segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Jörg Piringer

Jörg Piringer é um poeta sonoro e visual nascido na Áustria, em 1974. Atualmente, vive e trabalha em Viena. Alguns de seus trabalhos incluem the joseph boys - stille nacht (performance sonora), konkrete inventionen - samplepoems (performance apresentada em Viena), hearings (trabalho organizado para o Instituto de Pesquisa Transacústica), digitale dichtung (poesia digital) e wir alle (filme sonoro-textual).


"Broe Sael", vídeo-poema de Jörg Piringer. Este trabalho visual-sonoro parece-me por vezes uma releitura possível, no século XXI, da "Waste Land" de Eliot, e é como imagino o fim do mundo. Creio que estes serão os últimos sons ouvidos no planeta antes que este sucumba sob o sistema que o rege.

O trabalho poético de Jörg Piringer une poesia sonora e visual, tornando-se uma demonstração das possibilidades criativas para a poesia em outras mídias, a crença na poesia como intervenção-linguagem, fazendo-se independente do papel para composição, divulgação e distribuição.

Se o livro e a página seguem sendo um suporte eficiente para grande parte da pesquisa poética, eles também trouxeram, ao longo dos séculos, características bastante específicas para o trabalho do poeta, que dificilmente dissociam-se, hoje, da poesia em si, privilegiando certos aspectos desta, em detrimento de outros. Basta pensarmos que a poesia escrita (ou literária, digamos) não carrega, geralmente, rótulos. É chamada, de forma ilusoriamente essencialista, simplesmente de p-o-e-s-i-a, e seus praticantes muitas vezes parecem desconhecer toda a tradição poética que privilegiou o som e a performance, elementos do trabalho poético, em muitos casos, anteriores aos aspectos visuais da poesia, especialmente os que surgiram com a escrita. Houve um tempo em que o poético visual referia-se à performance corporal do poeta.

Com a exceção de certos trabalhos esparsos de Augusto de Campos entre os concretos, apenas nas últimas duas décadas surgiria um número maior de poetas interessados naquilo que se chama de "poesia sonora" ou “poesia em performance”, para diferenciá-las do trabalho poético baseado no papel, com seus suportes da página e livro. Unindo-se a Chacal, ativo na década de 70, poderíamos mencionar Philadelpho Menezes, infelizmente já falecido, André Vallias, Arnaldo Antunes e Ricardo Aleixo como exemplos de poetas orais ou sonoros, ativos a partir das décadas de 80 e 90, com um trabalho consciente e consistente neste campo. O caso de Arnaldo Antunes é o mais conhecido, creio, e seu trabalho oral parece-me muito mais interessante que seu trabalho visual.

A poesia experimental no Brasil tende a privilegiar a pesquisa visual acima de tudo e deu à poesia mundial uma contribuição incontornável e inesquecível. É necessário dizer, no entanto, que o "verbivocovisual" dos poetas concretos foi, sim, esta contribuição importante, mas avançou pouco na pesquisa de uma poesia sonora no Brasil, se comparada à de outros poetas concretos como Henri Chopin e Bob Cobbing. Parece-me que o "voco" da poesia concreta funcionava muito mais como "adendo implícito", digamos, ao trabalho visual e verbal, com a exceção de trabalhos importantes (mas, como já disse, esparsos) de Augusto de Campos.



Com o surgimento de novas tecnologias como o vídeo, à disposição dos poetas (como o papel foi também, a seu tempo, uma inovação técnica), podemos imaginar que o trabalho com a poesia possa atingir uma unidade poética entre o verbal, o vocal e o visual apenas sonhada na década de 50. Entre os jovens poetas brasileiros trabalhando hoje com vídeo, podemos citar Henrique Dídimo, que vive e trabalha no Ceará; Marcelo Sahea, que vive no Rio Grande do Sul; Laura Erber e Márcio-André, que vivem no Rio de Janeiro; ou Eduardo Jorge, que vive em Minas Gerais.

Este poema de Jörg Piringer poderia ser citado como exemplo do "poeta que faz" com a língua, mais do que um "poeta que diz" através dela. Não há metaforização ou retorno a ideais poéticos do século XIX.

Em um poema-em-vídeo como este, Jörg Piringer apropria-se da linguagem da economia (o texto refere-se apenas a porcentagens, prejuízos, preços) para agir por uma poética de implicações. Evita-se a tentação de fazer do texto a máscara de sua interpretação, com poemas em que não há como buscar o "texto-fantasma" de sua exegese, pairando além do texto-físico que temos diante dos olhos, dentro dos ouvidos.


("Sehr geehrte milben/Ilustres senhores ácaros", poema sonoro de Jörg Piringer.)

