en el terreno de la poesía. Y permite, además, acercarnos a esas propuestas que en los 80 y 90 se afianzaron como continuadoras o reformuladoras del concretismo sobre la base de una exigencia que uno no instala por capricho sino que está en el núcleo mismo de la tradición enarbolada, y ver de qué manera los referentes de esas décadas actualizaron el legado del poeta-traductor o transcreador, ya que eran ellos, y no los gozosos poetas líricos o los más o menos indolentes poetas marginales, los encargados de tal faena.

Los marginales de los 70 y su canonización

“Seria uma rima, não seria uma solução”: tal es el título de una nota publicada por Carlito Azevedo (1961) en el Jornal do Brasil en 2006 [La traducción del grueso de ese texto forma parte de este dossier]. Allí Azevedo examina las distintas propuestas surgidas o apuntaladas en los años 80. Respecto de las surgidas en ese período, el artículo tiene que lidiar con una opinión poco grata: una cierta doxa que habla de los 80 y 90 como las “décadas perdidas” para la poesía. De la enumeración propuesta por Azevedo de los que serían los libros fundamentales del período 1980-2000 surgen algunos datos no favorables para desbaratar aquella cruel valoración. Y es que, si entendemos “poesía de los 80 y 90” en un sentido acotado por el afán de subrayar lo estrictamente nuevo, lo que ni en los 60 ni en los 70 se manifestó, hay que decir que sólo tres poetas, de los cerca de veinte allí mencionados, son o pueden ser referentes netos de ese período: Paulo Henriques Brito y Dora Ribeiro, quienes comenzaron a publicar en los 80, y Marcos Siscar que lo hizo a partir de los 90. Sumemos a ellos a Régis Bonvicino, quien se estrenara a mediados de los 70, y cuya escritura importa desde el comienzo un bagaje de lecturas que acabarán siendo las más afines a este “período pos-utópico” (así lo bautiza Haroldo) y claramente distintas a las de la década anterior. Los restantes poetas mencionados por Azevedo, incluida la misma Ana César que lanza su primer libro en 1979, tienen en cambio una obra pública o al menos una intensa actividad subterránea fermentadas al calor de los temas, los modos e incluso los soportes (las ediciones mimeografiadas, por ejemplo) característicos de las décadas anteriores.
Respecto de las poéticas ya asomadas o establecidas en las dos décadas anteriores, Azevedo señala los 80 como un momento de consolidación de prestigios producto de un clima de estabilización política tras las dictaduras. En ese proceso el “bipartidismo estético” (concretos versus marginales) encuentra un suelo institucional propicio para resolver lo poco que pudo haber de conflicto: hay oídos y habrá editoriales para todos. Y en esas condiciones ocurre lo previsible: la poesía marginal se sale de los márgenes y se cierra como experiencia (siendo algunos de sus referentes lo suficientemente lúcidos como para no caer en la contradicción; otros no tanto), mientras que la poesía concreta, que por su imponente carga erudita y programática ya desde su nacimiento era un legado además de una experiencia, pasa en el nuevo contexto a enriquecer, desde una posición claramente rectora, la investigación y la producción poética

Para la poesía marginal se abren tres caminos en los 80. Uno supone la confianza en alguna de las fuerzas políticas ahora en pugna en democracia, confianza que transforma en otra cosa (¿poesía política?, más bien nuevo lirismo e incluso abandono de la poesía) lo que bajo dictadura era poesía de protesta. Aquí nos encontramos con los poetas que, concientes de que ya no se puede escribir bajo el halo de inconformismo elemental y hasta obligado dadas las anteriores circunstancias, experimentan en el nuevo contexto una simpatía política fuerte hasta la adscripción partidaria. Claro que esta simpatía no se da tanto con los partidos que en los 80 toman el poder como sí con el PT o los nuevos frentes más o menos ecologistas, implicando que recién a fines de los 90 esos poetas pudieran aparecer como actores institucionales de la cultura. Es lo que ocurre con Wally Salomão y Jorge Mautner, quienes, junto con el músico bahiano Gilberto Gil, pasaron a intervenir activamente en las redes culturales oficiales de la era Lula.

