"Poetry is the theory of heartbreak. That sentence can be rearranged so that its nouns are in any order of precedence, and still be true." — David Bromige (1933 - 2009)DAVID BROMIGE EM CONTEXTOpor Ricardo DomeneckDavid Bromige fez, se quisermos parafrasear a citadíssima de Pessoa, da língua inglesa sua pátria. O poeta nasceu em Londres, Inglaterra, em outubro de 1933. Quando ainda criança, sobreviveu ao bombardeio incessante da cidade pelos nazistas, durante a Segunda Guerra. Mais tarde, deixaria seu país e migraria para Vancouver, no Canadá, onde passou a estudar na
University of British Columbia, entrando em contato com os poetas canadenses desta geração, como George Bowering ou Frank Davey.
No famoso
Vancouver Poetry Festival, de 1963, conhece poetas um pouco mais velhos que ele, como Robert Creeley, Charles Olson, Allen Ginsberg ou Robert Duncan, os primeiros grupos do pós-guerra imediato, que começavam a retomar a pesquisa modernista de Stein, Pound ou Williams, após o interregno de reação contra a poética experimental nos anos 40, reação conduzida pelos
New Critics, baseados no trabalho poético tardio de T.S. Eliot e W.H. Auden.
Jovem demais para pertencer a qualquer um destes grupos, como os
Beats, a
New York School ou os poetas ligados à
Black Mountain College, Bromige encontraria em alguns deles, como Robert Duncan, mentores e grandes incentivadores.
Nesta época, o poeta muda-se para a Califórnia, nos Estados Unidos, onde passaria o resto de sua vida, produzindo seus livros, que o tornam um elo entre os poetas da
New American Poetry e os mais jovens de entao, ligados à revista
L=A=N=G=U=A=G=E, de quem, por sua vez, torna-se mentor e incentivador.
David Bromige estreou em 1965, com a coletânea
The Gathering, publicando mais tarde, entre muitos outros títulos:
Please, Like Me (1968),
Ten Years in the Making (1974),
In the Uneven Steps of Hung Chow (1982),
It's the Same Only Different/The Melancholy Owed Categories (1984),
Tiny Courts in a Year Without Scales (1991),
A Cast of Tens (1994) ou o lindo
As in T, As in Tether (2002).
David Bromige morreu este mês, a 3 de junho de 2009.
§
Abaixo, apresento dois poemas de David Bromige, em tradução para o português:
POEMAS DE DAVID BROMIGEEste lótus lindo é enorme
Nele um flamingo dormita
Uma perna erguida flamingo
Entre ocre & orange
Roxo & azul & rosa
Esta figura lembra um elefante
Cereal & orange muco místico
Dependem da sua probóscide
Lembram medalhas toscas
A chamar o sol à mente
Você foi destinado ao anterior
Tornou-se porém o posterior
Instituições correm para explicar
Coringa de cereal no escuro "ar"
Você está preso ali ad aeternitatem
Cercado por distintivos e delegados
E símbolos místicos destarte
O espaço foi tagarelado às migalhas
Para figura em saia justa nada mais
Brandindo objeto cortante para matar
Com o lótus o texto esqueceu menção
A quatro linhas de escrita tesa
Você podia tê-lo previsto
Regido conduta mais apropriada
Beijado largamente o lótus
Agora é C abaixo de meio e tarde
Lembre todo mundo que você foi
Um dia será & o que você virou
Aponte para si mesmo e diga Eu
§
This beautiful lotus is huge
A flamingo roosts within it
One leg drawn up flamingo
Amid ochre & orange
Purple & blue & pink
This figure resembles an elephant
Oatmeal & orange mystical snot
Depend from his proboscis
Resemble medals crudely shaped
To call the sun to mind
You were intended for the former
You became instead the latter
Authorities rush to say why
Oatmeal clown upon black "sky"
You are stuck there for Eternity
Surrounded by sherriff's badges
And mystical symbols because
Space was bumblingly left over
For figure in short skirt naught else
Waving sharp object to kill you
Beside the lotus text forgot to say
Four lines of tight writing
You could have seen it coming
Ordered your conduct accordingly
Kissed the lotus so long
Now it's C below middle too late
Remember everyone who you were
Going to be & how you turned out
Point to yourself and say Me§
Descobri o trabalho de David Bromige no ano passado, ao ler a antologia
In The American Tree, editada por Ron Silliman, em que o poeta americano reúne o trabalho de poetas associados àquela que ficou conhecida como
language poetry. O trabalho de Bromige, como disse, parece exercer uma ligação entre a est-É-tica do pós-guerra imediato, como a de Duncan, Spicer ou O`Hara, à de poetas posteriores, como Silliman, Bernstein ou Hejinian.