Talvez possamos usa-lo em uma leitura alternativa da proposta crítica de Jacques Roubaud, a de que “o poema diz o que diz, dizendo-o”. De qualquer forma, trata-se de poesia verbivocovisual, em que o aspecto vocal não está apenas implícito, à espera da performance do leitor, mas presente, em equilíbrio com os outros elementos. Ou, como tenho pleiteado por um retorno a certos parâmetros poéticos do Medievo, trata-se de um poeta que eu gosto de chamar de "multimedieval".


--- Ricardo Domeneck

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(Jörg Piringer em performance - Festival Proposta, 2002 - Barcelona)

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Jorge de Sena (1919 - 1978)

Jorge de Sena nasceu em Lisboa, em 1919. Licenciou-se em engenharia civil, mas dedicou a vida toda à poesia e à crítica. Estreou em 1941, com o volume de poemas Perseguição. O título seria também biograficamente apropriado: em oposição clara à ditadura de António Salazar, é obrigado a deixar Portugal, instalando-se no Brasil em 1958. Outros livros incluem Coroa da Terra (1947), Pedra Filosofal (1950), As Evidências (1955), Fidelidade (1958), Arte de Música (1968), Peregrinatio ad Loca Infecta (1969), Exorcismos (1972) e Conheço o Sal e Outros Poemas (1974).

No Brasil, escreveu o estupendo Metamorfoses, publicando-o no ano em que se naturaliza brasileiro (1963). Em 1965, emigrou para os Estados Unidos, onde faleceu em 1978. Foi um dos intelectuais mais importantes de Portugal no século que se encerrou, e um dos mais competentes poetas, críticos e tradutores da língua luso-brasileira. Apesar de sua passagem pelo Brasil, muito pouco se edita de seus poemas no país, para nosso próprio prejuízo literário.

--- Ricardo Domeneck

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POEMAS DE JORGE DE SENA


Conheço o sal

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

§

Camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

§

Chopin: um inventário

Quase sessenta mazurcas; cerca de trinta estudos;
duas dúzias de prelúdios; uma vintena de nocturnos;
umas quinze valsas; mais de uma dúzia de “polonaises”;
“scherzos”, improvisos, e baladas, quatro de cada;
três sonatas para piano; e dois concertos para piano e orquestra,
uma “berceuse”, uma barcarola, uma fantasia, uma tarantela, etc.,
além de umas dezassete canções para canto e piano; uma tuberculose mortal;
um talento de concertista; muitos sucessos mundanos; uma paixão infeliz;
uma ligação célebre com mulher ilustre; outras ligações sortidas;
uma pátria sem fronteiras seguras nem independência concreta;
a Europa francesa do Romantismo; várias amizades com homens eminentes;
e apenas trinta e nove anos de vida. Outros viveram menos, escreveram mais,
comeram mais amargo o classicamente amargo pão do exílio, foram ignorados
ou combatidos, morreram abandonados, não se passearam nas alcovas
ou nos salões da glória, confinaram-se menos ao instrumento que melhor dominavam,
e mesmo foram mais apátridas sofrendo de uma pátria que não haja.
Além disso, quase todos escaparam mais à possibilidade repelente
de ser melodia das virgens, ritmo dos castrados,
requebro de meia-tijela, nostalgia dos analfabetos,
e outras coisas medíocres e mesquinhas da vulgaridade, como ele não. Ou de ser
prato de não-resistência para os concertistas que tocam para as pessoas que julgam
que gostam de música mas não gostam. Ainda por cima
era um arrivista, um pedante convencido da aristocracia que não tinha,
um reaccionário ansiando por revoluções que libertassem as oligarquias
da Polónia, coitadinhas, e outras. E, para cúmulo,
a gente começa a desconfiar de que não era sequer um romântico,
pelo menos da maneira que ele fingiu ser e deixou entender que era.
Uma arte de compor a música como quem escreve um poema,
a força que se disfarça em languidez, um ar de inspiração
ocultando a estrutura, uma melancolia harmónica por sobre
a ironia melódica (ou o contrário), a magia dos ritmos
usada para esconder o pensamento – e escondê-lo tanto,
que ainda passa por burro de génio este homem que tinha o pensamento nos dedos,
e cuja audácia usava a máscara do sentimento ou das formas livres
para criar-se a si mesmo. Tão hábil na sua cozinha, que pode servir-se
morno, às horas da saudade e da amargura,
quente, nas grandes ocasiões da vida triunfal,
e frio, quando só a música dirá o desespero vácuo
de ser-se piano e nada mais no mundo.