Otro camino es igual de conciente de que los presupuestos para el inconformismo han cambiado, pero en él sus referentes parecen decirnos o bien “la política nunca estuvo en el centro de mis preocupaciones” o bien “espero de la política algo más que esta democracia”. La primera de estas actitudes nuclea, casi como era de esperar, a quienes ya en los años del desbunde se distanciaron del debate elaborando propuestas solitarias a las que después la crítica un poco forzó para hacer entrar en la escena marginal (eso sobre la base biografista de las amistades o los lugares frecuentados). Sobresalen aquí Ana Cristina César y Roberto Piva, y podría incluirse también a Cacaso (los tres presentes, dicho esto al pasar, en Puentes/Pontes). Piva es un caso muy particular, un verdadero devoto de los márgenes. Creador de una poesía sintética y árida –“a cidade tosse como um índio com febre”–, realiza en vida el carácter arisco de su poesía, siendo una figura difícilmente simpática con los profesionales de la oniria y su escritura plagada de leopardos y drogas peligrosas. Y resta hablar, dentro de este camino, de Glauco Mattoso, que ya en 1981 publicara O qué é poesia marginal?, un ensayo donde satiriza los presupuestos del espontaneísmo en la poesía, y que es quien mejor encarna esa otra actitud, la de quienes reafirman el disenso en el contexto de la democracia liberal. La de Mattoso no es sin embargo una poesía política, y es que no hay en Brasil, de hecho, un poeta que a la manera del chileno José Ángel Cuevas perfore minuciosamente el sentido de esa expresión “pos-utopía” que los concretos lanzaron a rodar. La de Mattoso es una poesía satírica cuando aborda temas de la política local o regional; ya como reflexión estética, toda su producción de los últimos veinte años es un ejercicio bélico destinado a contrariar la falsa oposición poesía elaborada versus poesía vital, adoptando en consecuencia los formatos más estándar (el soneto sobre todo) para vehiculizar su apasionado disenso. Siendo la suya una poesía que iguala preocupación formal y esmero, se desinteresa en consecuencia por innovar en la disposición material del poema, y saca de esta casi inaceptable restricción la fuerza para reinterpretar la tradición popular y erudita de la llamada poesía de cordel de un modo inédito entre sus contemporáneos.

Finalmente hay un tercer camino tomado por los marginales, un camino comúnmente grotesco, donde se destacan Chacal y algunos poetas que en los 70 eran muy jóvenes (como el brasiliense Nicolas Behr). Se caracteriza básicamente por dar vuelo a un yo lírico-contestatario amante de las experiencias vitales no maculadas por la chatura de la institución, todo ello desde la institución. El patetismo se revierte si como lectores o espectadores de una performance somos capaces de obviar esta contradicción, y nos deja por momentos lo que se dice una poesía encantadora. La ciudad que hoy nuclea a los continuadores de esta sub-vertiente es Río de Janeiro, ciudad con el mayor índice continental de poetas marginales propietarios de autos de lujo. Allí funciona el CEP20000, espacio de charlas y lecturas, órgano del desborde en una nueva era [Acompaña este dossier una nota de Irina Garbatsky que hace hincapié en el impacto sociocultural efectivo de la movida pos-marginal].


Los 80: “Make it neo”

En los 80, entonces, se inaugura un tiempo de consagración de estéticas. Para la poesía del desbunde ese tiempo significó la confirmación de que lo más interesante ocurría en los márgenes del margen, y poetas como Ana César, Leminski, Piva y Mattoso pasaron a ocupar un lugar destacado en la atención de los lectores.

En lo tocante a la poesía concreta, estos años de relativa mengua en la producción por parte de quienes fueran los iniciadores de la orga –los hermanos de Campos y Décio Pignatari– van acompañados de una progresiva recepción del movimiento histórico como emblema de toda la tradición constructivista. Lo cual no significa que propuestas formales como la de João Cabral de Melo Neto quedaran en un segundo plano. Sí ocurre que el concretismo deja de ser una poética y pasa a circular cada vez más como una teoría (eso pese a su naturaleza asistemática). Y, como abarca un campo de intereses muy amplio (la traducción, las nuevas tecnologías, el diseño aplicado al texto, etc.), a la señal de que “todo está dicho” –tudo está dito, escribe Augusto de Campos en 1979– simplemente se la descree.