Abaixo, apresento o segundo poema de David Bromige. Gostaria de tecer alguns comentários sobre a tradução deste segundo texto, ligados à discussão sobre o trabalho em geral do tradutor de poesia. Sempre me fascinou o trabalho de tradução de poemas que nos apresentam não apenas desafios de vocabulário e sintaxe, mas aqueles textos que estão tão ligados a um contexto histórico e geografia linguística específicos, que sua tradução nos propõe tarefas quase intransponíveis, se quisermos evitar certos efeitos de
exotismo, assim como o trabalho de ir
além daquilo que o poeta disse em sua língua, mostrando (algo muito mais importante, já que se trata de poesia e não de ensaísmo ou filosofia) aquilo que o poeta
fez com sua língua. Discuto isso largamente em meu artigo "Tradução, contexto e migrações possíveis", que pode ser lido
AAQQUUII.
Poemas distintos trazem problemas distintos, é claro. Alguns exemplos bastante práticos: sempre me incomodou ler traduções de poemas brasileiros como, por exemplo, "E agora, José?", de Carlos Drummond de Andrade, em que o tradutor, seja para o inglês, alemão ou francês, mantem o "José" na tradução, criando um efeito apenas exotizante, evitando que o leitor em inglês, alemão ou francês possa realmente fruir o texto como um brasileiro o faz. Eu, pessoalmente, se estivesse a traduzir este poema específico para o inglês, vertê-lo-ia como "What now, Jack?", ou algo parecido.
Outro instante frequente de exotismo acontece com o hábito de publicar o
Dom Casmurro, de Machado de Assis, sem traduzir-lhe também o título, esquecendo-se que o trabalho irônico de Machado começa já ali. Seja nos Estados Unidos, Alemanha ou França, o livro é invariavelmente publicado como "Dom Casmurro", ato de exotismo, em minha opinião, buscando efeitos-paralelos de referência a obras como
Don Quijote ou o
Don Juan.
É claro que há o argumento de que um poema permite-nos "visitar" um contexto e paisagem alheios, como eu mesmo já defendi a historicidade do trabalho poético, a partir dos textos de poetas como Catulo, Arnaut Daniel ou Cavafy, em cujos textos seus contextos históricos sobrevivem, ainda que tenham submergido em nosso tempo. Sim, é verdade. Há textos, de qualquer maneira, que seriam muito difíceis de "transcontextualizar", como certos poemas extremamente irlandeses de W.B. Yeats. Como, no entanto, sem jamais visitar aquela paragem, compreender exatamente o que é fugir para a paisagem de Innisfree? É, obviamente, um exemplo extremo.
Vejamos de que maneira o texto de David Bromige está ligado a um contexto específico.
Extraído do livro
As in T, As in Tether (2002), como outros textos do livro (leia 10 deles
AAQQUUII), o poema trabalha com várias referências a poetas já mencionados aqui, assim como o contexto dos debates est-É-ticos norte-americanos do pós-guerra, ao qual estes poetas estão ligados. Pergunto-me se seria possível ou aconselhável, na tradução deste poema, intitulado "Coming out of the ether", minha idéia de tradução como transcontextualização, como expus no artigo "Tradução, contexto e migrações possíveis". Eis o poema no original:
Coming Out of the Ether
Every six months shove steel into me.
Use all the locals you want (please)
It'll still unify me
By pinning my many in
Authentic selves to the single thing
They're only shadows of.
Goodbye Piccadilly, Farewell hysteria,
Everyone was singing the same song,
And it wasn't in my dreams
Where I've been seeing you.
It's like being told
I'm harboring a fatal disease,
But more so, much
And yet not at all, much
Better. It's like real
Sex but not much like that either.
Just that it makes me sane.
Why bother adding that
Is only a feeling?
It's like being Creeley
Or really any of those people
Turning eighteen during WWII,
Part of a giant Chance
Sink or swim so they swam.
