Jörg Piringer é um poeta sonoro e visual nascido na Áustria, em 1974. Atualmente, vive e trabalha em Viena. Alguns de seus trabalhos incluem the joseph boys - stille nacht (performance sonora), konkrete inventionen - samplepoems (performance apresentada em Viena), hearings (trabalho organizado para o Instituto de Pesquisa Transacústica), digitale dichtung (poesia digital) e wir alle (filme sonoro-textual)."Broe Sael", vídeo-poema de Jörg Piringer. Este trabalho visual-sonoro parece-me por vezes uma releitura possível, no século XXI, da "Waste Land" de Eliot, e é como imagino o fim do mundo. Creio que estes serão os últimos sons ouvidos no planeta antes que este sucumba sob o sistema que o rege.
O trabalho poético de Jörg Piringer une poesia sonora e visual, tornando-se uma demonstração das possibilidades criativas para a poesia em outras mídias, a crença na poesia como intervenção-linguagem, fazendo-se independente do papel para composição, divulgação e distribuição.
Se o livro e a página seguem sendo um suporte eficiente para grande parte da pesquisa poética, eles também trouxeram, ao longo dos séculos, características bastante específicas para o trabalho do poeta, que dificilmente dissociam-se, hoje, da poesia em si, privilegiando certos aspectos desta, em detrimento de outros. Basta pensarmos que a poesia escrita (ou literária, digamos) não carrega, geralmente, rótulos. É chamada, de forma ilusoriamente essencialista, simplesmente de p-o-e-s-i-a, e seus praticantes muitas vezes parecem desconhecer toda a tradição poética que privilegiou o som e a performance, elementos do trabalho poético, em muitos casos, anteriores aos aspectos visuais da poesia, especialmente os que surgiram com a escrita. Houve um tempo em que o poético visual referia-se à performance corporal do poeta.
Com a exceção de certos trabalhos esparsos de Augusto de Campos entre os concretos, apenas nas últimas duas décadas surgiria um número maior de poetas interessados naquilo que se chama de "poesia sonora" ou “poesia em performance”, para diferenciá-las do trabalho poético baseado no papel, com seus suportes da página e livro. Unindo-se a Chacal, ativo na década de 70, poderíamos mencionar Philadelpho Menezes, infelizmente já falecido, André Vallias, Arnaldo Antunes e Ricardo Aleixo como exemplos de poetas orais ou sonoros, ativos a partir das décadas de 80 e 90, com um trabalho consciente e consistente neste campo. O caso de Arnaldo Antunes é o mais conhecido, creio, e seu trabalho oral parece-me muito mais interessante que seu trabalho visual.
A poesia experimental no Brasil tende a privilegiar a pesquisa visual acima de tudo e deu à poesia mundial uma contribuição incontornável e inesquecível. É necessário dizer, no entanto, que o "verbivocovisual" dos poetas concretos foi, sim, esta contribuição importante, mas avançou pouco na pesquisa de uma poesia sonora no Brasil, se comparada à de outros poetas concretos como Henri Chopin e Bob Cobbing. Parece-me que o "voco" da poesia concreta funcionava muito mais como "adendo implícito", digamos, ao trabalho visual e verbal, com a exceção de trabalhos importantes (mas, como já disse, esparsos) de Augusto de Campos.
Com o surgimento de novas tecnologias como o vídeo, à disposição dos poetas (como o papel foi também, a seu tempo, uma inovação técnica), podemos imaginar que o trabalho com a poesia possa atingir uma unidade poética entre o verbal, o vocal e o visual apenas sonhada na década de 50. Entre os jovens poetas brasileiros trabalhando hoje com vídeo, podemos citar Henrique Dídimo, que vive e trabalha no Ceará; Marcelo Sahea, que vive no Rio Grande do Sul; Laura Erber e Márcio-André, que vivem no Rio de Janeiro; ou Eduardo Jorge, que vive em Minas Gerais.
Este poema de Jörg Piringer poderia ser citado como exemplo do "poeta que faz" com a língua, mais do que um "poeta que diz" através dela. Não há metaforização ou retorno a ideais poéticos do século XIX.
Em um poema-em-vídeo como este, Jörg Piringer apropria-se da linguagem da economia (o texto refere-se apenas a porcentagens, prejuízos, preços) para agir por uma poética de implicações. Evita-se a tentação de fazer do texto a máscara de sua interpretação, com poemas em que não há como buscar o "texto-fantasma" de sua exegese, pairando além do texto-físico que temos diante dos olhos, dentro dos ouvidos.
("Sehr geehrte milben/Ilustres senhores ácaros", poema sonoro de Jörg Piringer.)
Talvez possamos usa-lo em uma leitura alternativa da proposta crítica de Jacques Roubaud, a de que “o poema diz o que diz, dizendo-o”. De qualquer forma, trata-se de poesia verbivocovisual, em que o aspecto vocal não está apenas implícito, à espera da performance do leitor, mas presente, em equilíbrio com os outros elementos. Ou, como tenho pleiteado por um retorno a certos parâmetros poéticos do Medievo, trata-se de um poeta que eu gosto de chamar de "multimedieval".
--- Ricardo Domeneck
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(Jörg Piringer em performance - Festival Proposta, 2002 - Barcelona)