Habría que imaginarse un país grande –pongamos por caso México– donde el ala experimental y al mismo tiempo erudita de la poesía circa 1980 estuviera eclipsada por unas pocas figuras –pongamos allí a Paz, fantaseémosle un hermano, de preferencia más inquieto que Paz, y sumemos dos o tres figuras imaginarias moviéndose en rumbos cercanos aunque distintos. Y habría que ubicar a ese país en medio de otros treinta que hablan una lengua en común, ajena sólo a México. Sólo así uno podría darse una idea del peso de la tradición concreta o, en sentido amplio, constructivista, para los poetas brasileños surgidos en los 80. Un peso que se manifiesta también en el aspecto que más me interesa en este ensayo: la construcción de la novedad a partir de la lectura de otras tradiciones, el lado avizor de la innovación formal. En este aspecto, la máquina de traducción no dejó de funcionar y el tiempo no se “perdió”, de modo que nada justifica una generalización tan desfachatada como aquella que habla del período 1980-2000 en tanto “décadas perdidas”. Aunque sí es evidente que, en materia de lecturas y traducciones, se trató de un tiempo mayormente subordinado al proyecto de las décadas anteriores, donde muchos de los buenos y nuevos poetas se dedicaron a llenar las páginas que la agenda concretista había dejado señaladas con título y una breve descripción.

¿En qué consistía la agenda concretista para la traducción? En la profundización del conocimiento de dos estelas prácticamente inconciliables entre sí: el imagismo vía Pound y el barroco inicialmente vía Octavio Paz (esta diversidad de intereses explica por qué metáforas como galaxia o constelación son tan recurrentes en los textos donde el concretismo se define a sí mismo, lejos de otras como sistema). Haroldo conoce a Pound en Rapallo en 1959, aunque ya venían intercambiando correspondencia (hay incluso una carta donde el Signore Sterlina expresa el deseo de radicarse un tiempo en Brasil). Y conoce la poesía de Octavio Paz en 1967, provocándole un entusiasmo que lo lleva a intentar un cruce de cartas con el mexicano. Rodolfo Mata investigó ese cruce en el artículo “Haroldo de Campos y Octavio Paz: del diálogo creativo a la mediación institucional” (http://lasa.international.pitt.edu/Lasa2000/Mata.PDF). Paz, que ya en los 50 había escuchado a e.e. cummings elogiar la actividad del grupo brasileño, responde a la misiva y poco tiempo después le envía a Haroldo unos “poemas concretos” de su producción: los Topoemas.

“Topoemas” (topos + poemas): como palabra es un puntapié. Al hígado también, pero ante todo es puntapié inicial para la creación de un territorio de poemas que la reflexión teórica venía exigiendo. Ya es posible aplicar un concepto creado por el mismo Haroldo en 1955 y hasta entonces huérfano de referente: neobarroco. Después vendrán los planteos de Sarduy y Perlongher, entre otros, y su utilización por parte de los poetas brasileños del período 1980-2000.

La digestión del neobarroco requirió una dedicación casi exclusiva de estos poetas a la hora de leer la producción americana contemporánea en lengua española. Su traducción ocupó a muchos de los más destacados del período: Horácio Costa, Josely Vianna Baptista, Claudia Roquette-Pinto y Claudio Daniel, quienes vertieron al portugués a Paz, Lezama Lima, Perlongher, Kozer, Echevarren, así como también a Vallejo, Borges y Villaurrutia. Por su parte, Régis Bonvicino puso la otra nota que iba a calar profundamente en la escritura de los 90: tradujo a Robert Creeley. Si a estos nombres se añade el de Arnaldo Antunes, músico además de poeta, se tiene una idea aproximada de los referentes surgidos en los 80 y primeros 90 en lo que hace al ala constructivista; todos ellos, como se ve, comprometidos con el tendido de rieles hacia tradiciones como la poesía hispano y angloamericana o esferas como la música popular posterior al tropicalismo.