§

Glosa à chegada do outono

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera: este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Helmut Heissenbüttel (1921 - 1996)

Helmut Heissenbüttel nasceu em Rüstringen, Alemanha, em 1921. Servindo como soldado na campanha russa, com 20 anos, foi gravemente ferido durante uma ofensiva, tendo seu braço esquerdo amputado. Após a guerra, estudou Arquitetura, Germanística e História da Arte em Dresden, Leipzig e Hamburgo. Estreia em livro em 1952, com o volume Kombinationen, ao qual se seguiram, entre outros, Topographien (1956), Textbuch 1 (1960), Das Durchhauen des Kohlhaupts (1973), Eichendorffs Untergang und andere Märchen (1978), Wenn Adolf Hitler den Krieg nicht gewonnen hätte (1979) ou Das Ende der Alternative (1980). Em 1969, recebeu o prestigioso prêmio Georg-Büchner. É contemporâneo de poetas tão diversos quanto Paul Celan (1920 - 1970), Erich Fried (1921 - 1988) ou H.C. Artmann (1921 - 2000), demonstrando a pluralidade da poesia germânica no pós-guerra, e as muitas maneiras buscadas para lidar com a tradição poética de um país que acabara de passar pelo cataclismo. Como escreveu Heissenbüttel, "Wir leben in der Hölle aber wir kennen sie nicht genau / Nós vivemos no inferno mas não o conhecemos por completo".

Helmut Heissenbüttel está entre os poetas de língua alemã que retomaram a pesquisa experimental das principais vanguardas germânicas (como o dadaísmo e o expressionismo) no pós-guerra, caso de autores como os austríacos H.C. Artmann, Ernst Jandl, Gerhard Rühm e Friederike Mayröcker, ou o suíço Eugen Gomringer. Sua perspectiva experimental, porém, não se baseou em qualquer elefantíase semântica, desregramento ou atomização sintáticos. A antologia poética da qual foi retirado o texto abaixo intitula-se Das Sagbare sagen, ou seja: dizer o dizível. É inevitável aqui pensar na última proposição de Wittgenstein no Tractatus Logico-Philosophicus, de 1922 - o anno mirabilis do modernismo internacional, como Marjorie Perloff chegou a dizer. A última proposição do Tractatus, como todos sabem, é a famosa e mui citada "Wovon man nicht sprechen kann, darüber muss man schweigen" / "Sobre o que não se pode falar, deve-se silenciar." Obviamente, já se usou e abusou desta proposição, em inúmeros contextos, em geral descontextualizando-a, na verdade. Não se pode esquecer da proposição que diz: "Os limites de minha língua são os limites do meu mundo", na qual Wittgenstein investiga uma possível "sutura" (ou apenas "analgésico"?) para o dilema poético do abismo/ferida que separaria da linguagem o mundo, algo que tanto ocupara a poesia moderna a partir do Romantismo, levando quase ao esfumaçamento da linguagem entre os simbolistas (basta pensarmos em um brasileiro como Cruz e Sousa, ou num alemão como Stefan George). Algo desta proposta talvez possa ser sentida já em Mallarmé, transformando a equação "Mundo X Linguagem" em "Linguagem = Mundo". Não sei se esta proposição já foi pensada a fundo na poesia brasileira. A concentração única na chamada "função poética" da linguagem (apesar da advertência de Jakobson), ou a noção de "materialidade da linguagem" praticada pelo grupo Noigandres, levando na maior parte dos casos a uma teatralização visual do signo, não me parecem realmente levar essa proposição às consequências mais profundas.

No entanto, é justamente a Haroldo de Campos que eu recorreria para discutir um dos aspectos dos poemas traduzidos abaixo. Pois o módulo de composição de Helmut Heissenbüttel, nestes poemas específicos e em muito de seu trabalho poético, assemelha-se ao que Haroldo de Campos viria a escrever sobre a composição poética de Murilo Mendes, ou seja, o que o poeta paulista viria a chamar no poeta mineiro de uma "espécie de gerador iterativo de sintagmas, que se escandem completos e acabados", seguindo para reiterar o que Manuel Bandeira já escrevera sobre Murilo Mendes, sobre sua articulação de uma "combinatória capaz de lobrigar a concórdia na discórdia". Não iria tão longe na comparação entre Helmut Heissenbüttel e Murilo Mendes, mas o alemão também parece compor um poema "de frases inteiras", não tanto com a "violência de arestas sucessivas, arrombando com a alavanca da imagem imprevista e impressível, a porta blindada do silogismo”, mas criando uma combinatória permutativa de significados instáveis, questionando de certa maneira a noção de "objetividade" baseada em um conceito como o de mot juste, do século XIX. Já insinuei em outros artigos uma oposição possível entre os grupos experimentais do pós-guerra, especialmente os que floresceram em metrópoles como São Paulo, Paris, Nova Iorque ou Viena, ou seja, entre os grupos que se basearam nas vanguardas construtivistas (como é o caso dos brasileiros da revista Noigandres) e os grupos que se basearam no trabalho dos poetas da revista DADA e do expressionismo (caso, por exemplo, do Grupo de Viena e da Escola de Nova Iorque). No caso destes últimos, a materialidade da linguagem busca atingir a não-transparência do signo sem teatralizar demais seu aspecto visual, e baseia-se mais na instabilidade dos referentes que na tentativa de precisão na relação significante/significado, sem no entanto desprezá-la.