Put their queer shoulder
To the general wheel.
The name of the foundering
Vessel's "Leviathan."
Captains of industry
In the lifeboats first,
And money is that industry,
Leaving us breathless.
You, me, & our friend M.
As for our particulars,
Send your blank checks
C/o Soren Kierkegaard,
101 The Dell, Walnut Creek.
We'll be the view from his deck.
Scalpel.A primeira questão surge na linha "Goodbye Piccadilly, Farewell hysteria", com o uso contextual de locais específicos, pelo que sugerem ao leitor em contexto, mas também como trabalho sonoro. Há um trabalho melódico e de ritmo na linha, associando
Goodbye/Piccadilly e
Farewell/Hysteria. Seria possível apenas traduzir, literalmente, obtendo "Adeus Piccadilly, Boa Sorte histeria", especialmente por se tratar de um local razoavelmente conhecido. Outra opção seria buscar reproduzir os efeitos que o texto tem sobre um leitor da língua inglesa, ao permitir que o leitor brasileiro o compreenda em sua realidade. Assim, contextualizando o que aqui é feito para os leitores brasileiros, poderíamos optar por transcontextualizar o verso como "Adeus Pinheiros, Até mais histeria", escolhendo transformar a localidade contextual-biográfica do autor pela minha, como seu tradutor. De sua Londres à minha São Paulo. Assim, seria a idéia de "transcriação", de Haroldo de Campos, unida à preocupação não apenas com o verbivocovisual da forma, mas incluindo a ele outros dois conceitos, formando uma nova tríade, que seria forma/função/contexto. Pode ser exagerado, mas imagino que isso poderia trazer um leitor brasileiro mais próximo daquilo que Bromige
faz em seu texto, ainda que se afaste do que
diz. Seguindo, na segunda estrofe, surgem problemas de tradução mais difíceis:
"It's like being Creeley
Or really any of those people
Turning eighteen during WWII,
Part of a giant Chance
Sink or swim so they swam.
Put their queer shoulder
To the general wheel."Aqui, Bromige refere-se a dois poetas americanos mais velhos que ele, nascidos ambos em 1926: Robert Creeley e Allen Ginsberg, poetas de uma geração que atingiria a maioridade e começaria a escrever em plena Segunda Guerra Mundial, pouco tempo antes dos Estados Unidos serem catapultados, após a devastação da Europa, à liderança hegemônica e imperialista do globo. A referência a Creeley é direta, ele o nomeia: "It´s like being Creeley", que completa 18 anos em 1944. A referência a Ginsberg vem nos versos finais: "Put their queer shoulder
/ To the general wheel", citação do último verso de "America", escrito por Allen Ginsberg em 1956:
"It's true I don't want to join the Army or turn lathes in precision parts
factories, I'm nearsighted and psychopathic anyway.
America I'm putting my queer shoulder to the wheel."Allen Ginsberg, "America"
A expressão, à qual o homossexual Ginsberg inclui sarcasticamente a palavra "queer", é o "to put one´s shoulder to the wheel", usada no contexto de esforçar-se em um trabalho ou tarefa específicos. Ginsberg refere-se também, em seu poema, ao contexto militar, com a linha "It´s true I don´t want to join the Army". Assim, a dificuldade de tradução aqui é grande, se quisermos manter, como já escrevi, não apenas o que Bromige diz, mas também o que ele faz.
Além disso, há que se encontrar a melhor maneira de traduzir o difícil "Sink or swim so they swam", tão rítmico e direto, algo como "entre afundar ou nadar, eles nadaram". A solução literal, "Afundar ou nadar então nadaram", parece-me perder todo o trabalho sonoro de Bromige, a aliteração em "s", a urgência que as palavras mínimas transmitem. Uma possível solução, se buscarmos manter algum trabalho sonoro, seria "Náufrago ou náutico, nada", mantendo o mesmo contexto de "sink or swim". Outra opção seria "A nado ou a pique, nadam", se a concisão for a prioridade, não por alguma cartilha de qualidade poética ditando o mínimo ou monossilábico, mas porque as palavras, no original, têm uma função específica: criam um efeito de urgência, emergência na decisão.