En 1991 se publica Caribe transplatino, la antología de poetas neobarrocos cubanos y rioplatenses preparada por Perlongher con traducciones de Josely Vianna Baptista. Esa publicación marca en cierto sentido el fin de una etapa subterránea, porosa y algo clandestina en la investigación y difusión de esta vertiente poética. El otro hito ese mismo año es un acontecimiento institucional: la sanción de la Ley de Mecenazgo (Lei de Mecenato, también conocida como Lei Rouanet, afinación de una medida creada bajo la presidencia de Sarney): con ella las empresas pueden girar parte de sus impuestos a fondos de incentivo cultural. Del 91 al presente, la consolidación de la estética neobarroca en Brasil va a estar estrechamente ligada a las revistas y editoriales que más interactúan con esos fondos de incentivo: revistas y editoriales con base en San Pablo y sobre todo en el estado de Paraná (ciudades de Curitiba y Londrina), posicionado como nuevo centro económico a partir del boom de la producción de soja y otras semillas, y lugar donde se editan dos de las revistas de poesía más relevantes de estos últimos años: Et Cetera y Coyote. Compartiendo el índice con textos lúcidos y arriesgados, un poema prototípico recorre esas y otras revistas; un poema armado con saberes provenientes de la lectura de los concretos, Robert Creeley y el neobarroco. En ese poema, Creeley corta los versos y pone algo de filosofía. Octavio Paz pone religión en el erotismo. De los concretos se toma un procedimiento como es la recursividad extrema de unos pocos sonidos: sol/sul/sal. Así se construye el prototipo: un poema donde en el primer verso se habla de la belleza de una raza, en el segundo alguien reza y en el tercero una mano roza. Si el poema va acompañado de una entrevista, entonces su autor habla de la poesía como un sacerdocio.

El cambio de siglo

“La superación de las dicotomías entre Eros y Logos, contenido y forma, inspiración y arquitectura, naturaleza e ingenio parece ser la América deseada por todos estos navegantes, condenados, según la profecía de Octavio Paz, a conducir revoluciones solitarias”. Estas palabras del poeta Claudio Daniel pertenecen al prólogo de Na virada do século, una antología publicada en 2002 con un subtítulo donde resuena Pound: Poesia de invenção no Brasil. Daniel y Frederico Barbosa, los compiladores, incluyeron poemas de 46 autores que comenzaron a publicar hacia fines de los 70 o que, en algunos casos, permanecían inéditos hasta entonces.

Na virada do século es la recopilación más divulgada de la poesía brasileña para el período 1980-2000. Están ausentes algunos nombres como los ya mencionados Bonvicino y Costa, el paranaense Wilson Bueno o, más cerca del fin de siglo, Marcos Siscar. Es un gran acierto, en contraste, la inclusión de poetas como el mineiro Ricardo Aleixo o el bahiano Antonio Risério (traductor de Huidobro) quienes producen a distancia de los centros editoriales. Y es un recorte, en su totalidad, muy indulgente con lo que ya para esa fecha, 2002, es una poesía escrita por reflejo. Donde la apuesta por los más jóvenes es una jugada claramente escolar. El poema prototípico campea en la antología respetando aquel modelo que naciera de una mezcla: brevedad del poema, espaciamiento de los versos, juegos de palabras por contigüidad morfológica, éxtasis erótico y ascetismo en cuanto al contenido: la carne del verso, la arruga del aire, la parte líquida de la piedra. Es injusto decir de una antología que sirve para conocer la retórica de una época. Na virada… felizmente da para mucho más; de mínima ya es una buena oportunidad para chocarse con pasajes de gozosa experimentación escamoteados entre otros de tibia recurrencia.

No se trata, sin duda, de “décadas perdidas”. Sí es evidente que en el período, y en lo que hace a la investigación formal, el ala constructivista siguió más la agenda que el proyecto de los concretos y perdió de vista el famoso espíritu antropofágico promovido por las primeras vanguardias (y en algunos casos entronizó una ideología estética hostil a los protocolos de la vanguardia, el misticismo, en un contexto poco favorable para que esa ideología ganase credibilidad: la Lei Rouanet). La poesía latinoamericana no es sino el emblema de lo que siempre estuvo a mayor alcance, y sin embargo hay campos enteros como el de la producción chilena post Neruda y Gonzalo Rojas que recién en 2003, y por medio de las páginas web, entraron en consideración. El joven poeta Ricardo Domeneck parodiaba esta situación de congelamiento por medio de la frase “make it neo” (en alusión al “make it new” poundiano).