o negro da água e o pontilhado das luzes
o negro da água e o ocasional dos reflexos
regiões e regiões e paisagens
paisagens que eu tingi e paisagens que eu
.......não tingi
o ocasional das sombras e a cromática da claridade
o negro da negrura e a cromática da clara mancha
amarelo vermelho amarelho e vermelho vermelho
regiões e paisagens e ou
ou e ou ou

die Schwärze des Wassers und das Punktuelle der Lichter
die Schwärze des Wassers und das Gelegentliche der Reflexe
Gegenden und Gegenden und Landschaften
Landschaften die ich gefärbt habe und Landschaften die ich
.......nicht gefärbt habe
das Gelegentliche der Schatten und die Chromatik des Hellen
die Schwärze des Schwarzen und die Chromatik der hellen Flecke
gelb rot rotgelb und rot rot rot
Gegenden und Landschaften und oder
oder und oder oder


Esta perspectiva da "fala possível" evitaria também, por exemplo, o abuso que se pratica em resenhas de poesia no Brasil, o abuso do clichê que leva autores de artigos a descrever o trabalho de um poeta como sendo a "tentativa de dizer o indizível". Confesso que poucas expressões estimulam tanto meu reflexo faríngeo como esta. Questão de escolha. Talvez, para poetas do pós-guerra (especialmente no território realmente devastado pela Segunda Guerra), dizer o dizível parecia missão maior em termos est-É-ticos. Ouso dizer que o mesmo se aplica a Paul Celan, poeta sobre o qual usa-se com freqüência a descrição (a meu ver equivocada) do "dizer o indizível". A obra de Heissenbüttel é plural e variada. Sem qualquer esperança de representá-la aqui, apresentamos alguns poemas, como convite a uma pesquisa mais elaborada sobre este poeta alemão.


--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE HELMUT HEISSENBÜTTEL
em tradução de Ricardo Domeneck


minha história bíblica começa com o cheiro do campo
.......em agosto
meu paleolítico chega apenas até minha própria infância
prosódia dos vagões ferroviários
do correr descontínuo do tempo
ontem foi há três semanas
cachos de dias penduram-se fora no passado
meu desassossego é a vista das águas que são
.......partidas pelos remos das canoas
meu desassossego é o barulho dos dados
.......que rolam sobre a tábua da mesa
Ângulos dobram-se tortos sobre minha cara

§

meine biblische Geschichte beginnt mit dem Geruch der Heide
.......im August
mein Paläolithikum reicht nur bis in meine eigene Kindheit
Prosodie der Eisenbahnwagen
der unkontinuierliche Ablauf der Zeit
gestern war vor drei Wochen
Trauben von Tagen hängen aussen an der Vergangenheit
meine Beunruhigung ist der Anblick des Wassers das von den
.......Ruderbooten zerteilt wird
meine Beunruhigung ist das Geräusch der Würfel die über die
.......Schreibtischplatte rollen
Blickwinkel klappen schräag über mein Gesicht


§

manchas de tinta fogem céleres sobre o conceito
.......da tarde de setembro
um Miró de 1931 com o título Silence
o poço dos pássaros migratórios está em movimento
a lâmpada da escrivaninha resolve enigma nenhum
em vão Miró estica seus braços de Heidegger
.......a Wittgenstein
a amarelada luz pluvial da tarde de setembro cola-se
.......ao vidro da janela
os braços amarelados da tarde de setembro aconchegam
.......-me a si
a amarelada luz de setembro da tarde chuvosa golpeia
.......como um projétil de silêncio

Tintenflecke fliehen rasch über das Konzept des Septemberabends
ein Miró von 1931 mit dem Titel Silence
der Springbrunnen der Schwalben ist unterwegs
die Schreibtischlampe löst keine Rätsel
vergeblich streckt der Miró seine Arme von Heidegger
.......bis Wittgenstein
das gelbe Regenlicht des Septemberabends klebt
.......an der Fensterscheibe
die gelben Arme des Septemberabends pressen mich an sich
das gelbe Septemberlicht des Regenabends schlägt lautlos ein
.......wie ein Geschoss aus Schweigen

§

na chuva da noite de outubro de 1954 espera imóvel a fachada
.......do nuncamaisver
sobre os rostos desfolhados flutuam sequências fotográficas
.......das janelas dos trens como nuvens
não houve retorno
sinais de pontuação do sol posto
como uma lanterna infantil sumida na escuridão brilha
.......o tempo
e mesmo as histórias passíveis de narração
.......faleceram
não houve retorno


im Regen der Oktobernacht 1954 wartet regungslos die
.......Fassade des Nimmerwiedersehens
über den abblätternden Gesichtern schweben die Bilderserien
.......der Eisenbahnfenster wie Wolken
es ist nicht wiedergekommen
Satzzeichen der untergegangenen Sonne
wie eine im Dunkeln verschwundene Kinderlaterne leuchtet
.......die Zeit
und auch die Geschichten die erzählt werden können sind
.......gestorben
es ist nicht wiedergekommen