O que fazer com as características mais contextuais do poema? No caso de uma tradução, haveria sempre a opção de manter o nome de Creeley no poema, traduzir da melhor maneira os últimos versos, esperando que se mantenha a referência a Ginsberg na tradução. No entanto, como traduzir um verso que está baseado em uma expressão de que não temos equivalente exato em português? Minha opção foi usar a expressão "comer o pão com o suor de seu rosto", que transformo em "Comeram seus pães / Com o suor de seus postos", buscando o contexto militarista do original e da citação a Ginsberg. Esta opção nos daria os versos em português:
É como ser Creeley
Or qualquer um com 18 anos
Durante a Segunda Guerra,
Parte do Acaso gigante
A nado ou a pique, nadam.
Comeram seus pães
Com o suor de seus postos.Como poderíamos transcontextualizar estas linhas? Em primeiro lugar, a Segunda Guerra não teve o mesmo significado, para o Brasil, que teve para os Estados Unidos. O Brasil também enriqueceu-se durante a Guerra, mas o efeito sobre a geração de poetas americanos foi diferente, mais forte. O impacto das perdas humanas foi também maior nos Estados Unidos. No entanto, creio que seria necessário substituir mais que o nome de Creeley, caso exercitemos a prática poética mais livre nessa tradução, transcontextualizando o texto. Pois imaginei a possibilidade de substituir Creeley por um poeta brasileiro de impacto semelhante, ainda que mais velho: João Cabral de Melo Neto. No contexto brasileiro do momento em que Cabral completava seus 18 anos, o que mais impactava o país era o recém-fundado Estado Novo, de Getúlio Vargas. Pensei, destarte, na seguinte transcontextualização:
É como ser Cabral
Or qualquer um com 18 anos
Durante o Estado Novo,
Parte do Acaso gigante
Veto ou voto, vaticinam.
Põem-se a comer seus pães
Com o suor de seus postos.Como disse, afastamo-nos, assim, muito do que Bromige
diz em seu texto. Minha intenção (talvez ilusão?) é que assim nos aproximemos, em português e no contexto brasileiro, talvez, daquilo que ele
fez em inglês e no contexto americano. O último trecho a discutir seria o final da última estrofe:
You, me, & our friend M.
As for our particulars,
Send your blank checks
C/o Soren Kierkegaard,
101 The Dell, Walnut Creek.
We'll be the view from his deck.
As rimas aqui são mais claras, marcadas:
checks/decks, com eco em
Creek. Assim como transcontextualizaria "Piccadilly" por "Pinheiros", poderíamos usar um endereço brasileiro para o que Bromige apresenta a Kierkegaard. Desta forma, para manter as rimas, sugeriria, em português, os versos:
Enviem os cheques em branco
A/c Soren Kierkegaard,
Número 101, Avenida Ipiranga.
Seremos a vista de seu banco.Quanto a "You, me, & our friend M.
", para manter assonância em "friend M", ressoando em "scalpel", sugeriria "amigo π", que vem a ressoar ao final com "bisturi". Portanto, eis a minha proposta de transcontextualização para o segundo poema de David Bromige, intitulado, no original, "Coming out of the ether":
Abandonando o ÉterA cada seis meses enfie em mim aço
Use (por favor) os locais que quiser
Não deixará de unificar-me
Ao abotoar meus muitos
Eus autênticos à coisa única
De que são apenas sombras.
Adeus Pinheiros, Até mais histeria,
Todos cantavam a mesma canção,
E não era nos meus sonhos
Onde vejo você com frequência.
É como ser informado
Que nutro doença letal,
Mas quanto mais, muito
E ainda nem tanto, muito
Melhor. É como sexo
De verdade ou nem mesmo isso.
Apenas a salvo minha sanidade.
Por que perder tempo em dizer
Que não passa de sentimento?
É como ser Cabral
Or qualquer um com 18 anos
Durante o Estado Novo,
Parte do Acaso gigante
Veto ou voto, vaticinam.
Põem-se a comer seus pães
Com o suor de seus postos.
"Leviatã" é o nome
Da nau que afunda.
Capitães da indústria
Primeiro nos botes,
E dinheiro é a indústria
Que nos rouba o fôlego.
Você, eu & nosso amigo π.
Quanto aos nossos detalhes
Enviem os cheques em branco
A/c Soren Kierkegaard,
Número 101, Avenida Ipiranga.
Seremos a vista de seu banco.
Bisturi.
§
--- Ricardo Domeneck