La poesía reciente

El siglo se abre con investigaciones sin una dirección definida, esto es, con lecturas enriquecedoras. Hay que reconocer la enorme utilidad que puede tener un experimento de divulgación surgido del ámbito académico, especialmente si está a cargo de investigadores que no participan del debate en tanto poetas. Por eso es que quiero volver a Puentes/Pontes en este tramo final. Los poetas que comenzaron a publicar en los últimos años leyeron Puentes/Pontes y accedieron a un panorama que, si por un lado está muy circunscrito (poetas argentinos además de brasileños), por el otro es sumamente diverso (con poemas de Leónidas Lamborghini, Diana Bellessi, Aldo Oliva o Francisco Madariaga publicados por primera vez en Brasil). En paralelo está el trabajo cada vez más vehemente de traducción y difusión de poesía hispanoamericana (además de francesa, inglesa, etc.) que lleva adelante la revista Inimigo rumor desde 1997. Carlito Azevedo y Júlio Castañón Guimarães, sus fundadores, le imprimieron a la revista una estampa amigable (su nombre remite a Lezama Lima) pero sus intereses abarcan poéticas tan diversas entre sí como las de los peruanos Antonio Cisneros y Reynaldo Jimenez –un clásico, este último, en las coproducciones transbarrocas post ’91–. Ha sido muy productiva también la actividad del argentino Aníbal Cristobo (1971), quien se radicara un tiempo en Brasil, como miembro del comité editorial de Inimigo rumor, participando en la traducción al portugués de autores jóvenes rioplatenses.

En lo tocante a la producción surgida a partir de 2005, una evaluación estética sería apresurada; un análisis de esas obras, perjudicial al atrevimiento de armar una antología como la que rige la publicación de este ensayo, con autores de escasísima circulación fuera del Brasil. Sí me atrevo a decir que lo que tienen en común las propuestas más renovadoras es un intento de dar cuenta de la experiencia subjetiva por fuera tanto del culto a la espontaneidad como del “deseo de forma nacional”, y ello desde un evidente hartazgo frente a la supuesta magia erótica del vals de los significantes en poemas de aplicada brevedad. Ya en lo que hace a las lecturas e influencias, llama la atención la familiaridad que poetas como Angélica Freitas (1973) y Marília Garcia (1979) tienen con los aportes más recientes de la poesía hispanoamericana y francesa (respectivamente): la que va de Susana Thénon a Lucía Bianco en un caso, la línea entre Emmanuel Hocquard y Nathalie Quintane en el otro. Una familiaridad, la de ambas, que no se explica por la llegada de internet, y eso porque, de hecho, uno no encuentra ese mismo entusiasmo por la actual poesía argentina o francesa en cualquier poeta americano con blog. Freitas y Garcia dirigen, junto con Fabiano Calixto y Ricardo Domeneck, la revista-libro Modo de Usar & Co., que también tiene una versión electrónica; allí se entregan con vehemencia (sobre todo Domeneck) a la discusión y relectura de la tradición poética brasileña al tiempo que publican sus traducciones de autores ignotos en el Brasil. Un gesto bastante provocativo de esta revista es que sus hacedores, si bien dan rienda suelta a sus afinidades locales, parecen poner en lo más alto, en cuanto a la poesía escrita en lengua portuguesa, justamente a una portuguesa: Adília Lopes (1960). Tanto Inimigo rumor como Modo de Usar & Co. son, además, revistas atípicas en su actividad por fuera de los beneficios establecidos con la Ley de Mecenazgo, y ese desplazamiento los vincula de cierto modo con propuestas literalmente periféricas como las de los poetas que producen lejos de los centros editoriales –Carlos Augusto Lima (Fortaleza) y Joao Filho (Salvador), entre muchos otros–, ello pese a que en sus inquietudes unos y otros entre sí tienen a veces muy poco que ver.