§

o negro da água e o pontilhado das luzes
o negro da água e o ocasional dos reflexos
regiões e regiões e paisagens
paisagens que eu tingi e paisagens que eu
.......não tingi
o ocasional das sombras e a cromática da claridade
o negro da negrura e a cromática da clara mancha
amarelo vermelho amarelho e vermelho vermelho
regiões e paisagens e ou
ou e ou ou

die Schwärze des Wassers und das Punktuelle der Lichter
die Schwärze des Wassers und das Gelegentliche der Reflexe
Gegenden und Gegenden und Landschaften
Landschaften die ich gefärbt habe und Landschaften die ich
.......nicht gefärbt habe
das Gelegentliche der Schatten und die Chromatik des Hellen
die Schwärze des Schwarzen und die Chromatik der hellen Flecke
gelb rot rotgelb und rot rot rot
Gegenden und Landschaften und oder
oder und oder oder

§

cansado da bocarra do presentar-se a si
inalcançável no carrossel das ocasiões recorrentes
avizinhado aos ruídos das ferrovias
além dos adeuses possíveis
irreconhecível na conectividade das relações humanas
passageiro na esperança do rever
de existência hipotética
porque a tentativa é a única garantia
porque a tentativa é a única prova


müde von der Grimasse des Sichvorzeigens
unerreichbar im Karussell der wiederkehrenden Gelegenheiten
benachbart dem Geräusch der Bahnhöfe
jenseits der möglichen Abschiede
unerkannt in der Verbindlichkeit menschlichen Verkehrs
vergänglich in der Hoffnung des Wiedersehens
hypothetisch vorhanden
weil der Versuch die einzige Gewähr ist
weil der Versuch die einzige Beweis ist


segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Pedro Casariego Córdoba (1955 - 1993)

Pedro Casariego Córdoba, também conhecido na Espanha como Pe Cas Cor, nasceu em Madri, em 1955. Iniciou seu trabalho poético por volta de 1974, escrevendo em geral poemas-em-série, como pequenos roteiros, em que personagens estranhas , num ambiente quase lynchiano, convivem com personagens históricas, como nos livros La canción de Van Horne, El hidroavión de K., La risa de Dios, Maquillaje. Letanía de pómulos y pánicos, La voz de Mallick (pelo qual recebeu o prêmio Juan Ramón Jiménez, em 1989) ou Dra. Um exemplo, que abre o poema-em-série El Hidroavión de K., escrito em 1978:

El atractivo
tejido vitamínico
que constituye el alma
de la mujer de Laos.
La torpe avitaminosis
que corroe a Kierkegaard.
La mujer de Laos
se hace un ovillo
un ovillo de lana natural.
Kierkegaard
tejerá con ella
un tapiz de color azul.
Galán de bisutería
nuestro hombre se adelanta.


(in El Hidroavión de K., 1978)

O poeta publicou pouco em vida. A maioria desses poemas-em-série seria reunida no volume Poemas Encadenados (1977-1987), publicado na Espanha pela editora Seix Barral, em 2003, dez anos após a morte do poeta. O ano de 1987, no qual escreve um único poema, marca seu abandono da poesia, passando a dedicar-se à pintura e ao desenho, até o ano de 1993, quando decide deitar-se na frente de um trem. O poeta se assemelha em sua estranheza e posição marginal, na poesia espanhola contemporânea, a Leopoldo María Panero (n. 1948), o outro "esquisito" da década de 70 espanhola. Como o poeta escreveu no poema de abertura de La voz de Mallick (1981):

Wataksi
escúchame.
He callado y he callado más aún:
mi silencio ha sido más largo
que el camino de la serpiente
más profundo
                          que el dolor de la hiena.


(La voz de Mallick, 1981)


--- Ricardo Domeneck

§
§

POEMA DE PEDRO CASARIEGO CÓRDOBA



O suicídio é só teu

                                                  Ron Padgett,
                                   Suicide is only yours
                                                                 1984

Todos se deitaram
e chegou o medo

Meu coração conta suas batidas
e tua grande bunda rosa me protege

Tua grande bunda amável me defende do frio
mas atrai os pernilongos

Tua dor não é muito grande
se podes pedir ajuda

Uma bolsa d´água quente em minha cama
e toda a solidão do mundo

Aquele bar é o ninho de bocas domadas
e agora é noite e ranges os dentes

Indefeso como o espirro de um pássaro
vejo batidas que foram minhas

Se queres meter-te uma bala
eu te emprestarei meu revólver

Meu revólver é um manancial de esperança
tão seco como o ventre de uma anciã

Assina com meu revólver um cheque sem fundos
e compra um ingresso para o fundo da terra

Uma bala é um buraco no paladar
e um jejum eterno e barato

Tua grande bunda rosa e delicada
já não pedirá carne ou ar

Quem pintou de negro meus pulmões
para a torpe alegria da noite?