Hay algo que aparta a esta nueva poesía de la búsqueda de una estética homogénea y más o menos generacional, y es lo mismo que le impide a sus hacedores hacer afirmaciones del tipo de aquella de Décio Pignatari (“poemas a la altura de los objetos industriales”) que puedan ser vistas como afines a un programa político contemporáneo –en el caso de hoy, el social-desarrollismo de la era Lula. Eso que impide la formulación programática de lo que acá llamé un “deseo de forma nacional” (eventualmente extensible a escala iberoamericana) sería justamente la conciencia de que la tradición constructivista habría estado apagada durante algunas décadas, y que por ende no existirían las condiciones para apuntalar una poética de grupo a partir de algunos retoques o ajustes en la base de lo recientemente heredado. En los textos críticos de Domeneck la herencia última es acusada de autoindulgente y cerrada al exterior, poco curiosa por lo que se estaba escribiendo al mismo tiempo en otras partes del mundo. Visto así, se entiende que el interés por promover una poética de grupo como lo hicieran los concretistas sea inmediatamente inadmisible; también lo habría sido para Haroldo de Campos si en lugar de “su” Oswald de Andrade hubiera encontrado a un repentista demasiado enamorado del color local. Todo esto lleva a una mezcla de ansiedad y desazón, que en el caso de Domeneck se manifiesta no sólo en los poemas –donde la ansiedad es un leitmotiv– sino ante todo en sus inagotables intentos por difundir la nueva poesía escrita en todos los rincones de Occidente desde el blog de Modo de usar. Su consigna es: más contexto. Y lo mismo parecen pedir, ya con algo de calma, Freitas, Garcia y Reiners Terron entre otros.

Por último, en lo tocante a la difusión O Casulo (San Pablo) y las ya mencionadas Et Cetera y Coyote (Estado de Paraná) conforman junto con Inimigo… el campo de las revistas de poesía de aparición regular (Modo de usar es muy reciente y apenas tiene un número impreso), y en todas ellas la pulsión investigadora está instalada con mayor o menor grado de riesgo y actualidad. Las ediciones en libro de traducciones del inglés nunca decepcionan; ya del español las iniciativas son escasas, y una editorial como Iluminuras, muy productiva en los 80 y 90, parece haberse estancado en este terreno, siendo su lugar aun no reemplazado por nuevos sellos como Demônio Negro (editorial que también publicó los trabajos más recientes de Augusto de Campos). Los sitios o revistas electrónicas, por su parte, son tantos que excederían los límites cordiales para una enumeración, y en muchos de ellos la máquina de leer está al día, sobre todo en los más “personales”, donde uno puede sorprenderse con traducciones quizás desconocidas para el común de los lectores de poesía en Brasil, como ocurre con la versión al portugués hecha por Antonio Miranda de varios poemas de Raúl Zurita (www.antoniomiranda.com.br). Ya en lo que hace a dar cuenta de otras poéticas o vertientes a través de ensayos críticos o de divulgación, la labor en internet no es tan firme como en las revistas impresas, aunque se destaca, además del blog de la Modo de Usar & Co., el “portal de literatura y arte” www.cronopios.com.br con sus más de cien artículos de autores brasileños y sudamericanos en general.

Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Kenneth Patchen (1911 - 1972)

O poeta estadunidense Kenneth Patchen nasceu na pequena cidade de Niles, no estado de Ohio, em 1911. Contemporâneo de poetas que se tornariam muito importantes no pós-guerra, como Charles Olson (nascido em 1910), John Cage (nascido em 1912) ou Robert Duncan (nascido em 1919), Kenneth Patchen inicia suas atividades poéticas em um dos períodos mais tumultuados da história dos Estados Unidos, em plena Depressão pós-1929, unindo-se a poetas como os que se ligaram à comunidade dos Objectivists (Louis Zukofsky, George Oppen, Lorine Niedecker, Carl Rakosi, Charles Reznikoff) e poetas "independentes" como Kenneth Rexroth, Muriel Rukeyser, Langston Hughes, Robinson Jeffers e Kenneth Fearing.

Esta "geração" de poetas, que se tornaria ativa no período entre-guerras, foi a mais politizada que o modernismo americano gerou. Trata-se de uma geração de poetas ativistas. Entre o liberalismo democrático-esquerdista de Cummings ou Williams e as tendências de Lewis ou Pound à direita (sem mencionar a posição conservadora de Eliot), estes poetas da década de 20 e 30 assumiram altos riscos da ação política, na vida e na escrita, muitos ligados ao Partido Comunista americano. Ninguém está sugerindo que sua poesia seja lida por causa de seu engajamento político. Mas é também um equívoco que eles não sejam lidos pelo mesmo motivo. Pois o cânone, que muitos crêem ser "incondicionado e neutro", exilou por décadas muitos destes poetas por motivos políticos. Basta ler seus poemas para saber que eles teriam muito a nos ensinar se suas obras tivessem a visibilidade que a seleção oficial do cânone provê a seus eleitos.


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Kenneth Patchen lê seu texto "In order to"

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Mas estes poetas realmente levavam a sério suas est-É-ticas. George Oppen e Kenneth Fearing abandonaram a escrita pelo ativismo político, foram investigados pelo FBI e pelo comitê do senador Joseph McCarthy, voltando a publicar no fim da década de 50. Oppen se exilaria no México, antes de retornar aos Estados Unidos e publicar livros importantes como The Materials (1962) e Of Being Numerous (1968). Sem abandonar a poesia, Muriel Rukeyser seguiu com seu trabalho de resistência, sendo também perseguida e investigada. Louis Zukofsky incorporou escritos políticos (até mesmo fragmentos d´O Capital, de Marx) em seu épico A, e o anarquismo de Kenneth Rexroth seria fundamental para a educação política de poetas mais jovens, como os Beats.

O período entre as duas Grandes Guerras foi marcado pela reação às vanguardas da primeira década no âmbito anglófono. Quando pensamos hoje na fama de poetas como Ezra Pound, Gertrude Stein e William Carlos Williams, é fácil esquecer que estes poetas estavam completamente soterrados e quase esquecidos até meados da década de 50 e 60, quando poetas mais jovens, como Allen Ginsberg, Jack Spicer, Frank O´Hara e John Ashbery começaram a recuperar seus trabalhos, em reação à crítica unívoca e à poesia que eram pregadas pelos New Critics, baseadas na poética tardia de T.S. Eliot e W.H. Auden, que imperaram nas décadas de 40 e 50, formando a parte mais visível e oficial do cânone. Algo muito parecido ocorreu no Brasil, com o Grupo de 45 reagindo contra os primeiros modernistas brasileiros, acusando-os de "falta de seriedade e profundidade", tomando muitos dos parâmetros dos New Critics para sua poética. Qualquer semelhança com o momento atual não é mera coincidência. Humor, a quebra das dicotomias entre as tais de cultura erudita e cultura popular, linguagem coloquial e experimentação sintática, uma alta consciência histórica sobre a posição social do poeta, assim como o envolvimento político explícito eram (e ainda são) vistos como uma espécie de traição da causa "propriamente poética". Mas, para poetas como Patchen, Oppen ou Rukeyser, assim como mais tarde para os poetas ligados à revista L=A=N=G=U=A=G=E, toda escrita tem implicações políticas, mesmo naqueles autores que se sonham "neutros e universais", mascarando, de certa forma, sua posição política, assim como dissimulam sua visão subjetiva em uma linguagem que se sonha realmente objetiva.

Talvez algo próximo daquilo que escreveu Wittgenstein, de que ética e estética são uma só?

Em poetas como Ezra Pound e Louis Zukofsky, para citar posicionamentos distintos, isto se refletia de forma direta na escrita. George Oppen o faz de forma mais implícita, em poemas como os do livro Of Being Numerous. Kenneth Patchen tem límpidos poemas de amor, sem "sombra" de ativismo político (a resistência pela negação, como queria Theodor Adorno no ensaio "Lírica e sociedade"?) e textos em que ele se entrega à resistência declarada ao sistema e à guerra. Devemos contornar a política de um poeta para poder ler seus textos? A política de direita de Ezra Pound? A marxista de Louis Zukofsky? A política impede nossa apreciação dos poemas de A Rosa do Povo (1945), de Carlos Drummond de Andrade? É mais implícita e discreta em A Educação pela Pedra (1966), de João Cabral de Melo Neto? Devemos separar os poemas "condicionados" dos "incondicionados" na obra de poetas como Kenneth Patchen? Há poemas incondicionados?