Se queres meter-te uma bala
eis aqui desinfetado meu revólver.

(tradução de Ricardo Domeneck)

§

El suicidio es sólo tuyo
Pedro Casariego Córdoba

                                                  Ron Padgett,
                                   Suicide is only yours
                                                                 1984

Todos se acostaron
y llegó el miedo

Mi corazón cuenta sus latidos
y tu gran culo rosa me protege

Tu gran culo amable me defiende del frío
pero atrae a los mosquitos

Tu dolor no es muy grande
si puedes pedir ayuda

Una bolsa de agua caliente en mi cama
y toda la soledad del mundo

Aquel bar es el nido de las bocas domadas
y ahora es de noche y aprieta los dientes

Indefenso como el estornudo de un pájaro
veo latidos que fueron míos

Si quieres pegarte un tiro
yo te prestaré mi pistola

Mi pistola es un manantial de esperanza
tan seco como el vientre de una anciana

Firma con mi pistola un cheque sin fondos
y compra un billete para el fondo de la tierra

Una bala es un agujero en el paladar
y un ayuno eterno y barato

Tu gran culo rosa y sencillo
ya no pedirá carne ni aire

¿Quién pintó de negro mis pulmones
para torpe alegría de la noche?

Si quieres pegarte un tiro
aquí tienes mi pistola limpia.








sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Felipe Nepomuceno

Mapoteca é o título do novo livro de Felipe Nepomuceno, a sair em breve pela coleção ás de colete (cosac naify/ 7letras). Neste “arquivo de mapas” encontraremos reunida a produção de Felipe até o momento, além de poemas inéditos, desenhos do autor e uma seção de contos. Seus textos parecem uma tentativa de mapeamento incessante das cidades: entre Barcelona e Turim, passando por Brasília, Buenos Aires, Nova Iorque, chegando a Laranjópolis, cidade recorrente em seus livros. Tal mapeamento costuma trazer um ponto de vista muito singular, mostrando sempre um novo posicionamento em relação ao espaço. Também conhecido como "México", por ter passado parte de sua infância na cidade asteca, Felipe nasceu em São Paulo em 1975, estudou fotografia na New York School of Visual Arts e vive atualmente no Rio de Janeiro. Seu trabalho visual inclui desenhos (que aparecem sempre em seus livros, dialogando com os textos) mas também fotos, pinturas, trabalhos audiovisuais e até uma fotonovela. Seu deslocamento de um meio para o outro, da pintura para a escrita, da poesia para a fotografia, do vídeo para a prosa, do papel para a tela, se dá também de uma língua para a outra, passando do português para o espanhol e vice-versa, fazendo que sua escrita esteja sempre em movimento, como esta mapoteca de onde saem suas cidades. Em 1997, Nepomuceno publicou O Marciano, seu primeiro livro de poemas, ao que se seguiram Calamares (1999), Fotonovelas (2000) e O Aquário (2001), todos publicados pela Editora 7 Letras. A Modo de Usar & Co. apresenta aqui um conto inédito do seu Mapoteca, alguns poemas e o vídeo "Olho de mosca", realizado em 2003 em colaboração com Pedro Asbeg e Tereza Alvarez.

--- Marília Garcia

§

POEMAS, DESENHOS, CONTO E VÍDEO DE FELIPE NEPOMUCENO

Mapoteca


A cidade é mais bem um povoado,
tem apenas 7 gavetas,
vive sozinha, dorme ao meu lado,
tem apenas 7 gavetas:

Mapoteca guarda todo significado.

§


(Ilustração de Felipe Nepomuceno)

§

Madrid


Capital,
os madrilenhos falam espanhol
e não fotografam o Mediterrâneo.

Os clubes: Real e Atlético.

Os museus: Reina Sofia,
Thyssen Bornemisza,
del Prado, del Jamón.

O rei festeja
perto da ponte dos suicidas.

Nesta cidade sem oceanos
existe uma estátua para Netuno.

A rua del Camino de la Luna
nunca faz esquina
com a Amor de Dios.

§



.


"Olho de mosca", (2003)
DIREÇÃO, PRODUÇÃO, EDIÇÃO E FOTOGRAFIA: Felipe Nepomuceno, Pedro Asbeg e Tereza Alvarez
FINALIZAÇÃO DE SOM: Marcos Rogozinski
Documentário sobre a poesia, na visão de quatro poetas contemporâneos: Arnaldo Antunes, Antonio Cícero, Carlito Azevedo e Paulo Henriques Britto.

§

2839

2839, traz milonga, traz milonga,
te he conocido siempre igual,
traz milonga,
triste solitário e final,
traz milonga,
traz
morcilla de sangue com nozes,
traz
alfajores brancos,
traz
talheres de Córdoba,
traz
você,
traz você agora.

Longe, muito longe,
é assim:
longaniza.............28
yaniqueque..........39
alcapurrias...........28

Era junho?
chovia?
naquel dia igual a tantos outros igual
ao dia de hoje:

Internado num hospital,
o legendário cantor de rockabilly Carls Perkins,
com ostruções na artéria caródita.

Internado num hospital,
o legendário cantor de rockabilly Bob Dylan,
com inflamações na membrana que envolve o coração.


Morcila de sangue,
traz você,
traz você,

amora.

(Ou melhor; amora-vermelha
da cor do sangue,
da papoula,
do rubi)

Que
volta, sempre volta,
chama, sempre volta,

sempre,
sempre,
volta sempre,
milonga traz.

§


(Ilustração de Felipe Nepomuceno)

§

Barcelona


Em junho faz calor,
Catalunya é beira-mar
e as pessoas são mariscos.
O idioma,
principalmente quando está escrito,
é bonito.

Començament dibuix pluja
suposada nosaltres estiu
lletres vermell infinits

§

Barcelona número dois


Barcelona não tem culpa
de tanta dor que carrega:

aqui os amigos vão embora
e a beleza das ruas nunca chega.

§


(Ilustração de Felipe Nepomuceno)

§

Turim


Homens enlouquecem
e fabricam automóveis usando magia negra.
As regiões moram no norte da Itália.
Cozinheiras dominicanas
preparam pasta.
Amore é namorado.

A vanguarda russa
gosta de Turim?


§

Monterrey


Os aeroportos vivem cheios
de gente dormindo,
Monterrey,
cidade tempestade:

os mexicanos resistem imaginando
que o Sol é um enorme comprimido.


§

Buenos Aires


O ar da cidade assovia música,
Buenos Aires deveria se chamar Piazzolla.
Submarino, copos, Quilmes e choripan.
Maradona, Cortázar e Mario Kempes.

Mulheres lindas não precisam ter nome.


§

As coisas são assim


Não fale demais,
não dificulte a chegada do amor


Quando você esquece o guarda-chuva é um sinal
eu falo, você não
obrigado por ter ligado: é um sinal
eu falo, você não
ganhei um par de cinzas no paraíso
não fale demais
caminhei hoje pela noite buscando você
meus olhos estão doendo
e não gosto de computador
seus olhos
podem mais que seu amor.

§


Conto inédito do livro Mapoteca

Por isso resolvi dar mais uma volta no quarteirão

Por isso resolvi dar mais uma volta no quarteirão. Segui até o final da rua e desviei na Selva de Pedra.
O desvio, na verdade, era uma curva obrigatória. A Selva de Pedra não perdoava ninguém e aquele prédio sofria diariamente com isso. De um lado, a Selva de Pedra. Do outro lado o mar, o precipício.
Ultimamente é a menor distância que tem decidido. Qualquer mudança perde para ela, mas o amor dá voltas e faz da idéia de destino um doloroso alívio.
Só isso: ela ainda estava lá quando terminei de dar a volta no quarteirão. Tinha sentado em uma espécie de meio-fio. Quando voltei, fiquei feliz: ela fumava um cigarro que depois dividiu comigo.
Olhei durante anos aquele prédio.
Ela uma vez me escreveu uma carta dizendo que vivia cercada pela Guerra do Paraguai, que tinha pesadelos imaginando que todas as ruas do mundo tinham o nome de assassinos e que o Leblon um dia foi realmente assim.
Ela achava que o amor não dava voltas e que uma guerra era mais importante do que qualquer livro.
Olhei durante anos aquele prédio. Ultimamente é a menor distância que tem decidido.
Eu sei, ela não mora mais lá. Agora fuma cigarro escondido.
Por isso resolvi dar mais uma volta no quarteirão. Segui até o final da rua e desviei na Selva de Pedra. Olhei fixamente para o mar e toquei a campainha: só isso.
Ela não mora mais lá, coração, precipício.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Homenagem a Raymond Federman (1928 - 2009)