Se os primeiros modernistas encontraram seus "defensores" entre os mais jovens (ainda que muitos sigam negligenciados), os poetas da década de 30 não tiveram a mesma sorte. Sob a "acusação" de serem "meros poetas políticos", perseguidos pelo establishment literário paranóico e histérico da Guerra Fria, bons autores como Kenneth Patchen, Muriel Rukeyser, Louis Zukofsky e George Oppen seguem à margem da historiografia literária e poética americana e mundial. Apenas nos últimos anos o excelente trabalho de George Oppen, por exemplo, parece começar a dar sinais de estabelecer-se como incontornável.

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First Will and Testament
Kenneth Patchen

I here deliver you my will and testament, in which you
will find that what I am is not at all what I would: I
make no demand that you be just in weighing it, for I
know that you will be so for your own sake; but I do
charge you by the religion of poetry itself not to sneer
at some things which may seem strange to you, for I
have burnt no house but my own and nobody will
force you to warm yourself at its heat.



Aqui entrego a vocês meu testamento, no qual
descobrirão que o que sou não é por certo o que seria: eu
não exijo que sejam justos ao ponderar sobre ele, pois eu
sei que o serão para o seu próprio bem; no entanto, eu
comando pela religião mesma da poesia que não zombem
daquilo que possa lhes parecer estranho, pois eu
não queimei casa alguma além da minha e ninguém
há-de forçar que vocês se aqueçam em seu fogo.

(tradução de Ricardo Domeneck)

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Aqueles que se reuniram em uma comunidade, como os Objectivists, têm recebido mais atenção nos últimos anos, e começam a estabelecer seus lugares no cânone historicamente elíptico. Poetas independentes como Kenneth Patchen, Muriel Rukeyser, Kenneth Rexroth acabaram soterrados sob a fama daqueles que eles próprios ajudaram a educar e formar, como os media darlings dos Beats: Ginsgerg, Kerouac e colegas.

Muito do que vemos de inovação nos Beats e autores da New York School (Ashbery, O´Hara, etc), por exemplo, foi iniciado por poetas como Kenneth Patchen, Langston Hughes e Kenneth Rexroth, como a criação da jazz poetry, o retorno à tradição bárdica, o ativismo político, a boemia entre a costa Leste e Oeste americanas, a recuperação de técnicas dadaístas e a tentativa de quebra do dualismo arte/vida.

Kenneth Patchen colaborou com músicos como Charles Mingus e John Cage, gravando muitos poemas oralizados ao som do jazz, prática que Jack Kerouac tornaria mais tarde célebre.

Pelo menos dois romances de Kenneth Patchen são considerados obras únicas na língua inglesa: The Journal of Albion Moonlight (1941) e The Memoirs of a Shy Pornographer (1945). Sua escrita fluida, dividindo-se entre a claridade de um Catulo na poesia e a densidade de um Beckett na prosa, lembra-me a figura fugidia e plural de Hilda Hilst.


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Kenneth Patchen lê de seu romance The Journal of Albion Moonlight (1941)


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Eu acredito que o trabalho de Kenneth Patchen oferece interesse formal para os jovens poetas contemporâneos. Sua obra entrega-se a muitas práticas distintas e plurais, em escrita e em performance oral, criação sonora e composição visual, em prosa-poesia e poesia-prosa. Se os norte-americanos não estão muito interessados, o azar é deles. Devoremos nós a Patchen.


--- Ricardo Domeneck


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Abaixo, a excepcional poesia pictórica de Kenneth Patchen, que nos lembra o trabalho visual de brasileiros como Valêncio Xavier e Sebastião Nunes.

Patchen os chamava de picture poems.


PICTURE POEMS, Kenneth Patchen









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