Raymond Federman nasceu em Montrouge, na França, em 1928. Em 1942, durante a ocupação nazista do país, sua casa é invadida, sua família é presa e mais tarde deportada para Auschwitz, onde são todos assassinados. Sua mãe consegue esconder o jovem poeta, com 14 anos, em um armário com fundo falso, de onde ouve o que acontecia com o resto da família. O autor descreveria esta experiência horrível no trabalho bilíngue The Voice in the Closet/La voix dans le cabinet de débarras (1979). O jovem Federman permaneceria no "subterrâneo", como se diz dos judeus que se esconderam por meses ou anos para escapar da perseguição e assassinatos pelos nazistas, até fugir da área ocupada, emigrando mais tarde para os Estados Unidos, onde passa a escrever, em francês e inglês, livros inclassificáveis que ele por vezes chama de "surfiction" ou "critifiction". Seu primeiro livro publicado foi um estudo sobre outro autor bilíngue, que serviria de modelo para Raymond Federman: Journey into Chaos : Samuel Beckett's Early Fiction (1965), e o primeiro trabalho literário viria dois anos mais tarde: Among the Beasts / Parmi Les Monsters (1967). Outros livros incluem Me Too (1975), Take It Or Leave It (1976), The Twofold Vibration (1982), Critifiction: Postmodern Essays (1993) e Mon corps en neuf parties / My Body in Nine Parts (2002). O autor que produziu romances, poesia e crítica, sempre com a preocupação de salvaguardar a voice within a voice, morreu esta semana em San Diego, Califórnia.


POEMA DE RAYMOND FEDERMAN

Diga-lhes

àqueles de viagem
com você agora
milhas a-
dentro
do imperdoável
como fomos nós
(que sempre os
acompanhamos)
que com força
os afundamos
ainda mais longe
nas funduras
onde encontraram
nossos amaríssimos
sonhos
e também os
dulcíssimos
e como mais tarde
mais tarde
de um lado a outro
de um lado a outro
no oco de nossos
nomes inextinguíveis
aprendemos juntos
a voar de novo
juntos
em nosso nome

(tradução de Ricardo Domeneck)

§

Tell them
Raymond Federman

those traveling
with you now
far in-
side
the unforgivable
how it was us
[who are with you
always]
pushed you
hard
deeper in-
to
the deep
where you found
our most bitter
dreams
our sweetest
dreams too
and how later
later
back and forth
back and forth
in the hollow of our
inextinguishable names
together we learned to fly
again
to fly away
again
together
in our name


.
.
.

domingo, 4 de Outubro de 2009

Daniel Faria (1971 - 1999)

Daniel Faria nasceu em Baltar, pequena vila portuguesa, em 1971. Estudou Teologia na Universidade Católica, licenciando-se mais tarde em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Após os estudos, optou pela vida monástica e ingressou no Mosteiro Beneditino de Singeverga, onde iniciou seu noviciado. Publicou em vida os livros Uma Cidade com Muralha (1991), Oxálida (1992), A Casa dos Ceifeiros (1993), Explicação das Árvores e de Outros Animais (1998) e Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998), aos quais se seguiram, de publicação póstuma, Legenda para uma casa habitada e Dos Líquidos, ambos no ano 2000. O poeta morreu após um acidente doméstico em 1999, pouco antes de terminar seu noviciado, ainda no mosteiro de Singeverga.

Ao falecer, Daniel Faria tinha 28 anos, mesma idade com que morreu, por exemplo, o poeta brasileiro Torquato Neto (clique AAQQUUII). Deixara alguns livros, nos quais demonstra seu talento em vários belos poemas, com uma pesquisa interessante das possibilidades, no fim do século, de uma lírica pura, pesquisa que liga sua poesia à linhagem de alguns dos primeiros modernistas, como Juan Ramón Jiménez, Henriqueta Lisboa ou Anna Akhmátova.

A poesia em língua portuguesa está marcada, como tantas outras, por passagens meteóricas de poetas que não tiveram ou não se deram o tempo para construir aquilo que editores e historiadores literários tão facilmente chamam mais tarde de Obra. Uns deixam poucos poemas muito bonitos e ainda estimulantes, como o próprio Torquato Neto ou Pedro Kilkerry (morto aos 32 anos), outros o arco incompleto de um trabalho que se esboçava, como Mário Faustino (morto também aos 32 anos) ou Ana Cristina César (morta aos 31 anos).

Nada mais distante da poesia atormentada pela dúvida de um Torquato Neto, do que a poesia lírica de uma personalidade estóica como a que Daniel Faria parece demonstrar nestes textos. Mas nós sabemos que há tempo para tudo sob o sol, como diz o Livro de Eclesiastes, ou, parafraseando os versos de Robert Browning, que há os que levam uma vida de fé, pontilhada pela dúvida, e os que levam uma vida de dúvida, pontilhada pela fé.

--- Ricardo Domeneck

§

POEMAS DE DANIEL FARIA

Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena

Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos

Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem

É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O cerco
Do voo é a pedra da idade

Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la

§

Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita


§

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

§

Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança

Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas
Que nos chegam da distância

Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas

Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas

§

Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

§

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.

§

Acontecera que as coisas se destruíssem sem que nelas sobrevivesse
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
A não ser que haja o equilíbrio na vertigem
Uma luz parada no meio da voragem.